"Pacifista" Japão rompe barreira histórica com mega-acordo militar com AustráliaA Mitsubishi Heavy Industries vai fornecer fragatas avançadas a Camberra num negócio de 6,5 mil milhões de dólares, consolidando a entrada de Tóquio no competitivo mercado global de armamento.

O Japão está prestes a concretizar a primeira grande venda internacional de equipamento militar com capacidades letais desde a Segunda Guerra Mundial, num sinal claro de que Tóquio quer ganhar espaço como exportador de armas num cenário global de tensões crescentes.
A escolha da Mitsubishi Heavy Industries (MHI) pelo governo australiano como fornecedora preferencial para um novo lote de fragatas, num negócio avaliado em 6,5 mil milhões de dólares (5,6 mil milhões de euros ao câmbio atual), marca uma viragem na política de defesa nipónica. O acordo, anunciado esta semana e que deverá ser fechado no início de 2026, é visto pelos analistas como um modelo para futuras exportações japonesas de navios de guerra, mísseis e sistemas de radar, de acordo com o Financial Times.
“Este é um avanço significativo para o Japão”, afirmou Hirohito Ogi, investigador no Institute of Geoeconomics e antigo responsável do Ministério da Defesa, sublinhando que o negócio poderá incentivar outras empresas do sector a procurar oportunidades no mercado externo.
A MHI apresentou à Austrália uma versão melhorada da sua fragata da classe Mogami, capaz de operar com apenas 90 tripulantes, contra os 120 necessários no modelo proposto pela alemã Thyssenkrupp, mas com maior autonomia e capacidade de armamento. Além disso, prometeu entregar o primeiro navio até 2029, colmatando a lacuna criada pela retirada das fragatas da classe Anzac e assegurou compatibilidade com a Marinha dos EUA. Apesar do preço inicial mais elevado, Camberra defendeu que os custos operacionais e de manutenção mais baixos tornavam o projeto mais competitivo a longo prazo.
A transação surge num momento em que os fabricantes de armamento beneficiam do aumento da despesa militar global, alimentada pelos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente e quando os aliados de Washington na região do Indo-Pacífico reforçam as suas forças a pensar no crescimento chinês. O mercado internacional também enfrenta constrangimentos de oferta, o que, segundo Ogi, criou espaço para a proposta japonesa: “Os EUA não conseguem responder a toda a procura dos seus aliados. A Austrália precisava das capacidades que o Japão podia disponibilizar”.
Desde que, em 2014, Tóquio levantou a proibição quase total às exportações de armas, em vigor desde o final dos anos 1960, poucos contratos relevantes foram concretizados. A derrota frente à França, em 2016, na disputa por um contrato de 35 mil milhões de dólares para fornecimento de submarinos à Austrália, foi um marco frustrante. Desta vez, contudo, o governo japonês lançou uma campanha mais articulada e adaptada às necessidades do cliente.
O negócio também ganha relevância geopolítica por ocorrer em paralelo com discussões sobre a colaboração nipónica em tecnologias submarinas autónomas no âmbito do pacto AUKUS, que une Austrália, Reino Unido e EUA. Os analistas acreditam que a cooperação em fragatas poderá abrir caminho para parcerias em áreas como tecnologias furtivas, defesa aérea e até sistemas espaciais. No entanto, a exportação de armas é um assunto sensível, uma vez que a exportação de armas letais tem de respeitar vários critérios, como por exemplo, o país que as importa não pode estar envolvido num conflito ativo.
Ainda assim, o Japão enfrenta limitações internas. O aumento previsto do orçamento de defesa para 2% do PIB até 2027, contra os atuais 1,8%, já está a pressionar a capacidade industrial. “Não conseguimos construir fábricas rapidamente. É preciso formar pessoas, transferir técnicos de outras áreas e recrutar fora, mas isso é muito difícil”, alertou Yoshinori Kanehana, presidente da Kawasaki Heavy Industries.
Dos 11 navios previstos, três serão construídos no Japão e os restantes na Austrália, com a parceira local Austal. Especialistas avisam que a falta de experiência japonesa em manutenção e gestão de cadeias de fornecimento no estrangeiro pode criar dificuldades. No entanto, se o projeto for cumprido, o Japão poderá conquistar espaço entre os exportadores de defesa.
“Há muitos países de médio porte que não conseguem pagar por equipamento norte-americano”, lembra Corey Wallace, professor na Universidade de Kanagawa. “O Japão tem agora uma oportunidade única para provar que pode ser um fornecedor de confiança no mercado global de armas”.
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