A Indústria de Defesa – Enquadramento Geral[1]

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Cabeça de Martelo

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A Indústria de Defesa – Enquadramento Geral[1]
« em: Outubro 03, 2007, 05:39:35 pm »
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A Indústria de Defesa – Enquadramento Geral[1]

José Silva Cordeiro[2]

1 - Introdução

Com a queda do Muro de Berlim em 1989 e o desmembramento do Pacto de Varsóvia, nos anos noventa surgiu um novo quadro estratégico caracterizado essencialmente pelo declínio da ameaça militar, cujas consequências nos estados-membros da União Europeia se reflectiram em:


· Redução de cerca de 40% nos orçamentos de defesa, (até 1987 o valor das despesas militares estimava-se aproximadamente em mil biliões de dólares), tendo-se mantido esta tendência até ao ano 2000, data a partir da qual e em consequência dos acontecimentos do 11 de Setembro nos EUA, se verifica um novo aumento das despesas mundiais com os orçamentos de defesa, tendo atingido a partir de 2003 um ritmo de crescimento de cerca de 6% ao ano;


· Redução drástica no volume de emprego nas indústrias de defesa, que caiu para metade. Este volume, que no período da guerra-fria chegou a atingir 17,8 milhões de trabalhadores em todo o mundo, sofreu no período que se seguiu cortes constantes, tendo atingido em 2001 cerca de 7,4 milhões de trabalhadores, sendo a União Europeia responsável por 720 mil, dos quais a França empregava 240 mil, a Inglaterra 230 mil e a Alemanha 90 mil.


Este contexto constituiu um sério desafio em termos económicos à sobrevivência das indústrias de defesa, uma vez que estas, para além de partilharem muitos aspectos comuns às outras indústrias, são também fortemente marcadas por ligações preferenciais aos governos de que dependem, na atribuição de orçamentos destinados à investigação e desenvolvimento (I&D) e obtenção de novos sistemas de armas.


Por sua vez, as Novas Missões que vêm sendo atribuídas às Forças Armadas e as operações de Manutenção de Paz, demonstraram a necessidade de forças móveis, flexíveis e dotadas de supremacia tecnológica. Nestas condições, a procura de equipamentos tecnologicamente evoluídos e empregando sofisticados sistemas de comando e controlo aumentou fortemente, o que representou para as Indústrias de Defesa um desafio em termos tecnológicos, favore­cendo a associação de empresas fornecedoras de equipamentos capazes de produzir complexos sistemas integrados.

2 – O Mercado de Defesa dos EUA e da UE

Analisando os mercados de defesa dos Estados Unidos da América e da Europa, verifica-se que, naquele, o governo encoraja com sucesso a concentração das indústrias ligadas à defesa, criando grandes corporações capazes de enfrentar os custos associados ao desenvolvimento, inovação, modernização da produção, e de tirar partido das economias de escala.

Por sua vez na União Europeia, a indústria apresenta-se fragmentada e caracteriza-se pela competição entre empresas, embora se reconheça que já foram feitos alguns progressos registados com as privatizações e fusões, tendo-se assistido nos últimos anos a alguma consolidação.


Acresce que existe um enorme fosso entre os orçamentos dos EUA (ano de 2005- 406 biliões de €) e da Europa (ano de 2005 -193 biliões de €), valores que em termos de PIB representam respectivamente 4,06 e 1,81%. Em termos de pessoal afecto às Forças Armadas, os EUA têm um efectivo de 1,4 milhões de militares e 740 mil civis, enquanto na Europa os números são respectivamente de 1,8 milhões de militares e 464 milhares de civis. Relativamente ao investimento em I&D, os Americanos investem 95 € por militar enquanto a Europa não passa dos 19 €.

3 - Tendências das Indústrias de Defesa

No período após a II GG, para além das profundas alterações geoestratégicas a que assistimos, de uma forma geral as Indústrias de Defesa constituíram um mercado institucionalmente protegido com vista a manter a competitividade do sector. O Estado constituiu-se, de uma forma geral, como o seu accionista maioritário, sendo estas indústrias por ele fortemente controladas, não se regendo pelas mesmas regras das empresas civis, antes aceitando-se que as regras do mercado eram secundárias face aos objectivos nacionais.


A partir dos anos noventa e em consequência das profundas alterações estratégicas que caracterizaram este período, o sector das Indústrias de Defesa deixou de ser considerado um sector de actividade com características específicas e progressivamente foi-se aproximando dos outros sectores industriais, embora mantendo algumas diferenças.


