Invasão de Goa, Damão e Diu - A guerra esquecida?

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pedro

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« Responder #60 em: Fevereiro 27, 2009, 08:02:19 pm »
Tenho que dar razão ao legionario o homem não teve valor quase nenhum.
Ele deveria resistir nem que fosse com pistolas, e armamento de pessima qualidade.
Ele fez que o sacrificio de outros fosse em vão.
Cumprimentos
 

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TOMSK

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« Responder #61 em: Abril 01, 2009, 06:48:38 pm »
O Combate da “Vega”
Visto da Fortaleza de Diu
.

 
O Coronel Dias Antunes era em 1961, Alferes do Exército, e tinha sido destacado para uma Companhia de Infantaria, para o longínquo distrito de Diu, no então Estado da Índia Portuguesa. É nesta situação que se encontra na altura do ataque da União Indiana e foi testemunha do combate da lancha “VEGA”.



R. A. – Em que ano chegou a Diu e em que situação?  

D. A. - Cheguei a Diu em 15 de Junho de 1960, integrado na Companhia de Caçadores nº 3, tendo ficado colocado como Comandante do Pelotão de Acompanhamento (Armas Pesadas), o qual ficou instalado na Fortaleza.  

R. A. – Naquela altura, qual era a situação em Diu e na Índia Portuguesa em geral?  

D. A. – De uma grande tranquilidade. O Governador, Sr. General Vassalo e Silva estava a fazer um excelente trabalho e, economicamente, a Índia Portuguesa era das poucas províncias ultramarinas que não constituía encargo para o governo português. Já sob o ponto de vista militar a situação era difícil. Sem entrar em mais pormenores basta que lhe diga que os cunhetes das munições de Morteiro de que dispúnhamos, tinham na tampa uns carimbos, de cor vermelha, que diziam: “WEST POINT – 1954 – REJECTED”!
Material antiquado, velho e com efectivos em pessoal cada vez menores!  

R. A. – Qual era de uma maneira geral, o relacionamento dos militares com a sociedade civil?  

D. A. –A relação entre nós e a população civil era a melhor possível, de uma sincera fraternidade e amizade. Confirmámos isso depois da rendição.  

R. A. – Qual era o efectivo militar nessa altura?  

D. A. – Para além da minha Companhia, havia também o pessoal da Bateria de Artilharia, da PSP, Guarda Fiscal, algum pessoal do Comando e, claro, o Pessoal da Marinha constituído pela guarnição da lancha “VEGA”, e 3 homens da lancha “Folque” dos serviços hidrográficos, num total aproximado de 350 homens. Pessoal civil, natural da Metrópole, não havia ninguém.
 
R. A. – Havia grande confraternização entre os ramos?  

D. A. –A natural defesa para um grupo pequeno, numa terra tão pequena é a de se unir. Mas de facto o ambiente era excepcional. Basta acrescentar que, ainda este ano, na noite de 17 para 18 de Dezembro nos continuaremos a reunir, como vimos fazendo nos últimos vinte anos! Com o pessoal da Marinha, desde o então Primeiro-Tenente Geraldes Freire, mais tarde Seixas Serra e a finalizar Oliveira e Carmo, com todos eles a amizade e confraternização eram uma constante.
 
R. A. – Quando é que notaram alterações por parte da União Indiana?  

D. A. –Três meses antes começam a notar-se os primeiros sintomas de que algo se estava a preparar, com contínuos sobrevoos  de Diu por parte de aviões militares, os quais imaginávamos que estariam fotografando em pormenor todo aquele pequeno território. Numa linha de caminho de ferro que corria cerca da fronteira, também detectámos o transporte inusitado de tropas, canhões etc., num aparato militar tremendo. O Comando recebeu informações que lhe confirmavam a deslocação para os arredores de Diu de tropas e material de guerra (efectivos calculados em cerca de 4.500 homens).  

R. A. – Em Diu havia um plano para enfrentar as Forças Indianas em caso de invasão?

D. A. – O plano da defesa de Diu que, devido à pequenez do território e aos reduzidos meios de que dispunha, era forçosamente simples, foi cumprido. Assentava ele fundamentalmente nos seguintes pontos:

a)  Resistência dos Postos exteriores da Guarda Fiscal e Polícia, enquanto possível;
 
b) Ocupação da zona do Aeroporto e arredores;

c)  Defesa da muralha exterior da cidade, a cargo da Companhia de Caçadores, menos o seu pelotão destacado para a zona do Aeroporto, e o Pelotão de Armas Pesadas que estava na Fortaleza, onde constituía uma base de fogos;

d) Defesa final, efectuada na Fortaleza, à custa dos meios recolhidos, incluindo a Bateria de Artilharia, actuando como Infantaria;

Não foi possível a sua execução completa, porque depois do primeiro embate em que se combateu toda a noite, até ao esgotamento de munições no caso dos Morteiros, de manhã a U. I. entrou com os seus aviões a jacto e a partir desse momento era completamente impossível sair sequer dos buracos onde nos tínhamos enfiado...

