Invasão de Goa, Damão e Diu - A guerra esquecida?

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Benny

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Invasão de Goa, Damão e Diu - A guerra esquecida?
« em: Junho 23, 2005, 08:22:28 pm »
Creio que a invasão da India Portuguesa por forças da União Indiana foi, para nós, a guerra esquecida do Século XX.

Salvo o famoso combate envolvendo o Afonso de Albuquerque pouco ou nada se tem falado ou estudado sobre o assunto.

A historiografia do Estado Novo, claro está, não quis dar publicidade a um dos primeiros golpes que iria por fim ao Império Português.

Os prisioneiros de guerra foram devolvidos pela calada. Só recentemente se começou a dar-lhes o merecido reconhecimento.

Por outro lado, as guerras coloniais retiraram muito do protagonismo que poderia ser reservado para o estudo desta curta guerra.

Muito haverá para falar sobre este assunto - é um campo a explorar.

Aguardo ansiosamente que a recente (e profícua) historiografia militar Portuguesa aborde o assunto.

Benny
 

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Yosy

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« Responder #1 em: Junho 24, 2005, 12:02:39 pm »
Concordo. Foi quase uma "guerra secreta" o que se passou em Goa. Tenho um livro que tem um pequeno resumo do que se passou. Quando puder transcrevo-o aqui.

Sabiam que um dos actores dos Malucos do Riso participou nesse conflito como enfermeiro militar  :D ?
 

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emarques

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« Responder #2 em: Junho 24, 2005, 01:31:09 pm »
Considerando que participamos na Primeira Guerra Mundial e ninguém se lembra disso, acho que a guerra com a União Indiana acaba por ficar em segundo lugar nas "guerras esquecidas".
Ai que eco que há aqui!
Que eco é?
É o eco que há cá.
Há cá eco, é?!
Há cá eco, há.
 

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Benny

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« Responder #3 em: Junho 24, 2005, 02:54:29 pm »
E, pelo menos, existem monumentos à Grande Guerra, nomes de ruas, praças, etc. Ainda há milhares de veteranos da guerra com a União Indiana, mas são práticamente invisíveis.

Caro Yosi: Essa transcrição seria bastante interessante. A única coisa que tenho publicada sobre o assunto é no último volume da magnífica série de livros de Saturnino Monteiro, sobre guerra naval.

Benny
 

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Yosy

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« Responder #4 em: Junho 24, 2005, 07:33:26 pm »
Citação de: "emarques"
Considerando que participamos na Primeira Guerra Mundial e ninguém se lembra disso, acho que a guerra com a União Indiana acaba por ficar em segundo lugar nas "guerras esquecidas".


Que exagero. Como o Benny disse, pelo menos existem monumentos aos mortos nessa guerra.

Fotos da queda de Goa:

Tropas indianas em direcção a Goa


Cidadãos goeses celebram com o Exército Indiano em Panjim, Goa


A cerimónia da rendição portuguesa em Panjim, Goa


Bandeira da Força Aére Portuguesa capturada durante a Operação Vijav


Tenente-Coronel Sucha Singh aceita a rendição das tropas portuguesas em Panjim, Goa


Tenente-General (mais tarde General e Chefe de Estado-Maior do Exército) J.N. Chaudhuri entra em Panjim a 19 de Dezembro de 1961


General Pran Nath Thapar (sentado, extremo direito), Chefe de Estado-Maior do Exército, com o Governador-Geral português, num campo de prisioneiros de guerra em Panjim, Goa


A Operação Vijay (Vitória)
 

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Benny

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« Responder #5 em: Junho 24, 2005, 08:05:04 pm »
O artigo começa por dizer isto, a título de justificação para a sua agressão:

"The Portuguese refusal to transfer her Indian settlements of Goa, Daman, Diu and Anjidiv Islands to the Indian Republic, led to Operation Vijay in 1961. They had ruthlessly suppressed a peaceful Satyagraha launched to liberate these territories in 1955. In 1961, they even fired on some Indian coastal steamers and fishing boats near Anjidiv Island. India, therefore, decided to use force to liberate the Portuguese pockets on her soil"

É evidente que a era dos Impérios já tinha terminado, e que Portugal persistia, obstinadamente, em negar quaisquer negociações para cedência de territórios.