Neste novo contexto caracterizado por excesso de capacidade face às necessidades, redução drástica dos orçamentos de defesa nacionais e necessidade de investir em novos sistemas de armas com elevados custos de I&D, o sector viu-se na necessidade de se submeter a profundas reestruturações, tendo em vista o seu redimensionamento através do abandono das indústrias de reduzido interesse estratégico e sem viabilidade económica, pela venda das participações nas empresas sem interesse para a defesa, pela diversificação de actividades produzindo produtos de duplo uso, pela redefinição das parcerias estratégicas e pela consolidação através de fusões e aquisições.

Com vista a partilhar os riscos e ganhar massa crítica e assim garantir o acesso a mercados e tecnologias, as empresas envolveram-se em projectos cooperativos e “ joint-ventures”.


A tendência que se desenvolve no sentido da interoperabilidade dos equipamentos e sistemas, o que implicará uma harmonização dos requisitos operacionais, é um factor adicional a considerar no âmbito do sector da defesa, quer em termos institucionais quer industriais

4 – A Indústria da Defesa em Portugal

As primeiras referências que surgem em Portugal relativas ao fabrico de pólvora datam do século XIV. Nos tempos modernos, séculos XVI a XVIII, é o Estado, cuja influência é fundamental na criação de uma indústria militar, que está na origem de alguns dos estabelecimentos fabris militares e arsenais. Já no século XX as Indústrias de Defesa em Portugal, constituíram-se, de uma forma geral, na proximidade temporal dos grandes conflitos mundiais:


· Fabrica Militar de Braço de Prata-1902;

· Oficinas Gerais de Material Aeronáutico-1918;

· Sociedade Portuguesa de Explosivos-1937;

· Arsenal do Alfeite-1939;

· Fabrica Nacional de Munições de Armas Ligeiras-1947;

· Indústrias de Defesa (INDEP) -1981;

· EMPORDEF-1997;

· Estaleiros Navais de Viana do Castelo-2005.


Embora a indústria militar nacional, na primeira metade do século XX, tentasse acompanhar os progressos verificados nas indústrias congéneres dos outros países europeus, não só não conseguiu ultrapassar o atraso tecnológico como apenas dispôs de limitadas capacidades produtivas. Apenas na década de 50 se vieram a verificar transformações significativas, tendo-se criado, graças ao contexto nacional e internacional, condições para que esta desse um salto tecnológico. A adesão à NATO, associada ao ambiente de Guerra-fria, potenciaram o rearmamento e o fabrico de material de guerra torna-se economicamente atractivo.


O período da Guerra Colonial contrariamente às expectativas, não favoreceu as Indústrias de Defesa, devido a graves dificuldades de aprovisionamento de matérias-primas, perturbações financeiras e elevado número de especialistas nomeados para desempenhar comissões em África.

5 – A EMPORDEF

A holding EMPORDEF - Empresa Portuguesa de Defesa (SGPS), S. A., foi criada pelo Decreto-Lei n.º 235-B/96, de 12 de Dezembro, tendo iniciado a sua actividade em Março de 1997. Abrange as empresas participadas pelo Estado nas actividades ligadas à produção de equipamentos e serviços destinados à defesa nacional e a sua criação teve como finalidade centralizar, num único operador, a gestão das participações do Estado neste sector, possibilitar a acção coordenada dos Ministérios da Defesa e das Finanças e introduzir princípios de rigorosa gestão empresarial.


Missão


A missão da EMPORDEF é entendida como a gestão estratégica das participações empresariais do Estado na área das actividades de defesa, numa óptica empresarial, enquanto o seu conceito, como holding da Indústria de Defesa, tem como referência de longo prazo um modelo que assenta em linhas de actuação como a modernização industrial, a relação interactiva com as necessidades das Forças Armadas, a cooperação público/privado e a internacionalização.


No que diz respeito às participações privilegiam-se as parcerias ligadas a sectores modernos de actividade, envolvendo tecnologias de ponta e de elevado valor acrescentado (tecnologias multiusos) e participações significativas em empresas ligadas aos sectores tradicionais da Indústria de Defesa, ou em empresas com ligação importante à manutenção da capacidade operacional das Forças Armadas. Estas parcerias são constituídas com grupos empresariais portugueses e parceiros estratégicos estrangeiros, nas quais a EMPORDEF deve manter uma posição accionista significativa, embora não dominante. Já no que concerne às áreas de actividade são privilegiadas, a tecnologia da informação, as telecomunicações, a engenharia de sistemas e software, a construção aeronáutica, o aeroespacial, e a reparação e construção navais.


