https://cnnportugal.iol.pt/guerra-na-ucrania/russia/russia-sem-reservas-perdas-humanas-e-materiais-na-ucrania-travam-planos-de-expansao/20260108/695f8e07d34e0ec52ec1d5a6Rússia sem reservas: perdas humanas e materiais na Ucrânia travam planos de expansão
Um relatório do Institute for the Study of War conclui que a Rússia não consegue simultaneamente substituir as pesadas perdas na Ucrânia e criar reservas estratégicas, tendo formado apenas quatro das 17 divisões previstas para 2025, muitas delas incompletas e menos mecanizadas
As Forças Armadas russas estão a enfrentar dificuldades crescentes para repor as perdas humanas e materiais sofridas na guerra na Ucrânia e, ao mesmo tempo, criar reservas estratégicas para o futuro. A conclusão é do mais recente relatório do Institute for the Study of War (ISW), que alerta para a incapacidade de Moscovo em cumprir os ambiciosos planos de reorganização militar anunciados para 2026.
De acordo com o observador militar ucraniano Kostyantyn Mashovets, citado pelo ISW, o comando militar russo conseguiu formar "apenas quatro novas divisões das 17 divisões de manobra e até nove brigadas que estavam previstas para 2025". Mesmo essas unidades recém-criadas estarão longe de atingir o efetivo e a capacidade operacional definidos na doutrina militar russa antes da invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022.
As quatro divisões identificadas são a 68.ª Divisão de Infantaria Motorizada e a 71.ª Divisão de Infantaria Motorizada, ambas no Distrito Militar de Leninegrado, bem como a 55.ª Divisão de Infantaria Naval, formada a partir da antiga 155.ª Brigada da Frota do Pacífico, e a 120.ª Divisão de Infantaria Naval, proveniente de uma unidade da Frota do Báltico.
Segundo Mashovets, estas formações não seguem o modelo tradicional das divisões mecanizadas russas do período pré-guerra. Em vez disso, Moscovo tem optado por criar unidades mais leves, com forte componente de infantaria de assalto e uso limitado de veículos blindados. Estas divisões dispõem de menos carros de combate, menor capacidade logística e sistemas reduzidos de artilharia e defesa aérea orgânica.
Para o ISW, esta mudança estrutural reflete não apenas uma adaptação tática, mas sobretudo as restrições impostas pelas perdas em combate e pela incapacidade da indústria russa em produzir veículos blindados em número suficiente.
A transformação das forças russas confirma uma tendência já observada no campo de batalha: a aposta em assaltos de infantaria em massa, infiltrações e combates posicionais, em detrimento de ofensivas mecanizadas de grande escala, refere o relatório. Esta abordagem tem permitido a Moscovo manter pressão constante sobre as linhas ucranianas, mas à custa de elevadas baixas humanas.
O instituto cita também dados do Estado-Maior da Ucrânia que indicam que a Rússia sofreu cerca de 416 mil baixas ao longo de 2025, o que corresponde a uma média diária de mais de 1.100 soldados, o equivalente à "perda de uma divisão inteira a cada dez dias".
Sem margem para criar reservas em 2026
As perspetivas para 2026 não são animadoras para o Exército russo. Mashovets antecipa um aumento das baixas à medida que as tropas russas tentarem avançar sobre posições ucranianas cada vez mais fortificadas, incluindo na região de Donetsk.
O relatório do ISW sublinha ainda que a Rússia dificilmente conseguirá gerar um excedente de 70 mil militares em 2026, número considerado insuficiente para formar as divisões de manobra planeadas e, muito menos, para criar uma verdadeira reserva estratégica.
Esta avaliação coincide com declarações recentes do chefe da inteligência militar ucraniana, Kyrylo Budanov, que afirmou, em dezembro, que Moscovo continua a recorrer constantemente às suas reservas operacionais para sustentar as operações na Ucrânia, sem conseguir consolidar uma força de reserva autónoma