Antes de mais, peço antecipadamente desculpa pelo post longo, mas tenho estado ocupado com a minha vida real e não tenho conseguido postar aqui, embora esteja a seguir as várias discussões.
Eu, tal como quase todos aqui, temos tido uma injeção de dopamina nos últimos tempos por causa do SAFE e dos compromissos em aumentar os gastos com a Defesa a prazo, mas uns dias sem pensar muito nisto e voltei à terra e lembrei-me do país a que nos estamos a referir. Estamos a falar do país que desinvestiu continuamente na sua Defesa nos últimos 50 anos e que só está a inverter a situação devido a pressões externas e ao cartão de crédito com 10 anos de carência do SAFE. Estamos a falar do país que milagrosamente atingiu os 2% do PIB alocados à Defesa através de manobras contabilísticas e que mascara a real situação há décadas. Estamos a falar do país cuja opinião pública recusa a fazer qualquer investimento em Forças Armadas que possa pôr em causa qualquer outra despesa, apesar de o facto de começar a aceitar despesas com as Forças Armadas já ser um progresso; é notável o facto de não se ter formado um movimento de fundo contra os 3 Bi que se vão gastar em fragatas, mas tal só aconteceu porque o dinheiro não nos sai do bolso. Mas já é progresso…
Posto isto, estou convencido que mesmo que haja um aumento real da despesa para uns 2.0-2.5% do PIB a prazo (que, bem “martelado”, vai ser “vendido” com os 3.5% a que nos comprometemos), daí não sairão investimentos de fundo em equipamento, i.e., os novos caças, baterias AA de longo alcance, ou um segundo lote de fragatas daqui a 5 anos. Já me vou dar por contente se fôr utilizado em armamento, equipamento que custe menos de 500 milhões e sustentação logística e operacional dos vários equipamentos. Daí decorre que quaisquer compras na casa dos Bi tenha que vir de um mais que provável SAFE 2.0, o que não são boas notícias para quem, como eu, acha que o F-35 é a única escolha que faz sentido operacional até 2040.
Estou convencido que o governo nunca teve intenções sérias de gatar mais de 5 Bi em aviões de caça com dinheiros do OE ou da LPM (a oposição por parte da opinião pública seria brutal) e esta questão do Trump foi ouro sobre azul, já que proporcionou ao governo a desculpa política perfeita para se matar o negócio. A FAP foi “anjinha” e foi apanhada completamente de “calças na mão”, pelo que começou com aquelas ideias de uma frota mista (seria o mal menor) para tentar garantir que pelo menos uma das esquadras teria F-35. No entanto, e se eu tiver razão na minha análise no parágrafo acima, o F-35 na FAP será neste momento, um nado morto, já que não é elegível para o SAFE, pelo que única opção passa por um eurocanard comprado com o SAFE 2.0, com todas as desvantagens operacionais que daí advêm (@dc, já sei que te vai dar uma apoplexia, e pessoalmente eu estou solidário contigo, mas tenho a sensação que é o que vai acontecer, goste-se ou não…). Na melhor das hipóteses, o governo vai acenar com jam tomorrow, dizendo que vai entrar como observador no GCAP e que talvez, possivelmente, se tudo correr bem, se os planetas se alinharem e Júpiter estiver na casa de Capricórnio, lá para 2050 poderemos comprar uns quantos exemplares.
Eu espero sinceramente que este cenário não se concretize, mas se concretizar, acho que o Rafale é uma carta fora do baralho por questões logísticas, pelo que a luta será entre o EF e o Gripen. Se a intenção de vir a entrar no GCAP fôr genuína, então o EF (vindo provavelmente uma esquadra de usados modernizados no curto prazo, 3-4 anos, e uma de novos depois, sendo a primeira substituída lá para 2050 pelo GCAP) é a escolha óbvia. Se a prioridade fôr dada aos custos de manutenção e simplicidade de operação, e não houver intenção séria de entrar no 6G, então o Gripen será o favorito. A escolha de aparelho dirá muito sobre os reais planos futuros da FAP.
E com esta me despeço, que o post já vai longo…
Abraços a todos
(decidi que em 2026 vou tentar ser mais simpático, vamos ver quanto a dura a coisa, lol)