Plano Estratégico de Desenvolvimento


Como holding estratégica das Indústrias de Defesa, elaborou um Plano Estratégico de Desenvolvimento com os seguintes pressupostos:


· Devem ser privilegiadas empresas utilizando tecnologias de duplo uso, em gamas alargadas de produtos onde se incluirão os produtos destinados à defesa. Actividades que não gerem valor acrescentado, ou centradas exclusivamente nos mercados de defesa, não são de manter.;

· As empresas ligadas à defesa devem assentar numa estrutura accionista de parceria pública/privada, aplicando com selectividade os recursos financeiros públicos em conjunto com capitais privados, acentuando as preocupações de rendibilidade;

· Empresas isoladas e verticalizadas não são de considerar;

· Actividades cujo produto não tenha procura interna não devem ser consideradas estratégicas;

· A gestão das contrapartidas resultantes de aquisições militares no exterior, deve orientar-se numa perspectiva estratégica de desenvolvimento industrial do País, assumindo as implicações que tal perspectiva possa acarretar sobre as opções de aquisição dos equipamentos.


Objectivos Estratégicos


Partindo dos pressupostos indicados, a EMPORDEF definiu como objectivos estratégicos:


· A inserção das empresas em cadeias de valor acrescentado internacional, sempre que possível, ainda que não exclusivamente, em ligação com os programas da Lei da Programação Militar (LPM), de forma a aceder a novas tecnologias e mercados;

· A inserção das actividades de defesa nas áreas de interesse estratégico de grupos empresariais portugueses, através da entrada desses grupos no capital das sociedades já existentes ou a criar e, eventualmente, em parceria com grupos empresariais estrangeiros e a procura do equilíbrio económico e financeiro das empresas, através da sua reestruturação empresarial, redimensionamento e reorganização tecnológica, “spin off” de actividades e fusão de empresas ou de actividades já existentes.


Criada no final dos anos noventa (1996), não deixou contudo de seguir as tendências que se verificavam nas Indústrias de Defesa dos restantes países da Europa. Na sua evolução até aos dias de hoje, podemos considerar três períodos:


5.1 - Período -1997/2002-Reorganização


Este período caracteriza-se pela centralização da gestão e a procura da diversificação das actividades, a exemplo do que vinha acontecendo às suas congéneres Europeias. Como orientações estratégicas, foi definido o estabelecimento de um modelo que assentava nas seguintes linhas de actuação:


· Funcionar como centro de coordenação e decisão estratégica para o sector empresarial do Estado ligado às Indústrias de Defesa;

· Estabelecer as condições básicas para a modernização e desenvolvimento sustentado do sector;

· Adaptar a Indústria de Defesa à evolução das condições de mercado;

· Identificar e gerir as interdependências e as sinergias entre as empresas participadas.


Face aos objectivos estabelecidos para o período considerado, além das empresas do antecedente existentes: OGMA; SPEL; INDEP; EDISOFT; EID, são criadas novas empresas: IDD-1998; NAVAL ROCHA-1999; SUBLOC - 1999; PORTUGAL SPACE-2000; DEFLOC-2001; GEOGRAF-2002:


· A IDD teve como motivo para a sua criação o cumprimento dos acordos de OTAWA subscritos por Portugal com vista à destruição de todas as minas anti-pessoal existentes nos paióis das Forças Armadas. Para além desta actividade, que foi cumprida no prazo estabelecido, tem vindo a desmilitarizar de uma forma ambientalmente amigável as munições e explosivos obsoletos ou em fim de vida útil para as Forças Armadas;

· A Naval Rocha foi criada em 1999, com o objectivo de assegurar a manutenção de um estaleiro de reparação naval no estuário do Tejo, dado o término da concessão detida pela Lisnave e o encerramento do estaleiro da Margueira também explorado pela Lisnave;

· O projecto Portugal Space pretendeu instalar nos Açores uma estação terrestre de monitorização e acompanhamento de satélites e integrar esta localização nas redes internacionais. Com este projecto pretendia-se adquirir uma posição relevante no mercado de prestação de serviços ligados à informação via satélite;

· A GEOGRAF empresa que actuava no mercado da detecção remota, foi adquirida no decorrer de 2002, tendo em vista constituir uma extensão da actividade da Portugal Space;

· A DEFLOC e a SUBLOC foram criadas como sociedades de locação operacional para o financiamento da compra de helicópteros e submarinos.


