CM: A história do avião desviado - Os segredos da Op. Vagô

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PereiraMarques

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CM: A história do avião desviado - Os segredos da Op. Vagô
« em: Novembro 09, 2006, 09:55:11 pm »
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2006-11-09 - 00:00:00

A história do avião desviado
Os segredos da Operação Vagô
 
João Miguel Rodrigues

Ninguém provocou tantos sobressaltos a Salazar como Hermínio da Palma Inácio – o lendário guerrilheiro dos mais ousados golpes contra a ditadura, o herói romântico que despedaçou corações no Brasil, em França, nos Estados Unidos. Hoje, pesam-lhe os 84 anos, a doença e as sequelas dos maus tratos nas prisões políticas do Estado Novo. Mas ainda sorri – e os olhos brilham quando recorda as aventuras que o tornaram numa verdadeira lenda.

Dia 10 de Novembro de 1961, sexta-feira. O Super-constellation da TAP Mouzinho de Albuquerque descola à tabela do Aeroporto de Casablanca, em Marrocos. Eram 09h15. O comandante José Marcelino e o co-piloto Raul Teles Grilo ganham altitude, alinham o avião na rota para Lisboa e permitem aos passageiros desapertar os cintos e acender os cigarros. Estava bom tempo. A viagem, de cerca de hora e meia, prometia ser calma. Mal sabia a tripulação que entre os 18 passageiros seguiam seis guerrilheiros, inimigos jurados do regime, chefiados por Palma Inácio.

A calma a bordo foi interrompida mal à meia hora de voo. Hermínio da Palma Inácio entra de surpresa pela cabina de pilotagem – e aponta o revólver à cabeça do comandante: “Isto é uma acção revolucionária. Não quero fazer mal a ninguém” – diz.

Nunca, na história da aviação comercial, um avião fora tomado no ar. O plano dos revolucionários é arriscado: pretendem seguir na rota para Lisboa, simular a aterragem na Portela e voltar para trás, em voo rasante sobre a capital, Barreiro, Setúbal, Beja e Faro, para lançarem 100 mil panfletos com apelos à revolta popular contra a ditadura. Aterravam sãos e salvos em Tânger – onde Palma Inácio e companheiros esperavam asilo político.

O co-piloto Teles Grilo, o mecânico-chefe António Coragem, o mecânico de voo Alberto Coelho não disseram palavra. Apenas o comandante Marcelino, ameaçado pelo revólver, tentou com serenidade demover o guerrilheiro. Disse que o avião não tinha combustível para regressar a Tânger. Mas Palma Inácio, que era mecânico de aviões e tirara nos Estados Unidos a licença de piloto de linha aérea, estava seguro do que fazia. Exigiu os registos de voo do Super-constellation – e verificou que os tanques tinham sido atestados em Casablanca. Havia gasolina à farta. O comandante tentou outro truque: “Como é que vai lançar os papéis? Eu não posso abrir as janelas do avião” – disse José Marcelino. A resposta de Palma calou-o: “Pode, pode. Voa o mais baixo possível, despressuriza as cabinas e abrimos as janelas de emergência.”

Palma Inácio tinha a situação dominada. Lá atrás, a aventura também não podia correr melhor. Os outros cinco revolucionários nem sequer foram obrigados a levantar a voz e a mostrar as armas. O comissário de bordo Orloff Esteves e as duas assistentes, Maria del Pilar e Luísa Infante, aceitaram participar naquele momento histórico – e até ajudaram a lançar os panfletos. Nem todos os 13 pasageiros (americanos, espanhóis, belgas e dois portugueses) compreenderam que o avião fora tomado de assalto: só ficaram a saber depois da aterragem em Tânger.

A cerca de meia hora de Lisboa, momentos antes de iniciar os procedimentos de descida, o comandante Marcelino contacta a torre de controlo – e recebe autorização para aterrar na pista 05. Faz a aproximação – mas, no último momento, acelera os quatro motores a hélice: o avião ‘borrega’ sobre a pista, ganha altura e afasta-se do aeroporto.

José Marcelino volta a comunicar com a torre – e tenta explicar ao controlador, por meias palavras, que a bordo o obrigam a fazer um voo rasante sobre Lisboa e outras cidades a sul. “Repita lá?” – dizem-lhe da torre. A comunicação é interrompida pela voz de um general da Força Aérea, Costa Macedo – que pilotava um monomotor, percebeu tudo e deu o alerta. Minutos depois, dois caças F-84 levantam voo da Base de Monte Real: descolam com ordens para abaterem o avião da TAP caso não conseguissem obrigá-lo a aterrar em solo português.

