https://eco.sapo.pt/2026/01/07/inovacao-nacional-voa-mais-alto-na-defesa-com-drones-satelites-e-avioes/Inovação nacional voa mais alto na defesa com drones, satélites e aviões
Setor da Defesa desperta o interesse das empresas portuguesas, que encaram o mercado como uma oportunidade estratégica. Conheça alguns dos projetos made in Portugal.
Osetor da Defesa saltou para os holofotes e é hoje uma das áreas de investimento estratégicas a nível europeu e nacional num momento em que o país está a fazer, com os 5,8 mil milhões de euros do programa de empréstimos europeu SAFE, o “maior investimento de uma só vez” nas Forças Armadas. As empresas portuguesas estão a olhar para o setor como uma “oportunidade” de negócio, sejam drones, aviões militares, satélites, veículos anti-motim, placas de proteção balística ou têxtil.
Drones made in Portugal nos céus da Europa
A Tekever é um exemplo de uma empresa portuguesa que desenvolveu sistemas e tecnologias avançadas de defesa, atualmente utilizados por organizações, governos e agências de segurança em todo o mundo. Desbravou terreno até chegar ao estatuto de unicórnio, na mesma altura que anunciou um investimento de mais de 400 milhões de euros no Reino Unido e, mais tarde, de que iria construir neste mercado a sua quarta unidade de produção. França é igualmente um mercado aposta da empresa, com a unidade de Cahors a ter abertura prevista no “último trimestre” de 2026, projeto que “concentra parte muito substancial do plano de investimento de 100 milhões de euros em França até 2030”.
Em Portugal, a empresa tem vários escritórios, tendo recentemente, apostado em Leiria, onde instalou um hub.
A empresa liderada por Ricardo Mendes, que através do seu acordo com as Forças Armadas britânicas tem drones a voar os céus da Ucrânia, fechou recentemente um contrato no valor de 30 milhões com Agência Europeia de Segurança Marítima (EMSA) para vigiar as águas europeias através de drones.
No âmbito deste contrato-quadro com a ESMA, a unicórnio nacional vai fornecer dois sistemas aéreos não tripulados (UAS) AR5, cada um composto por duas aeronaves não tripuladas, para apoiar operações multirregionais simultâneas em águas europeias.
Na área de drones está igualmente a Beyond Vision. A startup, cofundada por Dário Pedro, está entre as 50 startups de maior crescimento, e vai construir uma fábrica de 50 milhões de euros nos EUA, depois de ter fechado um contrato de “no mínimo” 15 milhões de euros nos EUA para fornecer 300 drones de emergência.
Para além dos EUA, tem ainda na mira de expansão o Brasil, Médio Oriente e Europa, avançou ao ECO/eRadar o líder da empresa, apontando a Polónia como um mercado aposta da companhia que, está a expandir a sua unidade de produção em Alverca, dos atuais 2.000 metros quadrados, para 4.000 metros quadrados, num investimento na ordem dos 5 milhões.

