https://cnnportugal.iol.pt/donald-trump/eua/comeca-a-ficar-mais-claro-o-que-trump-quis-dizer-quando-afirmou-que-os-eua-vao-governar-a-venezuela/20260105/695b6fdad34e3caad84d1767Começa a ficar mais claro o que Trump quis dizer quando afirmou que os EUA vão "governar" a Venezuela
A administração do Presidente Donald Trump está a agir rapidamente para estabelecer um governo interino maleável na Venezuela, após a captura dramática de Nicolás Maduro, segundo responsáveis norte-americanos, dando prioridade à estabilidade administrativa e à reparação da infraestrutura petrolífera do país em detrimento de uma transição imediata para a democracia.
As autoridades descreveram um esforço multifacetado que utiliza a influência militar e económica americana para influenciar os remanescentes do regime de Maduro que restam na Venezuela. Em particular, as autoridades americanas concentraram-se diretamente na vice-presidente do país, Delcy Rodríguez, que os conselheiros de Trump identificaram há semanas como uma alternativa viável, embora não permanente, a Maduro. Apesar dos ataques iniciais de Rodríguez à administração por causa da captura de Maduro, as autoridades norte-americanas mantiveram, em privado, o otimismo de que ela trabalharia com os Estados Unidos.
Responsáveis dos EUA, incluindo o secretário de Estado Marco Rubio, o principal assessor Stephen Miller e o secretário da Defesa Pete Hegseth, têm estado a trabalhar no desenvolvimento de uma estrutura para o governo da Venezuela após a destituição de Maduro, segundo um responsável norte-americano. O secretário do Interior, Doug Burgum, e o secretário da Energia, Chris Wright, foram incumbidos de convencer empresas energéticas norte-americanas a regressar à Venezuela e à sua envelhecida infraestrutura petrolífera.
A imagem mais nítida que começou a surgir no domingo sobre o que Trump queria dizer quando afirmou, durante uma extraordinária conferência de imprensa, que os Estados Unidos iriam “governar” a Venezuela era essencialmente uma imagem em que os EUA confiam na enorme armada flutuante ao largo da costa para garantir que quem quer que esteja no comando faça o que a administração Trump quer.
Muitas questões permanecem sobre como, exatamente, os EUA planeiam estabelecer aquilo que equivale a um protetorado temporário num país de 31 milhões de habitantes, com cerca do dobro da dimensão da Califórnia. Não existe uma presença oficial norte-americana na Venezuela desde que a Embaixada dos EUA encerrou em Caracas, em 2019.
E os riscos para Trump parecem significativos, mesmo quando desvalorizou as preocupações de que estaria a repetir erros do intervencionismo norte-americano no estrangeiro e ameaçou com mais ação militar caso Rodríguez não cedesse às suas exigências. Até o seu objetivo mais imediato — garantir o acesso dos EUA às vastas reservas petrolíferas da Venezuela — poderia potencialmente colocar tropas norte-americanas em perigo se, como Trump sugeriu, estas forem destacadas para proteger esses ativos.
Falando no domingo, Rubio — um dos principais arquitetos da política de Trump para a Venezuela e que o presidente disse que faria parte do grupo que estaria a “governar” o país — apresentou um retrato abrangente do que isso significava.
“O que estamos a governar é a direção em que isto vai avançar no futuro”, afirmou à ABC News. “E isso significa que temos influência. E essa influência está a ser utilizada.”
Essa influência, disse, inclui o bloqueio de petroleiros destinado a cortar a principal linha de vida económica de Caracas e a contínua presença militar norte-americana em torno da Venezuela. Uma fonte da administração acrescentou que as sanções ao petróleo vão manter-se, por agora.
“Quando o presidente disse que os Estados Unidos vão governar a Venezuela, isso significa que os novos líderes da Venezuela precisam de cumprir as nossas exigências”, incluindo o fim do tráfico de droga e de armas, disse à CNN no domingo de manhã o presidente da Comissão de Inteligência do Senado, Tom Cotton.
“Queremos que expulsem os cubanos, os iranianos e os radicais islâmicos, e queremos que regressem ao mundo civilizado e sejam um bom vizinho que contribua para a estabilidade, a ordem e a prosperidade”, afirmou o republicano do Arkansas.
Nos bastidores, os responsáveis norte-americanos concentraram-se em Rodríguez, que acreditavam poder assegurar uma transição estável, oferecer uma relação mais profissional do que Maduro — e, talvez mais importante, garantir que futuros investimentos energéticos norte-americanos fossem protegidos.