A Fortaleza, nosso teórico último reduto, estava completamente devassada e destruída.  

R. A. – Quando começou a desenrolar-se o combate?  

D. A. – Na madrugada de 18 de Dezembro, cerca das 1.30, a U.I. iniciou a invasão tentando entrar por dois pontos: a península de Gogolá, defronte de Diu, e um posto fronteiriço (Porto Covo).

Em ambos os postos, sobretudo em Gogolá onde havia mais concentração de tropas, e devido à forma maravilhosa como se comportaram os (poucos) homens da Guarda Fiscal e Polícia que neles se encontravam, os ataques foram repelidos com bastantes baixas por parte da U. I. e apenas alguns feridos da nossa parte. Para Gogolá foi onde se concentrou todo o nosso fogo de apoio, quer por parte dos Morteiros, quer por parte das peças de Artilharia.

Esta acção durou até cerca das 5.30 da manhã, e como entretanto se tinham esgotado as munições dos Morteiros que estava comandando, apresentei-me no posto de Comando ao Sr. Major Lucena de Vasconcelos, Governador e Comandante-chefe, o qual me ordenou “que ficasse por ali”. O posto de Comando tinha uma posição elevada e dispunha de uma janela sobre o canal de onde eu vi a lancha “VEGA”, com o seu Comandante Oliveira e Carmo de farda branca (adiante explicarei porquê) e com o qual eu troquei uns acenos de saudação. Neste momento um marinheiro aproximou-se dele e disse-lhe qualquer coisa que fez com que ele se precipitasse para o alarme de postos de combate, tendo-me acenado para a ponta da ilha. Ali duas esquadrilhas de aviões a jacto iam destruindo com uma rapidez incrível todos os postos fronteiriços e – pensámos nós – sepultando no seu interior os seus bravos defensores.

Também na mesma altura se identificou ao largo de Diu, mas muito perto para os seus canhões, o cruzador “Nova Delhi” que entretanto começara a bombardear a Fortaleza.

Corri para perto do meu pessoal, pelo caminho fui atacado pelos aviões, e do buraco onde todos nos enfiámos, de vez em quando vinha até ao cimo das muralhas de onde...  

R. A. – Assistiu à acção da “VEGA”?  

D. A. – Assisti à acção da “VEGA”! Vejo-a sair a toda a velocidade a caminho do cruzador, tendo sido atacada no caminho pelos aviões a jacto! O Comandante manejando com perícia o leme, furtava-se repetidamente aos vários ataques que lhe eram dirigidos (eram visíveis no mar os rastos das várias rajadas), e assim conseguiu atirar abaixo três aviões inimigos! Fantástico! E continuava a gritar com o seu pessoal: Força neles! Dá-lhes agora, Ramos! Boa Aníbal!” Extraordinário!

Mas após um breve intervalo de reabastecimento, quando os aviões vieram outra vez, ao primeiro ataque desta vez cruzado, ao fugir de uma das rajadas, caiu em cheio no meio da outra, e foi o fim! As balas entravam por cima e saíam pelo fundo da lancha construída em fibra, e logo nessa primeira rajada a embarcação ficou em chamas, a meter água, mas ainda com o atirador da peça de Artilharia a fazer fogo! O convés era um mar de sangue, pois foram cortadas ambas as pernas ao Oliveira e Carmo e ferido de morte o marinheiro-artilheiro Ferreira. Ao Comandante ainda com vida, tentaram passá-lo para uma balsa lançada entretanto na água, mas nova rajada acabou de vez com a sua vida!!

Essa é uma imagem que jamais esquecerei!!!

