Nasa acredita que viagem mais rápida do que a luz pode ser possível
A julgar pelo corajoso trabalho de alguns cientistas, o futuro da exploração espacial parece bastante promissor. Enquanto o maior caçador de planetas americano sai em busca de super-civilizações, um físico da Nasa desenvolve um meio de visitá-las.Geoff Marcy, da Universidade da Califórnia, ficou famoso a partir de 1995, quando começou a descobrir uma série de planetas fora do Sistema Solar - e por pouco não inaugurou esse campo de estudo, iniciado meses antes por Michel Mayor, do Observatório de Genebra.
Encorajado pelo sucesso, agora decidiu investir os seus talentos em trabalhos mais especulativos. E o surpreendente é que lhe deram a verba - inicialmente modesta, para isso.
O dinheiro vem da britânica Fundação Templeton. O plano mais chamativo que Marcy tem para o financiamento é a busca de povos extraterrestres extremamente avançados, tão tecnológicos que chegariam a modificar estrelas.
Tais povos criariam estruturas apelidadas de esferas de Dyson (em homenagem ao físico Freeman Dyson, responsável por propor que estas seriam possíveis) em torno das suas estrelas natais.
Elas serviriam para obter o máximo possível de recursos energéticos de determinado astro. E esse «parasitismo» cósmico deixaria traços na luminosidade que escapa da estrela, permitindo, em tese, que telescópios na Terra detectassem tais pistas.
Enquanto isso, Harold «Sonny» White trabalha num laboratório do Centro Espacial Johnson, da Nasa, para tornar as viagens interestelares possíveis.
Com as tecnologias actuais, atravessar a vasta distância entre as estrelas é difícil. Veja-se, por exemplo, o caso do vaivém Voyager-1, lançado em 1977 e hoje o objecto mais distante já enviado pelo homem para o espaço. Se fosse apontada na direcção de Alfa Centauri, o sistema estelar mais próximo, chegaria lá em cerca de 75 mil anos.
Pior ainda, as viagens interestelares esbarram na inconveniente teoria da relatividade, que dita que nada pode viajar mais depressa do que a luz. O limite de velocidade universal seria, portanto, 300 mil km/s -4,3 anos para chegar a Alfa Centauri.
A saída seria usar outro truque da relatividade. Se, por um lado, há um limite máximo de velocidade, por outro a teoria sugere que é possível «curvar» o espaço, compactando-o e esticando-o conforme a necessidade.
Essa foi a premissa usada na série de televisão «Star Trek» para impulsionar a nave Enterprise. Encurtando o espaço à frente da nave, pode-se viajar a uma velocidade modesta e ainda assim, para um observador externo, ir mais rápido que a luz.
Ficção? Em 1994, o físico mexicano Miguel Alcubierre escreveu um artigo científico sugerindo que tal feito seria possível, mas exigiria níveis de energia equivalentes à massa de Júpiter, o maior planeta do Sistema Solar.
Harold White tem trabalhado no problema e descobriu que, mudando a configuração da criação do campo de dobra, é possível obter o mesmo efeito com energia equivalente à da massa do Voyager-1, pouco mais de 700 kg.
«As descobertas mudam o estatuto da pesquisa de impraticável para plausível e meritória de mais investigação», diz White, que está a montar uma experiência de laboratório para testar a ideia.
Usando lasers e uma bobina com forma de anel, ele espera criar a primeira demonstração experimental de uma dobra espacial, que tentará distorcer o espaço-tempo em escalas submicroscópicas.
Ainda é muito pouco para levar uma nave até Alfa Centauri, mas seria pelo menos uma prova de princípio.
Mesmo com a redução da energia necessária (e vale dizer que 700 kg de matéria convertida em energia equivale ao consumo anual dos EUA), ainda resta um problema: as distorções para a dobra espacial exigem o que os físicos chamam de densidade de energia negativa.
Isso não é expressamente proibido pela física (no mundo quântico, das partículas elementares, às vezes surgem quantidades diminutas de energia negativa), mas ninguém sabe como chegar lá. Um teste de laboratório talvez seja capaz de funcionar com os efeitos quânticos diminutos que os físicos já geram, mas um vaivém exige bem mais.
Para resolver isso, os físicos estão a explorar soluções como manipular energia escura (a força de expansão acelerada do Universo, hoje pouco compreendida) e a possibilidade de que existam mais dimensões além das quatro que conhecemos. Há muito trabalho pela frente.
Lusa