Do ponto de vista dos interesses estratégicos e do prestígio internacional, regional e interno da União Indiana, a manutenção de colónias estrangeiras no "seu" sub-continente era uma situação pouco tolerável.

Mas tratou-se, ao fim e ao cabo, de uma agressão não provocada e completamente ilegítima.

Tal como Portugal muitos séculos antes, a União Indiana apoderou-se pela força destes territórios - não vale a pena negá-lo ou disfarçar este feito de armas sob a capa de uma espécie de resposta a "marchas pacíficas" ou "repressões sangrentas" ou - até - "tiros contra barcos de pesca"!

Benny
 

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Yosy

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« Responder #6 em: Junho 26, 2005, 03:05:55 pm »
Ah. Cá está. Isto é do livro de John P. Cann - "Contra Subversão em África" de que já falei aqui.

A Queda de Goa

Os acontecimentos relacionados com Goa, em 1961, endureceram novamente a posição de Portugal, dando a Salazar a oportunidade de, devido a um acontecimento penoso, unir a população para a guerra. Conquanto o território da Índia portuguesa fosse relativamente pequeno - 4 194 quilómetros quadrados - o ataque do governo indiano constituiu um deliberado acto de agressão contra outro Estado. Portugal possuía aí três enclaves, Goa, Damão e Diu. O novo governo indiano ameaçara tomar essas possessões no fim dos anos quarenta, pois considerava-as uma afronta. O primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, juntamente com os Estados Unidos, interveio energicamente, com o objectivo de moderar as ambições indianas. Posteriormente, o primeiro-ministro Nehru, encorajado pela revolta armada em Angola, colocou algumas exigências peremptórias aos portugueses (Nehru anunciou que a Índia “não estava disposta a tolerar a presença dos portugueses em Goa, ainda que os goeses os quisessem lá”). Quando se tornou evidente que Salazar não tencionava abandonar o território e recusaria negociar, a Índia juntou, nas fronteiras dos três territórios, 30 000 homens apoiados por carros de combate, aviões e navios de guerra. O Governador-Geral, Vassalo e Silva, poderia defender o seu território apenas com cerca de 3 000 homens mal equipados e sem cobertura ou defesa aérea, 900 polícias goeses e uma velha fragata. A 11 de Dezembro, Salazar tentou invocar a Aliança Anglo-Portuguesa, mas sem sucesso. Desde 1954 que a Grã-Bretenha recusava qualquer auxílio, declarando que a aliança de 600 anos tinha claras limitações, particularmente se um membro da Commonwealth se encontrasse envolvido. A Grã-Bretenha já não necessitava dos portos portugueses para transitar para as suas colónias, e Portugal já não precisava da protecção da cada vez mais reduzida Marinha Britânica. Novas estruturas aliadas, como a NATO, tinham substituído claramente a Aliança, tanto nas intenções como na prática.
Salazar deu instruções para que a resistência durasse pelo menos oito dias, para poder mobilizar apoio internacional. Se isso não fosse possível, então deveriam ser feitos “todos os sacrifícios” a fim de salvar a honra portuguesa. As forças indianas invadiram na manhã de 17 de Dezembro, e Vassalo e Silva rendeu-se perante uma luta sem sentido, a 19 de Dezembro, muito longe dos tais oito dias e do “sacrifício total”. Vassalo e Silva e outros oficiais envolvidos foram demitidos das forças armadas em 1963 no que pareceu um esforço para afastar a vergonha pela perda da Índia portuguesa e servir de exemplo aos outros oficiais em futuras situações semelhantes, como as guerras coloniais que se avizinhavam (em Angola já tinham começado). Na sua maioria, os militares ficaram ressentidos com o castigo injusto e com o facto de fazer dos soldados bodes expiatórios dos erros civis. As forças armadas realizaram as campanhas de África com a “ideia ameaçadora de que o governo estava preparado para as manipular e sacrificar em missões sem esperança e virtualmente levar a conselho de guerra todos os sobreviventes.” O General António de Spínola que foi o Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné (1968-1972), vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (1972-1974) e o primeiro Presidente após a revolução de 1974, descreveu a ansiedade que impregnava todos os militares portugueses na véspera das guerras de África: “O exemplo da Índia é um precedente bem vivo do porvir que receamos. Nunca se acreditou que sucedesse o que, afinal, era inevitável; no entanto, a tragédia deu-se, e logo foi desviada a atenção da Nação para o campo circunstancial da conduta militar, acusando-se as Forças Armadas de não se terem batido heroicamente quando, na realidade, qualquer que fosse a eficácia da defesa, o colapso seria sempre questão de dias.” O castigo para os comandantes na Índia deixava a mensagem explícita de que não haveria mudança de opinião por parte do governo relativamente à decisão de defender as colónias. O empenhamento de Salazar em preservar o seu regime era inabalável no seu propósito, e os acontecimentos de Goa serviram para pôr inequivocamente Portugal no caminho da guerra.
 

