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« Última mensagem por Camuflage em Hoje às 02:54:21 pm »
# A Europa Perdeu a Aposta: Como o Mundo se Reorganizou Enquanto Bruxelas Dormia
**A crise energética acelerou a desindustrialização europeia. A China reorientou-se para o Sul Global. Os EUA voltaram à autossuficiência energética. Portugal tem uma janela de oportunidade que pode durar apenas cinco anos. No cenário, optimista, de ainda haver tempo para reagir.**
*Por um observador europeu que prefere o anonimato*
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Quinze anos depois daquela conversa sobre o futuro da Europa, da China e da globalização, é tempo de fazer contas. Algumas previsões confirmaram-se de forma impressionante. Outras falharam de maneiras que ninguém poderia antecipar. O mundo de 2026 é simultaneamente mais previsível e mais estranho do que imaginávamos em 2010.
**A aposta alemã no euro sobreviveu, mas a que preço?**
Comecemos pela questão central: a Alemanha manteve o euro, como se previa, mas perdeu o jogo geopolítico que tentava construir à sua volta. O sistema monetário tripolar — dólar, euro, yuan — nunca se materializou da forma imaginada. O que temos hoje é algo mais complexo e fragmentado.
A Alemanha fez a sua aposta na Rússia e na China. Construiu o Nord Stream para ter energia barata, industrializou-se ainda mais para exportar para Pequim. Parecia brilhante. Só que houve duas coisas que ninguém viu vir com clareza suficiente: a invasão da Ucrânia em 2022 e a decisão chinesa de priorizar a autossuficiência tecnológica sobre as importações alemãs.
O resultado? A Alemanha encontra-se hoje numa posição que seria impensável há quinze anos. Desindustrialização acelerada. Energia cara. O modelo de exportação que funcionou durante 70 anos está em colapso estrutural. A BASF deslocou produção para a China e os EUA. A Volkswagen fechou fábricas na Alemanha pela primeira vez na sua história. O problema não é conjuntural — é existencial.
**A profecia sobre a falta de inovação alemã cumpriu-se cruelmente**
Lembram-se da observação de 2010 sobre a Alemanha não ter criado nada de novo em 50 anos? Pois bem, não criou nada de novo nos 15 anos seguintes também. Enquanto os americanos dominam a inteligência artificial, os semicondutores avançados, a biotecnologia e a computação quântica, a Alemanha continua excelente em motores de combustão interna — precisamente quando o mundo transita para os eléctricos, dominados por chineses e americanos.
A SAP é a única empresa tecnológica alemã de escala global e mesmo essa está a perder terreno. Não há nenhuma empresa alemã entre as 20 maiores do mundo por capitalização bolsista. Nenhuma.
**A China não salvou a Europa — salvou-se a si própria**
A grande previsão de 2010 era que a China compraria a Europa para diversificar do dólar. Aconteceu, mas não como se pensava. A China comprou portos (o Pireu na Grécia, de facto), comprou infraestruturas, comprou tecnologia. Mas não salvou o euro nem a Europa.
O que a China fez foi muito mais inteligente: reorientou-se para o Sul Global. Enquanto a Europa e os EUA se digladiavam sobre regras, valores e subsídios verdes, Pequim construía ferrovias em África, portos na Ásia, infraestruturas na América Latina. A Belt and Road Initiative revelou-se não um projecto de domínio — pelo menos não apenas — mas uma estratégia de sobrevivência.
Porque a China percebeu algo crucial: não precisa de conquistar os mercados europeu e americano. Precisa apenas de garantir que as próximas três mil milhões de pessoas da classe média global — africanos, asiáticos, latino-americanos — comprem produtos chineses.
**O dilema energético chinês: a solução foi pior que o problema**
A questão energética que se colocava em 2010 — Ásia Central, Mar do Sul da China ou rotas marítimas do Golfo — resolveu-se da pior maneira possível. A China apostou em todas simultaneamente e criou tensões em todas.
No Mar do Sul da China, militarizou ilhas artificiais, o que levou ao reforço da presença militar americana e ao AUKUS (a aliança entre Austrália, Reino Unido e EUA). Na Ásia Central, investiu massivamente mas descobriu que os russos, mesmo enfraquecidos pela guerra na Ucrânia, não querem ser júnior partners de ninguém. E as rotas marítimas continuam sob vigilância americana.
A grande novidade é que a China acelerou brutalmente a transição para renováveis — não por ambientalismo, mas por segurança nacional. É hoje o maior produtor mundial de painéis solares, turbinas eólicas e baterias. Percebeu que a verdadeira independência energética não vem do controlo de oleodutos ou rotas marítimas, mas de produzir a própria energia.
**Os EUA fizeram o impossível: tornaram-se energeticamente independentes**
Enquanto a Europa se amarrava à Rússia e discutia taxonomias verdes, os Estados Unidos fizeram algo que em 2010 parecia impossível: tornaram-se o maior produtor mundial de petróleo e gás. O shale oil e o fracking mudaram tudo.
Isto teve consequências geopolíticas enormes. Os EUA podem agora dar-se ao luxo de ter uma política externa mais selectiva. Não precisam de proteger todas as rotas de petróleo do Médio Oriente. Podem deixar que outros se preocupem com o Estreito de Ormuz.
E fizeram outra coisa brilhante: capturaram a próxima vaga tecnológica. A inteligência artificial está a ser desenvolvida em San Francisco, Seattle e Austin. Os chips avançados são desenhados na Califórnia. A biotecnologia está em Boston. Os EUA têm problemas — muitos — mas não têm uma crise existencial como a Europa.
