https://eco.sapo.pt/entrevista/queremos-que-o-retorno-da-capsula-da-atmos-seja-sempre-nos-acores/“Queremos que o retorno da cápsula da Atmos seja sempre nos Açores”
É a 1.ª missão de reentrada da Atmos em Portugal e o início de muitas que a empresa franco-alemã quer fazer tendo Santa Maria nos Açores como destino. Marta Oliveira, cofundadora, explica os planos.
Éa primeira empresa a obter uma licença comercial em Portugal para a reentrada e recuperação em alto-mar de um veículo orbital. A Atmos Space Cargo tem data de lançamento prevista da Mission Phoenix 2.1 para o segundo semestre de 2026, mas não quer que esta seja a única missão de reentrada a acontecer nos Açores, pelo contrário.
A empresa franco-alemã, com cerca de 80 pessoas, quer que seja a primeira de muitas. Neste momento, a Atmos Space Cargo, que desenvolveu uma cápsula reutilizável (Phoenix 2.1) — para, por exemplo, permitir investigação em microgravidade, testar materiais como semicondutores ou cristalização de proteínas em órbita — já tem sete missões contratualizadas e quer que seja a ilha de Santa Maria o ponto de regresso destas missões à Terra.
Marta Oliveira, cofundadora e COO da Atmos Space Cargo, explica o que motivou a escolha dos Açores para fazer a reentrada da segunda missão da companhia. Uma conversa a que se junta Bruno Carvalho, diretor do Atlantic Space Consortium em Santa Maria, que vai prestar apoio operacional no processo de reentrada da Mission Phoenix 2.1.
O que é que vos motivou a escolher Portugal e os Açores em concreto para fazer esta reentrada da cápsula da Atmos?
Marta Oliveira: Eu diria que há três pontos principais para a escolha. A primeira, explica-se a si mesmo, é a geográfica. Os Açores estão no meio do oceano, por isso em termos de safety buffers, permite-nos estar afastados de todas as áreas densamente populadas. Por isso, dá-nos uma grande segurança para fazer a nossa elipse de aterragem, que é no mar, e ter a certeza que é feita de uma maneira segura e longe de áreas povoadas.
A segunda é a excelência operacional. É uma área que já tem muita experiência, pessoas como o Bruno [Carvalho] e o Atlantic Spaceport Consortium, que já conhecem os agentes locais, sabem fazer a interação com tudo o que é o tráfego aéreo, marítimo. Essa coordenação é uma parte importante do trabalho que já está facilitada nos Açores.
E terceiro, a autonomia europeia. É território europeu, sendo feito um retorno na Europa. Neste momento, a Europa está completamente dependente dos Estados Unidos para o retorno, por isso acho que é um passo importante para a empresa, claro, para Portugal, mas também para a Europa, que mostra que está mesmo a querer desenvolver esta capacidade de retorno de órbita.
Esta é a vossa primeira licença de reentrada em Portugal — e a primeira no país —, têm mais pedidos de reentrada ou outro tipo de licenciamento para outra atividade?
Marta Oliveira: Não queremos que seja só esta missão, a Phoenix 2.1. Queremos que o nosso retorno seja sempre nos Açores, em Santa Maria. Esta primeira licença é para a Phoenix 2.1, mas o nosso segundo passo, uma vez que o sucesso da missão esteja provado, é fazer uma licença envelope, para várias missões do tipo de cápsula Phoenix 2.
Para ser uma licença envelope, tem que ser um veículo parecido, se depois houver um nível de carga útil maior, terá que ter um novo tipo de licença. Mas para este tipo de cápsula, a Phoenix 2.1, o nosso objetivo é ter uma presença nos Açores e, por isso, um retorno regular e uma licença envelope para este tipo de cápsula.

á temos sete missões ‘vendidas’, por isso a cadência, este ano é mais uma missão, para o próximo serão duas cápsulas, no mínimo, e queremos vir a aumentar.
Bruno Carvalho: Só para complementar. A nossa legislação é bastante competitiva — acho que é uma das razões também pela qual a Atmos vem para Portugal — e prevê a figura da licença global, a tal licença envelope que a Marta refere, mas que tem o benefício — e nós estamos a fazer o mesmo com os lançadores [de foguetões] — de permitir ter veículos pré-licenciados que depois fazemos a operação da missão e há apenas aquele pequeno delta para requalificar.
É uma vantagem competitiva da legislação nacional, que acho que tem que ser realçada, porque é também um ponto importantíssimo naquilo que é a projeção de Portugal no ecossistema.
Essa licença envelope já está pedida ou vai depender do resultado desta missão?
Marta Oliveira: Primeiro queremos fazer esta missão e depois começaremos a preparar então a licença envelope. É preciso ver também como é que as coisas correm. Também, apesar da licença, vamos continuar a colaborar com as autoridades que fizeram parte do processo de licenciamento. É um processo muito longo, muito detalhado e vamos ser uma go-no-go checklist antes da reentrada.