R. A. – Conseguiu ouvir as palavras que o Comandante dirigiu à guarnição antes do combate?  

D. A. – Não. Mas durante o cativeiro e como me continuei a dar muito bem com o pessoal da Marinha (tendo sido até escolhido pelo Governador para recolher oficialmente o relatório deste pessoal), falámos várias vezes deste assunto tendo todos de uma forma geral referido que as suas palavras tinham sido de exaltação e estímulo, mais ou menos: “Rapazes! Sei que vão cumprir assim como eu! E que mais vós quereis se não acabarmos numa batalha! Fazemos parte da defesa da Pátria e vamos cumprir até ao último homem e última bala! Eu até me vou vestir de gala porque assim morrerei com mais honra!!”

E depois de isso, fizeram-se as despedidas, as fotografias dos entes queridos foram beijadas e guardadas nos calções e partiram com aquele Comandante com quem iam até ao fim do mundo!!!  

R. A. – Hoje, 40 anos depois, o que se lhe oferece dizer?  

D. A. – Analisando a atitude do Comandante Oliveira e Carmo, de ter visto a forma como ele encarou a situação, tem que se enaltecer o grande patriotismo, honestidade profissional, hombridade e enorme coragem. Ele teve tempo suficiente para se preparar e preparar o pessoal para o combate, preparou-se para cumprir uma ordem e nesse cumprimento, morreu. A guarnição estava perfeitamente moralizada e o exemplo dele foi de tal forma empolgante que todos o seguiam.

Ainda há heróis em Portugal!

Só lamento que o seu nome seja tão pouco conhecido e honrado, sobretudo junto da nossa juventude!
 
http://www.marinha.pt/extra/revista/ra_ ... pag24.html
 

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legionario

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« Responder #62 em: Abril 01, 2009, 07:08:52 pm »
Conheço relativamente bem este episodio mas é a primeira vez que ouço falar de 3 avioes indianos abatidos pela lancha ...mas gostava que fosse verdade .
O apontador devia ser fora de série para abater 3 aparelhos a jacto com uma metralhadora pesada .
A pior das ditaduras é a que se disfarça de democracia
 

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Ataru

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« Responder #63 em: Abril 01, 2009, 07:55:09 pm »
Estes nossos territórios deviam ter sido lidados de melhor maneira, penso que mais ou menos como Macau. Uma negociação cuidada com a União Indiana e garantia de devolução pacifica dos territórios dentro de um determinado período de anos. Não vejo solução melhor... Isto aplicava-se também à Fortaleza de São João Baptista de Ajudá, no actual Benim.
Greater Portugal = Portugal + Olivença + Galiza and the Eonavian Region + border villages that speak galaico-portuguese dialects + Cape Verde + St. Tomé and Principe.
 

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TOMSK

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« Responder #64 em: Abril 01, 2009, 08:01:35 pm »
Penso que o que o Coronel Dias Antunes se referia ao dizer "abater"´era pôr fora de combate. O que de facto sucedeu. A "Vega" consegui repelir o ataque de dois caças, conseguindo mesmo danificar gravemente um terceiro, que teve que aterrar de emergência!

O que não deixa de ser uma façanha impressionante para uma lancha de fiscalização!  :shock:  :shock:

"O valor dos portugueses, segundo velha tradição na Índia" como afirmou Salazar na última carta ao Governador, foi assegurado, e o nome de Oliveira e Carmo figurará na história ao lado dos Albuquerques e Almeidas, como os grandes portugueses da Índia!
 

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legionario

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« Responder #65 em: Abril 01, 2009, 08:10:01 pm »
Esse episodio é extraordinario, pena tantas pessoas o ignorarem.
A pior das ditaduras é a que se disfarça de democracia
 

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TOMSK

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« Responder #66 em: Abril 09, 2009, 11:25:26 am »
Documentário de 25 minutos sobre a "portuguesa" Diu.

 yu23x1
 

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TOMSK

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« Responder #67 em: Maio 10, 2009, 12:46:11 am »


A prestigiosa revista “Paris Match” de 13/1/1962 noticiava o fim da “Índia Portuguesa”:
3000 soldados feitos prisioneiros. 36 horas tinham sido suficientes para abolir 451 anos de história. O verdadeiro não-violento tinha sido o último Governador português, Vassalo e Silva cuja partida fez chorar as gentes de Goa, que o queriam abraçar. Rendendo-se, tinha evitado um massacre e assegurado a sobrevivência do património português naquelas paragens.


 :cry:  :cry:
 

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HSMW

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« Responder #68 em: Agosto 28, 2009, 01:23:42 am »
http://www.militaryphotos.net/forums/sh ... p?t=163901

Goa - 1954
Excelentes fotos.
Quem estiver lá registado que mande uns bitaites.  c34x
http://www.youtube.com/profile_videos?user=HSMW

"Tudo pela Nação, nada contra a Nação."
 