Ainda neste setor, atua a Connect Robotics quer desenvolver e dar maior robustez na área de logística de defesa através do uso de drones. A startup é uma das duas nacionais selecionadas para o mais recente cohort do acelerador da NATO, o DIANA.
“O nosso propósito principal é levar a tecnologia que já provamos ser um sucesso e uma necessidade na área civil, nomeadamente nas entregas médicas e logísticas e mais recentemente numa nova vertical de inspeção e provar que é indispensável no setor da Defesa. No fundo, queremos provar que a complexidade logística pode ser superada com recurso à tecnologia. A tecnologia serve para isso, para melhorar a vida das pessoas e a segurança das nossas nações”, explicou Ana Manuel Martins, chief operating officer (COO) da Connect Robotics, ao ECO/eRadar.
“A nossa solução é drone agnostic, o que significa que qualquer drone no mercado pode ser utilizado, adicionando o nosso computador de bordo e os nossos sistemas de gestão de drones transformando drones industriais numa plataforma logística”, explica. Isso faz com que, quando há substituição de drones, não seja necessário formação adicional dos operadores, bastando transferir os sistemas da Connect Robotics para o novo equipamento. Algo “fundamental para a soberania nacional”. Ana Manuel Martins explica porquê. “Significa que não nos prendemos a um único sistema proprietário e em vez disso, permitimos que se integre rapidamente a melhor e mais atual tecnologia de drones pronta a usar. Isto assegura que cada Estado-membro pode construir as suas próprias capacidades logísticas resilientes e adaptáveis, reforçando a sua postura individual de Defesa e, por extensão, toda a Aliança”, explica.
Na mesma lógica de tecnologia de uso dual, destaque para a NeuroSpace. A startup do setor aeroespacial também foi uma das escolhidas para fazer parte do DIANA vai, no âmbito da sua participação no acelerador da NATO, “evoluir o NeuraspaceDEF, a nossa plataforma de defesa de Consciência Situacional do Domínio Espacial/Gestão do Tráfego Espacial, baseada em IA explicável, fusão de sensores e autonomia de comunicação a bordo dos satélites, demonstrando impacto operacional real e adoção pela NATO e Nações Aliadas”, detalha Chiara Manfletti, CEO da Neuraspace, ao ECO/eRadar.
Outro dos exemplos no setor aeroespacial é a Spotlite. A startup levantou 3,5 milhões de euros para escalar a sua plataforma de monitorização de risco em infraestruturas por satélite e a sua presença internacional. Presente em Europa, Estados Unidos e América do Sul, com esta injeção de capital, a empresa quer expandir para “novos mercados estratégicos, incluindo a América do Norte”.
“A Spotlite está atualmente a operar com clientes em vários mercados na Europa, Estados Unidos e América do Sul, incluindo Portugal, Colômbia e Brasil. Com o novo investimento, vamos acelerar a nossa presença comercial nestas regiões e expandir para novos mercados estratégicos, incluindo a América do Norte e outras geografias com grandes redes de infraestrutura crítica. O plano de expansão está em curso e será executado de forma faseada ao longo dos próximos 12 a 18 meses”, adianta Ricardo Cabral, CEO da Spotlite, ao ECO/eRadar.
Primeiro avião militar português
E também no setor do espaço, realce para o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pela Geosat no âmbito da “Constelação do Atlântico”, para criar uma constelação de satélites de observação da Terra de alta resolução (VHR/HR), focada em defesa, segurança, proteção ambiental e gestão de recursos, visando uma presença europeia mais soberana no espaço, colaboração de entidades como o Centro de Engenharia e Desenvolvimento de Produto (CEiiA) e a Força Aérea Portuguesa.
Estas três entidades — Geosat, CEiiA e Força Aérea Portuguesa — estão igualmente envolvidas no desenvolvimento do primeiro avião civil militar projetado e fabricado em Portugal, que deverá realizar o primeiro voo em 2028. Batizada de LUS-222 é um bimotor de asa alta com porta de carga traseira. O projeto poderá criar até 300 empregos diretos e os últimos números apontam para um investimento total de 220 milhões de euros. Só para a fábrica são mais de 30 milhões.
O avião terá a capacidade de transportar 19 passageiros ou até duas toneladas de carga, podendo atuar em missões militares, missões de busca e salvamento e também na aviação comercial regional. A aeronave terá um alcance de até 2.100 quilómetros e poderá atingir velocidade de até 370 quilómetros por hora.

Na áreas dos materiais e têxtil, a indústria nacional também tem vindo a apresentar projetos. É o caso da Beyond Composite. Com sede em Canelas, Vila Nova de Gaia, a empresa desenvolve produtos para o setor da Defesa, nomeadamente placas de proteção balística para serem inseridos em coletes balísticos, capacetes e escudos com proteção balística para os soldados.
A empresa, fundada por investigadores da Universidade do Minho e adquirida pela Sonae Capital Industrials, continua empenhada no negócio da defesa. Estão a “desenvolver e implementar uma estratégia de investigação e desenvolvimento a curto, médio e longo prazo que passará por desenvolver produtos mais leves, com melhor performance e com novas funcionalidades, tais como monitorização do impacto balístico e proteção eletromagnética”, conta Fernando Cunha, CEO da Beyond Composite.
Veículos anti-motim e defesa militar
Fundada há 71 anos pelo bombeiro voluntário Jacinto Marques de Oliveira, a Jacinto começou a produzir, na década de 80, em parceria com a Salvador Caetano, veículos de combate a incêndio, até que no final de 2016 começaram a olhar para a Defesa com outros olhos. Iniciaram o percurso no setor com a produção de um veículo anti-motim para a GNR, um contentor para o exército português e no final do ano passado cinco veículos anti-motim para a República Dominicana.
A empresa de Esmoriz, que emprega 170 pessoas e fatura 50 milhões de euros, quer estar na linha da frente da Defesa e lançou em abril do ano passado uma linha de produtos direcionados à defesa e segurança nas áreas militares e polícia.

“Esperamos que esta aposta possa alavancar a entrada de uma empresa portuguesa na produção de veículos de defesa militar que muito elevaria esta indústria em Portugal”, diz o diretor-geral, Jacinto Reis, que pertence à quarta geração da família.