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« Última mensagem por P44 em Hoje às 09:29:24 am »
“Irão ou o desconforto da esquerda, do feminismo e da comunicação social
O que se passa no Irão é uma das lutas mais graves e mais corajosas do nosso tempo. Está a acontecer agora, diante dos olhos do mundo, e no entanto não merece a atenção de Portugal. Não fossem as redes sociais, estaríamos mergulhados na santa ignorância.
Onde estão os noticiários em horário nobre? Onde está a explicação clara do que está a acontecer, do que está em jogo, de quem reprime e de quem morre? Onde está a responsabilidade editorial de tratar este levantamento popular como aquilo que é e não como uma nota incómoda? A maioria dos canais de televisão portugueses escolheu o silêncio, a diluição e o rodapé. Quando há referência, surge sem contexto, sem continuidade e cronometrada. Há, contudo, uma exceção que importa assinalar. O canal NOW tem acompanhado a situação de forma consistente, e o jornalista Irineu Teixeira tem feito uma análise clara, directa e sem concessões, recusando a linguagem evasiva que domina o resto do panorama televisivo. O contraste é tão evidente que expõe o vazio ético do restante sistema mediático.
E se o silêncio mediático já é grave, a ausência política é ainda mais reveladora.
Os partidos da esquerda portuguesa que se apresentam como referências morais na política internacional, o PCP, o Bloco de Esquerda e o Livre, foram rápidos e organizados sempre que a causa se ajustou ao seu enquadramento ideológico. Mobilizaram-se para a Venezuela, multiplicaram iniciativas em torno da Palestina, juntaram-se a flotilhas, ocuparam o espaço público com discursos e símbolos. Quando um povo se levanta contra uma ditadura religiosa que reprime mulheres, elimina dissidentes e governa pela intimidação, esses mesmos partidos retraem-se. Não convocam manifestações, não assumem posições firmes, não transformam a causa iraniana numa prioridade política. É uma escolha de conveniência.
Convém ser claro. Estes partidos também não demonstraram solidariedade efectiva com a Ucrânia após a invasão. Preferiram relativizar, deslocar responsabilidades e diluir a agressão em abstracções. O padrão repete-se agora no Irão. Quando as vítimas não encaixam na defesa ideológica, tornam-se descartáveis.
Há ainda um silêncio que deveria provocar particular desconforto. O das feministas mais visíveis e influentes no espaço público. No Irão, mulheres são perseguidas, presas e mortas por recusarem submissão. Trata-se de uma luta liderada por mulheres contra uma estrutura patriarcal extrema, sustentada pelo Estado e pela religião. Ainda assim, as vozes que noutras circunstâncias se erguem com rapidez e intensidade, e que até na defesa da burka tiveram expressão, permanecem ausentes. Não há mobilização, não há indignação, não há compromisso. Este silêncio, que nada tem de neutralidade, é imoral.
As palavras precisam de ser usadas com precisão. O regime iraniano é uma ditadura teocrática violenta. O que está a acontecer no Irão é um levantamento legítimo pela liberdade. A atitude da maioria dos media portugueses representa uma falha grave de responsabilidade pública. A postura da esquerda política revela hipocrisia ideológica. O mutismo feminista compromete a credibilidade do discurso que diz defender as mulheres.
Não há contexto que absolva isto. Não há complexidade que o justifique. Há pessoas a morrer agora por direitos básicos, enquanto em Portugal se escolhe o conforto do silêncio. E este silêncio terá de responder por isso.”
Né Ladeiras