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TOMSK

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Re: Invasão de Goa, Damão e Diu - A guerra esquecida?
« Responder #69 em: Outubro 09, 2009, 02:01:42 pm »
Documento da rendição do Estado Português da Índia



http://hubpages.com/hub/The-Spread-of-the-GSB-Community

Curiosa a observação do Presidente Kennedy, a propósito das virtudes da "não-violência" contrastantes com a agressiva invasão do território, quando comentava com o embaixador indiano nos Estados Unidos:

"Vocês passaram os últimos 15 anos a pregar-nos a moralidade, e agora chegam-se à frente e agem como qualquer outro país agiria. Como se costuma dizer, parece que o padre foi apanhado a sair do bordel"...

(New York Times, Pag.32, 19  Dezembro 1961)
 

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Carlos Rendel

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Re: Invasão de Goa, Damão e Diu - A guerra esquecida?
« Responder #70 em: Março 09, 2010, 01:40:07 pm »
Guerra esquecida ou guerra que se quer esquecer?
Não conheço a India ex-portuguesa e só sei o que se conta e o que se escreve,a que se deve dar um prudente desconto.É indiscutível que a política ultramarina de Salazar sofreu uma
súbita inflexão ao soprar o vento da história em Angola,ficando em Goa o armamento que
não era possível "exportar".Também há que reconhecer que resistir 8 dias em Goa como
aspirava o dr. Salazar para o assunto ser debatido no Conselho de Segurança da ONU era
insensato dados os meios em confronto.Todavia,a resistência deste território minúsculo
face ao Golias indiano traria uma onda de simpatia dos países ocidentais,sobretudo os que
sofreram as agruras da II Guerra mundial,com a invasão hitleriana.
Fosse como fosse,as forças nacionais,para atingirem o desiderato de "aguentar" necessitariam
de armamento mais moderno e adequado aos fins,de linhas de defesa organizadas,de artilharia antiaérea com pessoal treinado,e artilharia de "campo" (faz lembrar o 188 alemão)
ainda "comandos" com objectivos bem definidos,de alguma aviação com missões defensivas,
e treino intensivo de goeses na guerra de guerrilha,com missões de infiltração.
Bem, embora a história não tivesse mudado,e já não fôssemos os portugueses de quinhentos
ainda tínhamos garras afiadas,embora nos sobrassem poucas,havia a nosso crédito o respeito
e admiração da comunidade internacional.
Aceito que haja quem "a posteriori"diga que esta argumentação é uma fantasia de ociosos
mas a História traz-nos mais algumas lições.Que dizer então de Stalingrado,da defesa de
cidades portuguesas e espanholas cercadas por Napoleão,dos cadetes do Alcazar de Toledo
em 1936,ou dos 300 espartanos em Termópilas?Tudo isto a propósito dos 25 homens que
morreram em combate em 1961,que nos fazem inclinar com respeito.
E o resto? Como foi?Porque foi? Talvez um dia se saiba,talvez não.                       C.R.
CR
 

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miguelbud

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Re: Invasão de Goa, Damão e Diu - A guerra esquecida?
« Responder #71 em: Dezembro 14, 2011, 10:39:41 am »
"Jóias da Índia" saíram dos baús

Há exactamente 50 anos, a 12 de Dezembro de 1961, Jorge Esteves Anastácio, gerente-geral do Banco Nacional Ultramarino (BNU) tomava uma decisão drástica, mas que o escoar do tempo provaria acertadíssima.

A Índia Portuguesa, particularmente Goa, vivia os seus últimos momentos sob jurisdição lusa, com o exército indiano nas suas fronteiras, pronto a retomar pela força o que a diplomacia, esbarrando na intransigência de Salazar, não tinha conseguido. Prevendo a invasão do território (que se viria a verificar apenas cinco dias depois) e temendo as consequências que esse processo poderia ter para os bens depositados no banco – as autoridades da Índia ter-se-iam apropriado dos valores, reclamando-os para si – Jorge Anastácio mandou encaixotar todo o espólio e encaminhá-lo para Portugal.

O navio português ‘Índia’ (apropriadamente baptizado), por desígnios do destino, fazia nessa altura escala em Goa, na sua viagem desde Timor, e em boa hora, pensou o gestor, já que foi mesmo essa a boleia que os bens apanharam, rumo a Lisboa, onde estariam a salvo. A decisão hoje parece de mestre, um gesto de determinação e capacidade de análise, mas na altura não deixou de acarretar risco, já que se nada tivesse acontecido, os clientes teriam visto os seus valores enviados para bem longe, por razão nenhuma.