5.2 - Período 2002/2004 – Reestruturação


Neste período, e a exemplo do que se verificou nas Indústrias de Defesa europeias, o Grupo EMPORDEF viu-se na necessidade de se submeter a uma reestruturação tendo em vista o seu redimensionamento, pelo que foi elaborado um Plano de Reestruturação. Tendo em consideração que as Indústrias de Defesa assumem um interesse estratégico, foram estabelecidos os seguintes pressupostos:


· Assegurar as funções de manutenção e reparação da capacidade militar instalada;

· Garantir o abastecimento das actividades que representam, salvaguardando a operacionalidade das Forças Armadas;

· Apoiar as Forças Armadas através do valor tecnológico associado aos seus produtos.


Com base neste plano foram definidos como objectivos:


· Liquidar as empresas de interesse estratégico reduzido e sem viabilidade económica;

· Alienar as participações financeiras em empresas sem interesse estratégico e após estabilização da respectiva situação económica –financeira;

· Redefinir o regime de parcerias estratégicas estabelecido.


Na sequência dos objectivos enunciados estabeleceu-se um quadro de evolução a prosseguir a médio prazo:


Manter as empresas com interesse estratégico:


·  Manutenção, reparação e modernização de aeronaves civis e militares (OGMA);

·  Sistemas profissionais de comunicações (EID);

· Software de alto nível, tecnologias de informação e integração de sistemas (EDISOFT);

·  Desmilitarização de munições e explosivos (IDD);

·  Construção e reparação navais (NAVAL ROCHA).


Criar com parcerias nacionais:


· Locação operacional de equipamentos militares.


Alienar:


· Fabrico de explosivos civis. Alienar as acções (SPEL);

· Fabrico de armamento e munições de armas ligeiras. Desactivar (INDEP);

· Produtos e serviços no domínio aeroespacial (GEOGRAF);

· Locação financeira (SUBLOC).


Integrar:


· Estaleiros Navais de Viana do Castelo. Em consequência do elevado investimento a ser feito na Armada Portuguesa no âmbito da LPM e da necessidade de reestruturação da indústria de construção e reparação naval.

· ETI- (Simulação, treino assistido por computador, software de teste) “Spin off” da OGMA.


5.3 – Período 2005/2007-Consolidação

Porque a sobrevivência do sector da Indústria de Defesa em termos financeiramente sustentáveis e a sua inserção internacional, com alguma expressão, terá de ser feita a partir de empresas com capacidades tecnológicas elevadas, entende-se que as Indústrias de Defesa são também:

· Um instrumento fundamental para o processo de aprovisionamento das Forças Armadas;

· O veículo de integração de tecnologia;

· O suporte da engenharia logística associada aos equipamentos das Forças Armadas.

· Um vector de racionalização económica e de gestão empresarial nas Forças Armadas


Neste contexto, e mantendo algumas das premissas que estiveram na origem da sua criação, os pressupostos definidos pela EMPORDEF, para este período, assentam no tríplice aspecto:


· Inserção das empresas em cadeias de valor acrescentado internacional em parceria com outras empresas do Grupo, participação em projectos internacionais e entrada de accionistas estrangeiros, detentores de “Know How” e/ou de mercados.

· Inserção das actividades em áreas de interesse estratégico, nomeadamente o espaço, a construção aeronáutica, a engenharia de projecto e a construção naval de navios militares, visando o desenvolvimento da área de actividades já existente, com ligação estreita às opções da LPM ou de equipamentos das Forças de Segurança, em cadeias de valor acrescentado, nacionais ou internacionais;

·  Fusão de empresas e actividades com redimensionamento e reorganização tecnológica das empresas existentes.


Com base nestes pressupostos foram definidos três objectivos, a saber: (i) a criação de um Pólo Tecnológico do Aeroespacial e da Defesa; (ii) um Cluster Aeronáutico; (iii) um Cluster Naval.