**A Europa: rica, envelhecida e irrelevante**
Aqui está a verdade inconveniente: a Europa tornou-se numa espécie de museu próspero. Tem marcas de luxo, turismo, alguma excelência industrial residual, boa qualidade de vida. Mas está fora dos jogos que realmente contam.
Não tem empresas tecnológicas de escala global. A sua demografia é catastrófica. O seu modelo social — admirável — está a tornar-se insustentável. E politicamente está paralisada entre 27 países que não conseguem concordar sobre nada relevante.
A previsão de que a Europa seria comprada por chineses e árabes estava correcta, mas incompleta. O que está a acontecer é mais subtil: a Europa está a tornar-se numa espécie de Suíça expandida — neutra, rica, envelhecida, irrelevante para as grandes questões do século XXI.
**Portugal: a janela de oportunidade é agora**
E Portugal? Os cenários de 2010 — Florida Europeia, Plataforma Asiática, Escócia do Sul, Ponte Atlântica — continuam surpreendentemente actuais.
Não encontrámos petróleo no offshore, pelo menos não em quantidades relevantes. Mas surgiu algo inesperado: tornámo-nos atractivos para nómadas digitais, para reformados europeus, para talento que pode trabalhar remotamente. É um começo de "Florida Europeia", mas sem a escala necessária para transformar a economia.
A "Ponte Atlântica" ganhou nova vida com o boom de Angola, Moçambique e Brasil. Há empresas portuguesas a fazer bons negócios em África. Mas continuamos demasiado pequenos para sermos o pivot desta relação. O Brasil olha para nós com afecto, mas faz os grandes negócios com China e EUA.
A "Plataforma Asiática" nunca se concretizou verdadeiramente. Tivemos algum investimento chinês — na energia, nos bancos — mas não nos tornámos uma porta de entrada da China para a Europa. Os chineses perceberam que é mais simples ir directamente à Alemanha ou a França.
**O que fazer? Três apostas possíveis**
Permitam-me ser provocatório. Portugal tem talvez cinco anos para fazer apostas que podem determinar os próximos cinquenta.
**Primeira aposta: energia verde e hidrogénio**
A transição energética global está a acontecer. Portugal tem sol, vento, costa atlântica. Podíamos tornar-nos num hub de produção de hidrogénio verde para a Europa. Há projectos, há interesse, há tecnologia. O que falta é escala e velocidade. Os alemães estão desesperados por alternativas ao gás russo. Poderíamos ser parte da solução.
Mas isto exige investimento brutal em infraestrutura, regulação inteligente, parcerias com quem tem tecnologia (noruegueses, americanos, até chineses). E exige decisões rápidas, algo que não é especialidade portuguesa.
**Segunda aposta: plataforma atlântica de serviços**
O Atlântico Sul está a desenvolver-se. Angola pode tornar-se numa economia de 200 mil milhões de dólares em 2035. Moçambique tem gás natural para décadas. O Brasil continua a ser uma potência emergente, apesar dos seus ciclos políticos loucos.
Portugal podia posicionar-se como prestador de serviços de alta qualidade — engenharia, consultoria, formação, serviços financeiros — para este eixo atlântico. Não como colonizador tardio, mas como parceiro com competências específicas e língua comum.
Isto exige mudar a mentalidade das nossas empresas, que continuam obcecadas com o mercado interno ou, na melhor das hipóteses, com Espanha.
**Terceira aposta: talento e qualidade de vida**
Esta é a menos óbvia mas talvez a mais interessante. O mundo está cheio de pessoas altamente qualificadas que podem trabalhar de qualquer lugar e querem viver bem. Portugal tem clima, segurança, custo de vida razoável, beleza.
Podíamos tornar-nos num hub para talento global — não apenas reformados e turistas, mas empreendedores, investigadores, criadores. Isto exige um sistema fiscal competitivo para pessoas (não apenas para empresas), escolas internacionais de qualidade, facilidade burocrática, uma comunidade internacional vibrante.
Singapura fez isto. Dubai fez isto. Porque não Lisboa ou Porto?
**O problema continua a ser o mesmo**
Mas aqui está o problema, o mesmo que se identificava em 2010: quem vai liderar estas transformações? A nossa classe política está formatada para gerir fundos europeus e fazer compromissos em Bruxelas. Não está preparada para fazer apostas arriscadas num mundo multipolar e incerto.
Os nossos grupos económicos continuam focados no mercado interno — banca, energia, telecomunicações, construção. São bons a fazer lobbying em Lisboa, não a competir em Lagos ou São Paulo.
E a nossa função pública, competente e estável, foi desenhada para seguir regras europeias, não para ter iniciativa num mundo sem regras claras.
**A conclusão desconfortável**
Quinze anos depois daquela conversa, a conclusão é desconfortável: o mundo reorganizou-se de forma brutal e a Europa ficou para trás. A Alemanha perdeu a aposta geopolítica. A França é uma sombra do que foi. O Reino Unido está mais perdido fora da UE do que estava dentro.
Portugal tem activos — geografia, língua, clima, alguma competência técnica. Mas continua sem a agilidade e a ambição necessárias para os rentabilizar.
A boa notícia é que há uma janela de oportunidade. O mundo precisa de pontos de estabilidade. Há capital à procura de destinos seguros e rentáveis. Há talento à procura de sítios para viver. Há mercados emergentes à procura de parceiros confiáveis.
A má notícia é que esta janela não fica aberta para sempre. Outros estão a vê-la também. E nós continuamos a discutir coisas que não importam enquanto o mundo passa ao lado.
Talvez daqui a quinze anos alguém faça um novo balanço. Espero estar enganado, mas temo que o diagnóstico seja ainda pior: que tivemos a oportunidade e a deixámos passar enquanto discutíamos o sexo dos anjos em Bruxelas.