Uma dependência que é mais grave que a militar, neste momento
https://cnnportugal.iol.pt/cloud/dependencia-estrategica/ha-uma-nuvem-a-pairar-sobre-a-independencia-europeia-os-americanos-estao-nos-a-empurrar-para-uma-situacao-muito-mais-insegura-do-que-pensavamos/20260121/696a2030d34e92a344978aabHá uma nuvem a pairar sobre a independência europeia. "Os americanos estão a empurrar-nos para uma situação muito mais insegura do que pensávamos"
Com mais de 70% da sua infraestrutura digital nas mãos de três gigantes americanos, a Europa enfrenta uma "armadilha" estratégica que vai muito além da economia. Especialistas alertam que a "nuvem" pode tornar-se uma arma geopolítica que arrisca colocar a Europa num dilema entre dois caminhos "difíceis"
Imagine uma manhã em que os hospitais perdem subitamente o acesso aos processos clínicos dos pacientes, as transações bancárias ficam congeladas e a máquina fiscal do Estado deixa de responder. Não houve um bombardeamento, nem uma catástrofe natural. Do dia para a noite, o "interruptor" que liga a Europa ao mundo foi desligado, mergulhando empresas e governos num caos administrativo sem precedentes. Esta consequência é um cenário hipotético "mas possível" de uma das principais dependências estratégicas da União Europeia que continua a intensificar-se e representa um risco real para o continente.
De todas as dependências europeias, uma é particularmente gritante: a Cloud (Nuvem). Este mercado é completamente dominado por três gigantes norte-americanos, a Amazon, a Microsoft e a Google. Ao todo, só estas três empresas controlam entre 70% de toda a capacidade de armazenamento e processamento de dados no continente. Só que os perigos desta dependência vão muito além de simples considerações económicas. Esta tecnologia tornou-se de tal forma vital para as empresas que, em caso de conflito diplomático ou de tensões bélicas, a Cloud americana pode transformar-se numa perigosa armadilha.
Para Diana Soller, especialista em Relações Internacionais, esta vulnerabilidade enquadra-se numa nova doutrina global a que "os americanos chamam de weaponization of everything [transformar tudo numa arma]". A investigadora alerta que, "num sistema internacional em que as armas convencionais já não são o único recurso dos Estados para forçarem outros Estados a fazer aquilo que querem", infraestruturas críticas como "as clouds podem efetivamente ser um problema se os Estados Unidos se tornarem efetivamente um rival da Europa".
O problema principal desta dependência ocorre a nível legal. Em 2018, os Estados Unidos aprovaram o CLOUD Act, um conjunto de leis com o intuito de clarificar questões legais em torno da utilização de dados no estrangeiro. Só que este programa criou um alçapão legal. Através desta lei, as autoridades norte-americanas podem exigir acesso a dados alojados por empresas dos EUA, mesmo que os servidores físicos estejam em Paris, Frankfurt ou Lisboa. Na prática, para a Europa, isto significa que não existe verdadeiro "sigilo de estado" ou segredo industrial
Este cenário é particularmente crítico, uma vez que parte das infraestruturas críticas europeias estão sustentadas nestes serviços. Áreas como a banca, a saúde, logística e até algumas matérias militares estão alojadas nestas empresas. Esta realidade coloca a Europa numa posição sensível, onde pode não ter capacidade de backup e migrar os dados de um dia para o outro, caso os norte-americanos suspendam o serviço alegando questões "de segurança nacional". O resultado seria um apagão digital que arriscaria paralisar administrativamente o velho continente.
Contudo, os números do mercado escondem uma realidade ainda mais dramática. Embora se fale em 70% de quota de mercado, a dependência funcional é quase total devido à falta de escala física das infraestruturas europeias para aguentar uma migração de emergência. Enquanto os data centers da Google ou Amazon são infraestruturas colossais, onde é necessário circular de "carrinho de golfe" lá dentro, os centros de dados europeus são comparativamente pequenos e fragmentados, incapazes de servir de backup para um continente inteiro, com mais de 400 milhões de habitantes
"Se formos ver isto do ponto de vista da resiliência, da continuidade do serviço, dos backups, então a dependência deve andar literalmente nos 90%. Temos ovos espalhados por todo lado. Nós não queremos fazer miniomeletes. Nós queremos fazer um superbolo. Se isto está tudo espalhado por todo o lado da Europa em pequenos data centers, nós não conseguimos fazer nada", avisa Nuno Mateus-Coelho, especialista em Cibersegurança.
A situação é explicada, em parte, também pelo facto de os fornecedores americanos desenharem as suas plataformas para serem difíceis de "largar" para os clientes. Estas plataformas operam numa lógica de vendor lock-in, onde a infraestrutura é desenhada para tornar qualquer saída tecnicamente complexa e financeiramente incomportável. Isto coloca a Europa numa posição de refém, ficando à mercê de uma decisão das autoridades norte-americanas.
A ideia de Washington carregar no "interruptor" e desligar a luz à Europa pode parecer um cenário tirado de um filme de ficção, mas existe um precedente. Em maio de 2025, o procurador do Tribunal Penal Internacional Karim Khan viu-se barrado do próprio email institucional do Outlook, após sanções americanas. Com apenas uma ordem, um procurador em Haia viu a sua vida ficar extremamente limitada. E, para muitos, isso é apenas uma pequena amostra daquilo que poderia acontecer caso os interesses europeus e americanos choquem em grande escala, como, por exemplo, na Gronelândia.