Criação de um Pólo Tecnológico do Aeroespacial e da Defesa


Com vista a atingir os objectivos estabelecidos pela EMPORDEF para este período, deve ser criada uma entidade única com dimensão sustentável nos mercados civis e militares, que abranja as empresas que actualmente constituem o núcleo tecnologico(EDISOFT, EID, ETI), tendo em consideração que:  


· A EDISOFT constitui o pólo moderno da Indústria de Defesa e é uma empresa reconhecida, mesmo a nível internacional, com uma interessante taxa de crescimento orgânico;

· A EID domina algumas core competencies em áreas-chave do desenvolvimento tecnológico e dispõe de uma interessante carteira de encomendas sobretudo do sector público;

· A ETI, com a experiência adquirida do antecedente na OGMA, detém capacidades interessantes no domínio da simulação;

· Embora o sector aeroespacial seja emergente em Portugal, a EDISOFT assumiu o projecto de instalação de uma estação de rastreio de satélites nos Açores. Este projecto constitui um importante pólo de desenvolvimento da indústria espacial nacional, com importantes aplicações a nível da defesa mas igualmente civis, nomeadamente em termos de sistemas estratégicos de segurança colectiva.



A concretização dos objectivos perseguidos para este Polo conduziram ao estabelecimento dos seguintes objectivos:


· Promoção da fusão das empresas deste núcleo com aproveitamento de sinergias e ganho de massa crítica;

·  Reforço da componente de I &D com ligação à Universidade e a projectos internacionais;

· Instalação pela EDISOFT de uma estação de rastreio de satélites nos Açores, assegurando a participação no consórcio Galileo;

· Deslocalização das empresas constituintes do Pólo Tecnológico para o Campus Madan Parque facilitando a captação de RH qualificados.


Criação de um Cluster Aeronáutico


 Acompanhando a tendência das Indústrias de Defesa europeias, verificada nos anos 90, a OGMA apostou na diversificação da sua actividade para a área civil, suportada pela utilização dual da tecnologia aeronáutica que era predominantemente utilizada na área militar. A OGMA continua igualmente a acompanhar e a participar na cooperação entre instituições de investigação e na implementação dos resultados alcançados, bem como nos processos de transferência de tecnologias entre PME e as grandes indústrias aeronáuticas (como utilizadores).


A dinamização de acções desenvolvidas neste sentido poderá contribuir para a mobilização do tecido empresarial português e para o desenvolvimento, a prazo, de um cluster aeronáutico nacional constituindo-se a OGMA como uma potencial empresa âncora deste cluster.


Com este objectivo, para além do aumento das capacidades da OGMA nas áreas da construção aeronáutica e da engenharia de projecto, haverá que fomentar a utilização por parte das OGMA das capacidades das restantes empresas do grupo, nomeadamente das tecnológicas.


Criação de um Cluster Naval


As empresas do grupo que se dedicam à indústria naval são os Estaleiros Navais de Viana do Castelo e a Naval Rocha, consagrados respectivamente à construção e à reparação navais. No que respeita aos Estaleiros Navais, torna-se necessário implementar os seguintes vectores estratégicos:


·  Especializar a empresa no novo mercado de navios militares não combatentes de pequena/média tonelagem;

·  Reestruturar do ponto de vista financeiro;

·  Racionalizar as áreas de projecto, produção e serviços de apoio;

·  Redefinir e dinamizar a actividade comercial;

·  Estabelecer parcerias.


Todos estes aspectos têm em vista a racionalização de métodos e do processo produtivo, tendo como finalidade dar uma melhor resposta ao mercado e obter o máximo de ganhos de eficiência. A estratégia terá de ser a subida na cadeia de valor, de forma a que os ENVC passem a actuar não apenas como construtores da plataforma, mas como integradores de sistemas. Neste domínio três empresas do grupo poderão contribuir decisivamente: a EID, no domínio dos sistemas integrados de comunicações; a EDISOFT, como integrador dos sistemas de informação a nível da plataforma e a ETI, como fornecedor de simuladores e de sistemas de treino. Outras empresas nacionais se poderão juntar a estas empresas do grupo constituindo um embrião de um cluster naval nacional.


Os objectivos estabelecidos para os ENVC são os seguintes:

· Aumento das competências de projecto e de construção de navios militares não combatentes (SAR e auxiliares);

· Subida na cadeia de valor em parceria com as empresas do núcleo tecnológico visando uma progressiva maior intervenção como integrador de sistemas;

· Modernização do “lay out” e das infra-estruturas produtivas.