Referiu há pouco a questão da soberania espacial europeia, desse ponto de vista os Açores e Portugal têm uma vantagem efetivamente competitiva ou há desafios e obstáculos que têm que ser resolvidos para não se perder essa oportunidade de crescimento?
Marta Oliveira: Acho que tem uma vantagem competitiva clara quando falamos de retorno. Claro que, acho que nessa pergunta está subentendido também o acesso ao espaço. Isso é outro tema e que o Bruno também estará em melhor situação para dar mais detalhes.
Bruno Carvalho: É um tema que tem que ser discutido separadamente e acho que o foco aqui é a missão da Atmos, que obviamente, tem o seu timeline e não vão ser lançados a partir dos Açores nesta missão. Eu gostava muito, e tem sido falado, que haja o acesso para cima e para baixo, a partir de Santa Maria. Devemos lá chegar, mas são assuntos que são necessariamente separados até do ponto de vista dos próprios processos de licenciamento.
Têm implicações diferentes, tanto na terra, do ponto de vista das operações, como naquilo que é no próprio espaço. Portanto, a operação da Atmos no espaço também tem alguns parâmetros interessantes, sobretudo nas últimas órbitas, quando fazem o cálculo para reentrar, a precisão de reentrada no qual os Açores também vão participar, pois tem infraestrutura para fazer o tracking, o ranging.
Marta Oliveira: Em relação ao retorno, só para adicionar quais são as vantagens dos Açores, já falámos da questão geográfica, porque nos permite fazer a reentrada em segurança, mas também há a questão de, apesar de estar no meio do oceano, estar próximo da Europa continental, o que é muito importante. Temos clientes que têm samples [amostras] biológicos e precisam de regressar à Europa continental rapidamente.
E essa infraestrutura também está nos Açores. É uma área em que tem essa experiência e isso facilita o nosso trabalho. Não é só a questão da reentrada e da recuperação por barco, é também quando é que podemos devolver as cargas úteis aos clientes na Europa continental. As outras opções que são muito conhecidas para reentrada, como a Austrália, o Brasil, os Estados Unidos, são bastante mais complicadas logisticamente para o retorno à Europa continental.

Neste momento, a Atmos está a lançar com quem?
Marta Oliveira: Lançámos a primeira cápsula com a SpaceX, na Bandwagon 3. A nossa primeira escolha era um lançador europeu, mas não tínhamos outra opção. Por isso lançámos com a SpaceX. A próxima cápsula também vamos lançar com a SpaceX, mas a nossa preferência continua a ser voar com um lançador europeu. Estamos à procura de opções.
O lançamento de foguetões é também uma área que faz sentido Portugal apostar? Que desafios têm de ser endereçados para o processo se desenvolva melhor? A legislação, parece não ser obstáculo.
Bruno Carvalho: Há dois vetores que são importantes de realçar. Um é a disponibilidade, como disse a Marta, dos veículos em si. Ou seja, neste momento não temos nenhum veículo na Europa pronto para chegar à órbita. Uma das razões por que nós acionamos com os coreanos da Innospace, é porque eles têm um veículo num estado de desenvolvimento mais adiantado do que os europeus.
E que espero que possa servir também o mercado europeu. Aliás, eles têm também uma presença em Paris e que poderá, eventualmente, ter um desenvolvimento até de fabrico na Europa, incluindo Portugal. Pode ser que a Atmos seja um dos clientes e parceiros desse veículo.
Agora, há aqui uma questão temporal. A Atmos não pode esperar para chegar à órbita, porque têm um modelo de negócios que exige que cheguem à órbita o mais depressa possível, têm os investidores por trás que vão pedir resultados. Nós temos a mesma situação do ponto de vista operacional do Spaceport.
Temos uma licença até 2030 — que eu espero que venha a ser renovada — mas até lá temos que rentabilizar essa licença, o que significa que nós, não tendo veículos prontos, temos que ir à procura desses veículos.
emos, obviamente, focado nos veículos suborbitais que são mais pequenos e também nos permitem testar a retestar e validar todos os protocolos de segurança e de gestão da própria operação na ilha. Vamos avançar para a parte mais permanente, do ponto de vista até de construção, a partir de 2027, espero que a tempo e horas dos primeiros veículos orbitais europeus em 2028, se correr bem.
Dependemos um pouco uns dos outros, portanto, se eles não estiverem prontos, nós teremos que estar prontos e estaremos, mas a cadeia de valor só é completada se as timelines forem cumpridas. Eu ouvi falar de Porto Espacial em Santa Maria em 2018, o lançamento era para 2021 ou 2022, estamos em 2026 e agora estou-lhe a dizer que o primeiro voo orbital se calhar só para 2028…
Com a InnoSpace estou em crer que vamos chegar à órbita em 2027, pelo menos duas vezes. Agora é um processo que também vai seguir os seus trâmites normais de licenciamento. O dossiê está a ser entregue às autoridades no final de abril, princípio de maio.