Meio século volvido, a Caixa Geral de Depósitos (que entretanto adquiriu o BNU) celebrou esta data com a reabertura do espólio, que depois de tanto tempo selado e atrás de quatro paredes (de cofre) vai ser entregue ao Estado português. Alguns dos objectos foram reclamados pelos herdeiros dos legítimos donos, ao longo destes anos, mas as 14 caixas que sobraram vão agora ser reabertas, analisadas e inventoriadas, devendo depois ser, pelo menos em parte, expostas ao público.

«O destino que será dado aos objectos pertence agora ao Ministério das Finanças e ao Instituto dos Museus e da Conservação, creio. As peças com valor museológico devem acabar expostas ao público, algo que deve demorar alguns meses, no entanto, já que tem de se fazer o inventário das peças. Nesta altura já nada será reclamado, e todo este material pertence, legal e juridicamente, ao Estado português», disse a A BOLA Rodolfo Lavrador, administrador da Caixa Geral de Depósitos.

O dia, da parte da CGD, serviu também para homenagear o ‘salvador’ do espólio em causa, denominado de ‘Jóias da Índia’, que contempla desde moedas a barras de ouro e acessórios de valor, como brincos e pulseiras. Um homem que representa um exemplo de gestão.

«Numa altura em que se fala tanto de administração, Jorge Anastácio foi o precursor dos valores que hoje tanto se apregoam. O rigor, o profissionalismo, a preocupação com os clientes e, sobretudo, a proactividade. Hoje, não está aqui fisicamente [uma fissura na coluna impediu o antigo gestor de marcar presença na cerimónia] mas o seu espírito, sim, e hoje estamos aqui para homenagear alguém que demonstrou grande coragem, sob circunstâncias muito complicadas», declarou Rodolfo Lavrador.

A esposa e a filha de Jorge Anastácio agradeceram, com visível emoção, o gesto, garantindo que «ele estaria muito orgulhoso, com estas palavras, já que trabalhava com muito zelo, cuidado e dedicação».

http://www.abola.pt/mundos/ver.aspx?id=303813
 

Re: Invasão de Goa, Damão e Diu - A guerra esquecida?
« Responder #72 em: Dezembro 16, 2011, 09:58:28 pm »
Meus amigos

Como trabalho capital cito A Queda da India Portuguesa de Carlos A. de Morais.

Claramente Salazar não acreditava na invasão. Pedir a vida à tropa era claramente inadequado.

O exercito estava num estado lamentável, com a moral muito em baixo. Comandante em Chefe incapaz. Faltou um plano consistente.

Há uma clara intenção do Estado Maior em não "investir" na Índia. Este pensamento não é incorrecto mas aos que ficavam seria justo dar meios de defesa dignos (a guarnição que chegou a 3000 homens estava em 1500, pouco antes da invasão a outra fragata foi retirada, ficando o Afonso de Albuquerque sozinho)
Marinha globalmente à altura
Algumas unidades locais estiveram à altura.
 

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Carlos Rendel

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Re: Invasão de Goa, Damão e Diu - A guerra esquecida?
« Responder #73 em: Dezembro 17, 2011, 04:37:00 pm »
Suponho que a atitude honrada do senhor Anastácio só merece encómios por vivermos numa sociedade sem moral.Assim não fosse e seria um caso vulgar de cumprimento do dever dum homem honesto.

