Mais uma vez, não vou tecer quaisquer comentários técnicos sobre as capacidades dos caças. Quero focar-me exclusivamente na vertente estratégica.
Começas mal. Os critérios técnicos são os mais importantes na escolha de um caça novo, principalmente quando o preço é tão elevado.
Na vertente estratégica, o F-35 é ironicamente o mais adequado. É o que tem utilização mais abrangente. Ao ser utilizado por tantos países, significa que mesmo que haja algum tipo de "corte" por parte dos EUA, vais ver esforço conjunto dos vários utilizadores para ultrapassar esse imprevisto.
Na vertente estratégica, a matemática suporta o F-35. A probabilidade de vermos o F-35 "bloqueado" por imposições americanas face a um conflito X, é consideravelmente menor do que a probabilidade dos 4.5G terem uma performance não-satisfatória nesse mesmo conflito (baixas elevadas).
Compreendo a tentação que muitos sentem em adquirir o F-35, por inúmeras razões. Ainda assim, causa-me alguma estranheza que foristas com capacidade de análise militar estejam dispostos a colocar em risco o futuro da aviação de caça da FAP. Uma eventual compra do F-35 representa, na prática, um “casamento” com a Lockheed Martin e com os Estados Unidos. Todos sabemos que a política de vendas norte-americana especialmente no que diz respeito ao F-35 cria uma dependência quase total, extremamente dispendiosa de manter e que pode tornar-se um problema sério no futuro, sobretudo tendo em conta a instabilidade política que os Estados Unidos atravessam atualmente.
Comprar 4.5G novos, e ter que ficar com eles até 2060-70, num mundo de evolução de ameaças constante, é pôr em risco a aviação de caça da FAP.
Não é difícil perceber que drones furtivos, relativamente baratos e com capacidade BVR poderão colocar em risco os ditos 4.5G. E ao longo das décadas mais ameaças vão surgir.
De resto, o risco de bloqueios políticos podem acontecer com qualquer país, e consequentemente para qualquer avião. Fingir que só aconteceria com o F-35 é desonesto.
Leio frequentemente o argumento de que outros países já fizeram essa escolha e nós ficamos sempre para trás. Bélgica, Dinamarca, Holanda, Alemanha entre outros escolheram o F-35 mas convém lembrar que todos ou quase todos já tinham as encomendas feitas há muito tempo, como é evidente pelos prazos de entrega. Portugal, pelo contrário, ainda não tomou uma decisão e deveria fazê-lo o mais rápidamente possível, precisamente por causa das listas de espera que continuam a aumentar.
A pressa é inimiga da perfeição. Comprar aviões à pressa não faz sentido. Não estamos a falar de um programa barato e pouco complexo, tipo a compra de blindados 4x4. Seria o programa mais caro da história do país, não dá para fazer em cima do joelho, e muito menos com o risco de receber aviões obsoletos ao mesmo preço dos topo de gama.
Já foi amplamente discutido que existem problemas estruturais identificados nas células dos F-16 da FAP que não permitem, ou pelo menos não justificam, a sua conversão para o padrão Viper. Apesar de este facto ser do conhecimento geral, alguns continuam a insistir nessa possibilidade. Há também quem defenda que Portugal pode esperar mais três ou quatro anos antes de decider. No entanto, os sinais que chegam do outro lado do Atlântico não são animadores. Neste momento, tenho sérias dúvidas de que os resultados das eleições de novembro dependam exclusivamente da vontade dos eleitores. Outros dirão “esperamos até 2028, o laranja já lá não estará”. E se em 2028 vencer o homem dos sofás? Esperamos mais quatro anos? Entretanto, as listas de espera continuam a crescer, os prazos de entrega alongam-se e persistem dúvidas sérias quanto à longevidade e à real capacidade operacional dos nossos F-16.
Posso fazer previsões ainda mais pessimistas sobre o que se passa na América, mas o que aconteceu recentemente na Venezuela, que mais parece um assalto à mão armada ou o que se prepara para acontecer em Cuba parece não preocupar ninguém. Cuba vai colapsar e será forçada a comprar tudo aos americanos. Como estas ações aconteceram a países com ditaduras, muitos fecham os olhos, mas o mais provável é que outros casos se sigam. Sinceramente preferia que Portugal não ficasse dependente de um país que atua desta forma para nem falar da Gronelândia, Ucrania, Canadá, etc...
