Mais uma vez, não vou tecer quaisquer comentários técnicos sobre as capacidades dos caças. Quero focar-me exclusivamente na vertente estratégica.
Compreendo a tentação que muitos sentem em adquirir o F-35, por inúmeras razões. Ainda assim, causa-me alguma estranheza que foristas com capacidade de análise militar estejam dispostos a colocar em risco o futuro da aviação de caça da FAP. Uma eventual compra do F-35 representa, na prática, um “casamento” com a Lockheed Martin e com os Estados Unidos. Todos sabemos que a política de vendas norte-americana especialmente no que diz respeito ao F-35 cria uma dependência quase total, extremamente dispendiosa de manter e que pode tornar-se um problema sério no futuro, sobretudo tendo em conta a instabilidade política que os Estados Unidos atravessam atualmente.
Leio frequentemente o argumento de que outros países já fizeram essa escolha e nós ficamos sempre para trás. Bélgica, Dinamarca, Holanda, Alemanha entre outros escolheram o F-35 mas convém lembrar que todos ou quase todos já tinham as encomendas feitas há muito tempo, como é evidente pelos prazos de entrega. Portugal, pelo contrário, ainda não tomou uma decisão e deveria fazê-lo o mais rápidamente possível, precisamente por causa das listas de espera que continuam a aumentar.
Já foi amplamente discutido que existem problemas estruturais identificados nas células dos F-16 da FAP que não permitem, ou pelo menos não justificam, a sua conversão para o padrão Viper. Apesar de este facto ser do conhecimento geral, alguns continuam a insistir nessa possibilidade. Há também quem defenda que Portugal pode esperar mais três ou quatro anos antes de decider. No entanto, os sinais que chegam do outro lado do Atlântico não são animadores. Neste momento, tenho sérias dúvidas de que os resultados das eleições de novembro dependam exclusivamente da vontade dos eleitores. Outros dirão “esperamos até 2028, o laranja já lá não estará”. E se em 2028 vencer o homem dos sofás? Esperamos mais quatro anos? Entretanto, as listas de espera continuam a crescer, os prazos de entrega alongam-se e persistem dúvidas sérias quanto à longevidade e à real capacidade operacional dos nossos F-16.
Posso fazer previsões ainda mais pessimistas sobre o que se passa na América, mas o que aconteceu recentemente na Venezuela, que mais parece um assalto à mão armada ou o que se prepara para acontecer em Cuba parece não preocupar ninguém. Cuba vai colapsar e será forçada a comprar tudo aos americanos. Como estas ações aconteceram a países com ditaduras, muitos fecham os olhos, mas o mais provável é que outros casos se sigam. Sinceramente preferia que Portugal não ficasse dependente de um país que atua desta forma para nem falar da Gronelândia, Ucrania, Canadá, etc...
Portugal não precisa de F-35. Portugal precisa de caças capazes de cumprir as suas missões. Em caso de um conflito envolvendo a NATO, concerteza que Portugal irá participar, mas previsivelmente numa segunda linha. Israel atacou o Irão e não o fez apenas com F-35, o que demonstra que os caças de geração 4.5 têm utilidade e continuarão a ter um papel relevante no futuro.
Com os investimentos recentes ao abrigo do SAFE, com a LPM que deverá ser publicada em breve (esperemos que com um orçamento reforçado) e com um possível SAFE 2.0, Portugal ficaria melhor servido com caças europeus. Juntando a isto os novos submarinos de que tanto se fala bem como com investimentos em áreas, como fragatas adicionais ou MMPC e patrulhas costeiros.
Com tudo isto, Portugal ficaria equipado como nunca esteve mas mesmo assim parece nunca ser suficiente.