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Luso

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« Responder #7 em: Junho 27, 2005, 02:34:57 pm »
E há que documentar as relações entre o PCP e os auto-designados "Freedom Fighters"...

E depois os artigos indianos sobre a operação tendem para um nacionalismo bacoco (alguns são tão agressivos que são nojentos).
Ai de ti Lusitânia, que dominarás em todas as nações...
 

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fgomes

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« Responder #8 em: Junho 27, 2005, 05:31:51 pm »
É uma pena que por exemplo, a acção do alferes Santiago de Carvalho continue a ser esquecida. Conseguiu resistir em Damão durante 36 horas!
As forças portuguesas eram minúsculas, tinham poucas armas, ainda por cima obsoletas, no entanto, apesar da sua superioridade esmagadora, os invasores indianos levaram quase 2 dias a percorrer uma dúzia de quilómetros entre a fronteira de Goa e a capital deste território!
Segundo me contaram amigos que conhecem a antiga Índia Portuguesa, os indianos continuam a sofrer de complexos nacionalistas em relação a Portugal, havendo mesmo uns autointitulados "freedom frighters" ou seja antigos colaboracionistas com a invasão indiana, que a primeira coisa que fazem ao levantar-se é olhar para o mar para ver se há alguma armada portuguesa prestes a desembarcar!
 

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Luso

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« Responder #9 em: Junho 27, 2005, 05:47:15 pm »
Li há tempos num site indiano que as baixas indianas não foram NADA insignificantes e que haverá testemunhos de piras funerárias que indicam que o número de mortos teria sido bastante superior ao oficial.

Sabem o que vos digo?
A Guerra colonial ainda tem muito para revelar e creio que no fundo, a população e os próprios combatentes ainda não tomaram consciência total do que se passou.
Ai de ti Lusitânia, que dominarás em todas as nações...
 