"Quando falamos em Kill Switch, não é só o acesso às tecnologias. Aquilo que nós temos por garantido deixa de existir. O Google deixa de existir, o Bing deixa de existir. Ninguém está a falar sobre isto", frisa Nuno Mateus-Coelho.
Para os especialistas, esta possibilidade coloca "uma nuvem" a pairar sobre a independência europeia que traz à memória outras dependências europeias que se transformaram em problemas estratégicos. No início da invasão russa da Ucrânia, em 2022, a Europa era de longe o maior cliente dos combustíveis fósseis russos, acabando por ver os preços da energia disparar para valores recorde, financiando o esforço de guerra russo. Alguns países compravam 100% do seu gás natural à Rússia. Outros, como a Alemanha, o gigante industrial do continente, essa dependência chegava a 55%.
E esta dependência existiu apesar dos avisos. Mas a inércia política e a confiança cega na estabilidade das parcerias impediram a criação de alternativas enquanto havia tempo, deixando o continente vulnerável a choques geopolíticos previsíveis. Este cenário, alertam os especialistas, está a repetir-se agora no campo digital.
"Esse foi outro erro crónico que a Europa cometeu, que foi ter tido avisos das mais diversas proveniências durante uma série de anos e ter deixado esses avisos caírem em saco roto", lamenta Diana Soller, traçando o paralelo com a crise ucraniana. Para a especialista, a Europa pareceu viver "refém do medo" de agir para não provocar parceiros agressivos, acabando por pagar agora "um preço muito alto" pela sua imprudência.
Mas se o passado serve de lição, o futuro reserva um dilema ainda mais complexo. Se a "rede de segurança" americana falhar, a Europa não tem para onde se virar dentro de casa. No caso da dependência russa, a União Europeia viu-se obrigada a criar um plano de emergência, o REPowerEU, substituindo o fornecimento russo por gás natural liquefeito vindo de outros parceiros e acelerando a transição para as renováveis. Mas, na esfera digital, não existe uma Noruega ou um Catar para onde fugir. Sem capacidade própria instalada, a única alternativa com escala suficiente para manter a Europa ligada não é democrática. Muito pelo contrário.
"Os americanos estão a empurrar-nos para uma situação muito mais insegura do que nós pensávamos, que é para a mão da China", alerta Nuno Mateus-Coelho. O especialista em cibersegurança explica que, na ausência das "clouds megalómanas" americanas, as únicas alternativas com escala para suportar a economia europeia seriam chinesas, como a Alibaba. O resultado seria igualmente problemático. Ao perder o acesso à tecnologia americana, a Europa ver-se-ia forçada a migrar os seus dados para infraestruturas conhecidas por terem backdoors que permitem o acesso das autoridades chinesas aos dados.
Esta tendência de dependência estratégica parece estar a aprofundar-se com o desenvolvimento da Inteligência Artificial. Com a Europa a ficar cada vez mais para trás no campo do armazenamento de dados, o fosso pode tornar-se ainda maior na tecnologia de processamento e tomada de decisões. Ao não dominar esta tecnologia, a Europa corre o risco de ficar dependente de algoritmos treinados no estrangeiro para gerir infraestruturas críticas como redes elétricas ou até mesmo diagnósticos médicos.
No passado, a União Europeia lançou um projeto conhecido como Gaia-X, em 2020, que prometia criar uma infraestrutura de dados federados e seguros, baseada nos valores europeus. Só que enquanto Bruxelas se focou na definição de normas, regulação e complexos processos burocráticos, em Silicon Valley os principais gigantes tecnológicos injetaram dezenas de milhares de milhões de dólares em infraestrutura física real. O resultado foi um projeto europeu que se perdeu em comités, incapaz de competir com a velocidade de inovação e a capacidade de investimento americana. Reverter este atraso vai requerer mais do que vontade política.
"A resposta passa naturalmente por a Europa investir e tentar manter os seus melhores, evitando deixá-los ir para o mercado norte-americano", defende Ricardo Ferraz, professor de Economia no ISEG e na Universidade Lusófona.
O economista reconhece a dificuldade de competir com empresas que têm décadas de avanço e capitalização, mas recusa o fatalismo, apontando para exemplos de sucesso que provam que a soberania é possível em nichos de alta tecnologia. É o caso da Tekever, uma empresa portuguesa de drones que compete ao mais alto nível global. "Quem é que diria que, tendo os Estados Unidos uma tão grande indústria militar, nós temos uma empresa portuguesa que está a ajudar a Ucrânia com tecnologia de ponta?", questiona Ricardo Ferraz, sublinhando que é possível chegar lá "investindo e inovando"
É verdade que a maioria dos especialistas acredita que este corte radical não está iminente, uma vez que os laços transatlânticos ainda são fortes e o prejuízo económico seria devastador para ambos os lados. Só que a volatibilidade geopolítica em que o mundo está mergulhado faz com que a simples possibilidade técnica deste evento não possa ser ignorada.
Mas construir esta autonomia não será um processo nem barato nem indolor e exigirá uma mudança de mentalidade que a Europa tem evitado nas últimas décadas. Resta saber se os líderes europeus terão a coragem política para pagar a fatura da independência antes que o "interruptor" mude de posição, trocando o conforto da dependência pela segurança da soberania.
"Isso provavelmente vai obrigar-nos a fazer sacrifícios? Certamente. Mas não fazer sacrifícios neste momento traz consigo um risco que a mim parece muito maior", conclui Diana Soller.