Quanto à Naval Rocha terá de ser promovida, em estreita articulação com o Arsenal do Alfeite no contexto de um eventual novo estatuto deste Estabelecimento Militar, a reorganização da actividade de construção e reparação naval no estuário do Tejo, que permita articular as actividades dos estaleiros navais da Rocha do Conde de Óbidos e do Alfeite numa perspectiva de utilização nos mercados civil e militar, numa integração estratégica nacional mais alargada que deverá ter em consideração os Estaleiros Navais de Viana do Castelo.


Os objectivos estabelecidos para a NAVAL ROCHA são os seguintes:


· Reforço da componente comercial;

·  Reconsideração da articulação com o arsenal do Alfeite nos mercados de reparação naval civil e militar, desde que um futuro estatuto deste Estabelecimento Fabril o permita.

6 - Síntese Conclusiva

Passados 10 anos após a sua criação, a situação actual da EMPORDEF é caracterizada de forma sintética, pelos seguintes indicadores (dados de 2006):


Volume de Negócios: (MEuros): 9.8 EID; 6.5 EDISOFT; 1.5 ETI; 133 OGMA; 1.3 IDD; 85 ENVC; 5.4 NRocha (242 milhões no total)


Forças Armadas Portuguesas: 46% EID; 42% EDISOFT; 87% ETI; 15% OGMA; 100% IDD; 15% ENVC; 5% NRocha


Mercado Internacional: 47% EID; 39% EDISOFT; 13% ETI; 80% OGMA; 75% ENVC; 38 NRocha


Outros: 7% EID; 19% EDISOFT; 5% OGMA; 10% ENVC; 57 NRocha


Colaboradores: 124; 116; 20; 1601; 18; 944; 28, respectivamente.


Colaboradores licenciados: 48%; 90%; 80%; 15%; 21%; 21%; 15%; 15% respectivamente.


Relativamente a 2006, o Grupo apresenta um volume de negócios consolidado de 242 milhões de euros, dos quais 75% destinados ao mercado internacional, e um efectivo de 2.850 colaboradores. Tendo em conta a realidade envolvente, a situação das empresas participadas, os meios disponibilizáveis e o propósito empresarialmente desejável do equilíbrio económico e financeiro do Grupo, verifica-se que, mantendo-se actuais as tendências que determinaram os pressupostos para a criação da holding, pressupostos que transformou e assumiu como seus objectivos estratégicos, pode afirmar-se no presente que a EMPORDEF satisfez plenamente esses objectivos, constituindo-se como:


· Centro de coordenação e decisão estratégica para o sector empresarial do Estado, ligado às Indústrias de Defesa;

· Gestora das participações do Estado, estabelecendo as condições básicas para a modernização do sector, adaptando as Indústrias de Defesa à evolução das condições do mercado interno;

· Dinamizadora das actividades em áreas de interesse estratégico como seja, o espaço, a construção aeronáutica e a construção naval.



Portugal tem-se caracterizado por ter conseguido manter, ao longo dos últimos anos e apesar dos constrangimentos económicos, a disponibilização para assumir compromissos internacionais, com o envolvimento crescente de estruturas militares, tudo apontando para que esta se mantenha apesar das profundas alterações do quadro evolutivo internacional, o que tem vindo a exigir uma maior disponibilidade e prontidão das Forças Armadas, pressupondo a existência de uma capacidade militar efectiva.


Nestas condições, o reequipamento e a modernização dos meios implicam a aplicação das Leis de Programação Militar, mas também o estabelecimento de uma ligação sistemática e racional entre as Indústrias de Defesa, a Comunidade Científica e as Forças Armadas no desenvolvimento de projectos relacionados com os equipamentos militares.


Consolidada a configuração empresarial atrás caracterizada, importa encontrar o equilíbrio estratégico entre a sua vocação e o património consolidado (activos tangíveis, cultura empresarial, experiência, etc.) e os novos desafios decorrentes, em primeiro lugar, da concretização do previsto na Lei de Programação Militar, e, em segundo lugar das mutações dos mercados internacionais que se possam traduzir em novas oportunidades de valorizar activos e criar novo valor acrescentado.


Fontes

Relatório de Gestão e Contas da EMPORDEF de 2006


Bibliografia

O Regresso às Armas – José Manuel Rolo – Edições Cosmos

Indústria Militar Portuguesa – João Moreira Tavares – Edições Caleidoscópio

[1] Artigo originalmente publicado no nº 4 da Revista Segurança e Defesa.

[2] Major-General (R)


http://www.jornaldefesa.com.pt/opiniao_v.asp?id=516
7. Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais que os outros.