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JoseMFernandes

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« Responder #10 em: Junho 27, 2005, 06:05:23 pm »
Um apontamento sobre uma das consequencias posteriores.O Governo portugues que obviamente nao reconheceu a legalidade da ocupaçao do Estado Portugues da India, nem a legitimidade da sua integraçao na Uniao Indiana, decretou o direito dos naturais desses territorios (nascidos até 1961) manterem a cidadania portuguesa, com os respectivos e entao relativamente escassos direitos internacionais.Curiosamente, esta lei,nao so nao foi revogada no 25Abril74 ( esta questao foi regulada com os acordos bi-laterais de independencia nas restantes ex-colonias), como  até hoje, penso,  nao se fez um largo e conclusivo  acordo com a India sobre a herança cultural e humana portuguesa, e  sem pretender que a culpa seja atribuivel exclusivamente a Portugal.Pelo contrario, esta dubia situaçao veio  a ser  aproveitada  e deturpada com os piores objectivos, apos a integraçao de Portugal na entao CEE em 1986, quando muitos hindus 'descobriram a saudade' de ser portugueses, por via do estado indiano de Goa. O trafico de passaportes e BI's portugueses verdadeiros(rarissimos com o decorrer dos anos) e os pretensos da esmagadora maioria nos registos oficiais (nomes,datas de nascimento, de naturalidade...), quando nao totalmente falsos, cresceu exponencialmente, na tentativa de obter um 'lugar ao sol' na Europa, muitos para Portugal, onde sao relativamente visiveis no comercio, mas cmuitos  deles com rumo posterior  para o Reino Unido, onde  se sentem mais ligados por motivos de casta, ambiente ou interesse economico, sendo que na sua  maioria pouco ou nada tinham a ver com o antigo Estado da India Portuguesa...Lembro-me de uma visita nos anos 90, bem documentada fotograficamente, efectuada pelo PM portugues a Goa, e onde ficaria  patente a surpresa, dele e seus  acompanhantes, com a livre  existencia de  enormes painéis publicitarios por todo o lado, até na estrada do aeroporto,  prometendo  'arranjar' passaportes portugueses com vista a deslocar-se ou emigrar para a  Europa.

Em Moçambique uma  parte significativa da razoavel comunidade indiana existente, que nao seria maioritariamente goesa, acabou apos varias e tristes peripécias(racismo?), por abandonar o novo pais, e redirigir-se para a Europa, igualmente  para, ou  através de Portugal...mas isso ja sera outra historia...
 

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alfsapt

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« Responder #11 em: Junho 28, 2005, 09:44:42 am »
Citação de: "Luso"
Sabem o que vos digo?
A Guerra colonial ainda tem muito para revelar e creio que no fundo, a população e os próprios combatentes ainda não tomaram consciência total do que se passou.


Ou a verdade toda incomada muita gente ou ainda pior: nem estamos preparados para ela.
"Se serviste a patria e ela te foi ingrata, tu fizestes o que devias, ela o que costuma."
Padre Antonio Vieira
 

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Luso

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« Responder #12 em: Junho 28, 2005, 01:51:30 pm »
Citação de: "alfsapt"
Citação de: "Luso"
Sabem o que vos digo?
A Guerra colonial ainda tem muito para revelar e creio que no fundo, a população e os próprios combatentes ainda não tomaram consciência total do que se passou.

Ou a verdade toda incomada muita gente ou ainda pior: nem estamos preparados para ela.



Tem razão. Será mais isso que outra coisa.
Ai de ti Lusitânia, que dominarás em todas as nações...
 

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Yosy

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« Responder #13 em: Junho 28, 2005, 04:12:22 pm »
Citação de: "alfsapt"
Citação de: "Luso"
Sabem o que vos digo?
A Guerra colonial ainda tem muito para revelar e creio que no fundo, a população e os próprios combatentes ainda não tomaram consciência total do que se passou.

Ou a verdade toda incomada muita gente ou ainda pior: nem estamos preparados para ela.


Provavelmente um pouco de ambas. Mas isto parece muito uma teoria da conspiração.
 

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alfsapt

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« Responder #14 em: Junho 28, 2005, 04:45:11 pm »
Citação de: "Yosy"
Provavelmente um pouco de ambas. Mas isto parece muito uma teoria da conspiração.


Realmente...

Um País mínimo de nem 10 milhões de habitantes dizer-se controlar territórios em dois continentes com a área digna de uma superpotência enquanto trava uma guerra de guerrilha essencialmente na selva em 3 frentes e uma União de Nações noutra frente, sob bloqueio da ONU e em plena Guerra Fria, acaba por sofrer uma revolução liderada por oficiais de baixa patente...

...realmente cheira a filme de 2ª categoria totalmente iverossímel.

Graças a Deus que estamos num País onde impera a transparência da nossa classe política que nada tem a ver com o passado longíquo de 75.
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Padre Antonio Vieira