Trump lançou uma ameaça contra Rodríguez no domingo, afirmando numa entrevista à revista The Atlantic: “Se ela não fizer o que é correto, vai pagar um preço muito elevado, provavelmente maior do que Maduro.”
A administração parece ter posto de parte a líder da oposição, María Corina Machado, vencedora este ano do Prémio Nobel da Paz. Alguns assessores têm avisado Trump há meses de que Machado não era uma aposta garantida e não tinha sido testada no poder. Uma fonte disse à CNN que Trump nunca ficou totalmente convencido com Machado, embora tenham existido conversas iniciais sobre como poderia ser o país com ela à frente.
Apesar das tentativas anteriores de Machado para apelar a Trump, este afirmou no sábado que ela não tinha o “respeito” necessário para liderar a Venezuela. Em vez disso, Trump disse que Rodríguez — membro de um regime que os EUA tinham anteriormente considerado ilegítimo — iria manter o poder em Caracas enquanto “fizer o que queremos”, prometendo lançar uma segunda vaga de ataques caso ela não cedesse.
Mais tarde nesse dia, Rodríguez mostrou poucos sinais de submissão, declarando que Maduro continuava a ser o chefe de Estado e descrevendo a operação norte-americana para o capturar como uma “barbaridade”.
Os responsáveis norte-americanos encararam os comentários como dirigidos a um público interno e pareceram pouco perturbados com o facto de ela estar publicamente a contrariar as afirmações de Trump de que estaria agora no poder.
Nos comentários feitos na noite de domingo, Rodríguez dirigiu-se diretamente ao presidente dos EUA, escrevendo: “Presidente Donald Trump: os nossos povos e a nossa região merecem paz e diálogo, não guerra. Esta sempre foi a mensagem do Presidente Nicolás Maduro e é a mensagem de toda a Venezuela neste momento.”
No domingo, Rubio disse que os EUA iriam avaliar Rodríguez com base no que ela fizer daqui para a frente, e não nas suas declarações passadas.
“Vamos fazer uma avaliação com base no que fazem, não no que dizem publicamente no período intermédio, nem no que sabemos que fizeram no passado em muitos casos, mas sim no que fazem a partir de agora”, afirmou.
Rubio recusou-se a fornecer pormenores sobre as suas conversas com Rodríguez, mas disse ao programa “Meet the Press”, da NBC, que “esperamos ver mais cumprimento e cooperação do que aquilo que vínhamos a receber anteriormente”.
Dois antigos altos responsáveis do Departamento de Estado afirmaram no sábado que Rodríguez provavelmente só teria feito ou fará um acordo com a administração Trump se este oferecer proteção à liderança.
“Para a Delcy, ela não vai colocar a cabeça no cepo e dizer ‘cortem’”, disse um antigo responsável que a conhece. “Qualquer acordo que venha a ser feito tem de ser feito de uma forma que ofereça algum grau de proteção à liderança.” Este responsável descreveu Rodríguez como uma “esquerdista muito empenhada” e disse à CNN que não acredita que responsáveis que dedicaram as suas vidas à causa desistam assim tão facilmente para se tornarem “lacaios”.
“Penso que vão exigir muitas garantias”, afirmou o responsável, que não estava autorizado a falar oficialmente.
Todd Robinson, que foi embaixador interino dos EUA na Venezuela durante o primeiro mandato de Trump, disse que Rodríguez poderá concordar com um acordo com a administração na “esperança de poder permanecer e, de alguma forma, continuar a controlar o aparelho político que existe”. Caso não consiga manter-se no poder, disse Robinson, poderá aceitar um acordo se este lhe permitir “sair pelos seus próprios meios, com tudo o que tiverem guardado em quaisquer contas bancárias fora da Venezuela”.
“Penso que vamos ver se a vice-presidente da Venezuela, que é alvo de sanções por parte dos Estados Unidos e de muitos outros países, e que foi aliada e escolhida a dedo por Maduro, quer virar a página”, afirmou Cotton
Não foi mencionado, pelo menos por Trump neste fim de semana, se pretende um regresso à democracia na Venezuela, que há anos é governada por regimes autoritários. No domingo, Rubio afirmou que os EUA querem ver uma transição democrática na Venezuela, mas argumentou que a administração “precisa de lidar com a realidade imediata”. Disse que discutir um possível calendário para eleições na Venezuela seria “prematuro”.
“Temos questões de curto prazo que têm de ser tratadas de imediato. Todos desejamos ver um futuro risonho para a Venezuela, uma transição para a democracia”, disse à NBC.