Ninguém sabe se a questão estrutural dos F-16 é um facto, ou se foi um exagero por parte da FAP para tentar incentivar o Governo a comprar F-35.
Não seria a primeira vez que chefias militares dizem algo que não corresponde à verdade.
Exemplo? Tivemos um CEMA que dizia que tínhamos uma Marinha moderna e capaz de lidar com todas as ameaças. Toda a gente sabe que isso não era verdade, nem de perto.
Depois temos de olhar às evidências. Se a frota de F-16 está por um fio, como é que se justifica cancelar a modernização das 3 aeronaves adicionais, que permitiam subir o número para 28, sabendo que na pior das hipóteses, podiam render as aeronaves em pior estado? É preferível manter a pressão sobre a frota, na esperança que o Governo comprasse F-35 a curto prazo?
Algo de errado não está certo.
Mas mesmo que suponhamos que isto é verdade, nada impediria a FAP de procurar F-16 em condições para permitir adiar a decisão do novo caça, e se necessário modernizá-los. Esta opção não seria diferente daquela que muitos apresentam, de comprar Typhoon e modernizar - a diferença é que com F-16 saía mais barato, e já temos pessoal formado para os operar/manter.
Portugal não precisa de F-35. Portugal precisa de caças capazes de cumprir as suas missões. Em caso de um conflito envolvendo a NATO, concerteza que Portugal irá participar, mas previsivelmente numa segunda linha. Israel atacou o Irão e não o fez apenas com F-35, o que demonstra que os caças de geração 4.5 têm utilidade e continuarão a ter um papel relevante no futuro.
E que missões são essas? É que para as missões básicas, até um FA-50, com radar AESA serve. Para missões mais complicadas não podes estar dependente de 4.5G.
Falas em questões estratégicas, mas ignoras variáveis em que pode decorrer o colapso da NATO, e que de repente Portugal seria apanhado com as calças na mão, com um 4.5G com as suas limitações conhecidas, numa região onde os 3 países mais próximos terão caças muito mais capazes, ou muito mais numerosos, ou ambos, e nós teremos que nos desenrascar caso algum desses países resolva atacar.
Os 4.5G conseguem ter utilidade no campo de batalha moderno. Mas isto não é sinónimo de que o país pode depender deles para as próximas 3/4 décadas. E se o país só tem dinheiro e pessoal para operar 1 modelo, então que seja o modelo mais barato possível.
De notar que o F-35, devido à sua furtividade, consegue destruir alvos usando munições tipo SDB/JDAM-ER (que não chegam a custar 200k) sem correr o risco de ser abatido. Já um 4.5G para destruir o mesmo alvo, vê-se obrigado a usar um míssil de cruzeiro (a custar uns 2 milhões).
Podes usar 4.5G? Em certos casos podes, mas fica-te muito mais caro.
Com os investimentos recentes ao abrigo do SAFE, com a LPM que deverá ser publicada em breve (esperemos que com um orçamento reforçado) e com um possível SAFE 2.0, Portugal ficaria melhor servido com caças europeus. Juntando a isto os novos submarinos de que tanto se fala bem como com investimentos em áreas, como fragatas adicionais ou MMPC e patrulhas costeiros.
Portugal não ficaria melhor servido com 4.5G europeus. Isto é objectivamente errado.
O resto são programas que nada têm a ver com o assunto, e que podem ou não acontecer.
A ironia, é que a compra de um eurocanard, poderá bloquear alguns desses programas por falta de verba, algo que não aconteceria com a modernização de F-16 para V, ou compra destes em segunda-mão.
Comprar eurocanards é um tiro no pé, não garantindo o futuro, e potencialmente bloqueando outros programas. Ao comprar F-35, pelo menos podias dizer que estavas resolvido em questão de caças por 3/4 décadas.
PS: adiar a compra do F-35 por uma mão cheia de anos, até pode ser benéfico, pois receberíamos uma versão mais avançada que a actual.
Adiar a decisão 3 ou 4 anos pode ser uma boa notícia nesse sentido.