Quanto à situação militar,Salazar e Nehru estavam cada um em seu beco sem saída.Nehru pretendia ampliar o seu prestígio na Índia,arrancando três "borbulhas" da face do país,e demonstrando a força da Índia no seio dos não alinhados.Por outro  lado deixava caír a máscara de Gandhi da "não violência" queimando o prestígio internacional,tão difícil de angariar.A posição de Salazar não era melhor,na hora do apêrto descobriu não têr amigos dispostos a ajudar a salvar Goa,Damão e Diu,e,deixando as forças portuguesas caír numa desproporção angustiante.Escreveu,então o Presidente do Conselho ao Governador General Vassalo e Silva,horas antes da invasão,"que portugueses só vitoriosos ou mortos".E solicitou oito dias de resistência,para pôr o caso ao Conselho de Segurança da ONU e daí obter a condenação mundial da União Indiana.Mas o diferencial entre os dois adversários em militares e material era assustador,o que contribuiu para  a desmoralização das nossas tropas,antevendo a impossibilidade de uma vitória.São conhecidos os pormenores da invasão,e os actos heróicos de alguns portugueses,na melhor tradição  castrense,que foram rápidamente neutralizados-a excepção que confirma a regra.Pode dizer-se que se deram escaramuças em alguns locais em que os heróis pagaram com a vida a sua ousadia.Também é certo que tombaram mais agressores que portugueses,o que não deve admirar ninguém.
Se há quem afirme que foi a primeira derrota de Salazar,demonstrou que um governante não pode dirigir um Império encafuado num gabinete,e desconectar a realidade.A tropa portuguesa sabia muito bem não têr qualquer hipótese,
daí ao derrotismo vai um passo pequeno,e a rendição sem disparar um tiro a consequência.Sempre ouvi dizer que o Governo decide,e o militar cumpre as ordens sem fazer perguntas.  Certamente que houve heróis de um e outro lado,
que se evidenciaram,e se a União Indiana no termo das hostilidades,falou em "duros combates","lutas corpo a corpo" e "muitas baixas" ela é suspeita,porque apenas pretende valorizar a sua actuação.O conceito de heroi também deixa
algumas dúvidas e lembra-me os combates pela posse de Estalinegrado,em 1943 (II Guerra Mundial) :os alemães após terem  tomado noventa por cento da cidade,foram alvo de um fortíssimo contra-ataque que levou os nazis e os russos
a escavar trincheiras,e defender as suas linhas.Ambos tinham ordens superiores para não recuar,sob nenhum pretexto.Com temperaturas negativas da ordem de vinte graus e sujeitos a constante bombardeamento,só havia uma ideia:
saír dali quanto antes...Em ambos os lados houve casos de automutilação e de loucura,mas heróicamente as trincheiras aguentaram de parte a parte.Bom,falta referir,que os dois lados dispuseram ninhos de metralhadoras detrás das
trincheiras,com tropas especiais---Spetznaz e Waffen SS---  para de imediato abater quem saísse da trincheira.            Heróis,sim,mas à força...                       C.R.




Bibliografia:-A Queda da  Índia Portuguesa de Carlos A. de Morais
CR
 

Re: Invasão de Goa, Damão e Diu - A guerra esquecida?
« Responder #74 em: Dezembro 19, 2011, 06:22:18 pm »
A minha tristeza é grande, quando leio alguns comentários de que o combate e o morrer pela pátria durante a Invasão de Goa, Damão e Diu foi uma estupidez com o único argumento de que a proporção das forças envolvidas conduzia a uma única saída... a derrota. Seguindo a lógica.... neste momento estávamos todos a discutir aqui em castelhano. Relembro que A Batalha de Aljubarrota, a 14 de agosto de 1385,  colocou em confronto 30.000 castelhanos contra pouco mais de 5.000 portugueses, seguindo esta lógica ´´da batata´´ o melhor tinha sido enfiar a cabeça na terra e rendermos-nos.... quis o destino que 5.000 portugueses, grande parte deles apeados, derrotassem um exército 6 vezes superior! E isto não é facto único na história, outros exemplos há!

É fácil falar 50 anos depois perante os factos confirmados, com o conhecimento geral dos acontecimentos, forças envolvidas e outros pormenores que na altura não se sabiam (já tinha havido várias escaramuças e sinais hostis por parte da União Indiana sem que se consubstanciasse nenhuma invasão). Coloquem-se há 50 anos atrás... com tudo o que isso implica... (regime politico incluído, não nos vamos esquecer) a centenas de milhares de quilómetros da Metrópole na pele daqueles jovens Oficiais, Sargentos e Praças.

Vergonhoso e cobarde foi o que muitas unidades do Exército fizeram (nem todas).... em que houve armas e bocas de fogo de artilharia de campanha que nem um único tiro deram... em defesa da então Pátria... mas souberam muito bem içar lençóis brancos.

 "Patriotismo não é dar a vida pela Pátria, é fazer com que o inimigo dê a vida pela dele"  - Morrer pela pátria pode ser uma consequência disto mesmo... mas nunca um fim ou vontade anunciada. É isto que muita gente não percebe ou não quer perceber. Quem morreu na Índia portuguesa, combatendo, fê-lo de cabeça levantada com o orgulho e a Honra de ter cumprido e Honrado o juramento que fez e que nos destinge como militares.

Pedro de Ataíde
"Na campa de um Marinheiro não crescem Rosas, crescem Algas"