O Super-constellation iniciou então um perigoso jogo do gato e do rato. O avião teria de voar baixo, a escassos 100 metros de altura, para fugir aos radares e iludir os caças. A manobra era perigosa, só ao alcance de pilotos de elite.

Os seis revolucionários tinham levado 100 mil panfletos, impressos em fino papel de seda, na bagagem de mão. O avião passou a rasar a estátua do Marquês de Pombal, sobrevoa a Baixa, guina sob Alcântara. Uma chuva de papéis cai sobre Lisboa – o mesmo no Barreiro, Setúbal, Beja, Faro. Cem mil panfletos voaram das janelas do avião. A missão estava cumprida.

O Super-constellation, como estava previsto, aterrou no Aeroporto de Tânger, em Marrocos, às 12h50 de 10 de Novembro, sexta-feira. A operação mereceu honras da Imprensa internacional – era o que os revolucionários pretendiam. Salazar espumou de raiva.

OS 'SEIS' MAGNÍFICOS

O ‘comando’ revolucionário que executou o desvio do avião era constituído por seis portugueses asilados políticos no Brasil. Foram eles: Hermínio da Palma Inácio, Amândio Silva (hoje, director da organização privada Mares Navegados, que trabalha na promoção da cultura portuguesa no Brasil), Camilo Mortágua (agora estabelecido no Alvito, Alentejo, como empresário), João Martins (proprietário de um restaurante em Bruxelas), Fernando Vasconcelos (residente em Brasília) e Helena Vidal (já falecida). Helena, que era casada com Fernando Vasconcelos, estava grávida na altura da operação revolucinária. Ela entrou a bordo com as cinco pistolas presas à barriga por uma cinta. Palma Inácio subiu a bordo com o seu inseparável revólver escondido na meia.

SUSTO NO MAR DO ALGARVE

Após ter sobrevoado Faro, onde largou a última carga de panfletos, o comandante Marcelino continuou a voar a baixa altitude sobre o mar para não ser apanhado pelos radares. Estava uma bela manhã de Outono. Os pilotos avistaram dois navios de guerra. Só havia uma maneira de fugir à artilharia: mergulhar até meia dúzia de metros da linha água e passar entre os dois – e foi isso mesmo que fez José Marcelino. Já em Tânger, quando o avião aterrou, todos brindaram ao êxito da operação com o champanhe que havia a bordo. “Eu tratei-os bem”, recorda o comandante. Apanhou um mês de suspensão. A PIDE desconfiou que ele estava ‘feito’ com os ‘subversivos’. Marcelino não devia ter feito este voo: trocou de avião porque andava caído pela assistente de bordo Luísa Infante e queria ir com ela para Marrocos. O romance deu em casamento – e dura ainda hoje.

GALVÃO E DELGADO, OS REVOLUCIONÁRIOS DESAVINDOS

Quando foi lançado o assalto ao avião da TAP, o capitão Henrique Galvão e o general Humberto Delgado, os líderes da oposição não comunista, estavam irremediavelmente zangados. Ambos no exílio em São Paulo, no Brasil, tinham planos distintos, mas partilhavam os mesmos objectivos: derrubar o Estado Novo. Em finais de Setembro de 1961, empurrados por apoiantes comuns desesperados por acção, aceitam unir esforços e partem para Tânger. Enquanto Henrique Galvão congemina a ‘Operação Vagô’, Humberto Delgado conspira para um pronunciamento militar contra o regime em Portugal. Além do ódio a Salazar, os dois oposicionistas tinham uma outra coisa em comum: contavam, fosse para o que fosse, com um grupo de generosos revolucionários no exílio – como Palma Inácio, Camilo Mortágua, Amândio Silva, José Paulo Silva Graça, João Martins, Fernando Vasconcelos, Manuel Serra, Raul Marques. De acordo com os planos da ‘Operação Vagô’, Palma Inácio ficava em Tânger a fim de preparar o assalto ao avião a partir de Casablanca – enquanto o general Humberto Delgado partia sob disfarce para a Europa com o objectivo de preparar o pronunciamento militar.

O general seria ajudado por um grupo constituído por Manuel Serra, Silva Graça e Raul Marques – que entrou clandestinamente em Portugal com a missão de encontrar militares e civis dispostos a participarem no golpe. O desvio do avião teria como objectivo o lançamento de panfletos de apoio à intentona. O grupo de Manuel Serra encontra dificuldades em organizar a insurreição e, ao contrárido do que esperava Delgado, o Partido Comunista recusa o apoio. Serra ainda pede aos companheiros de Tânger para adiarem o desvio do avião. Mas Henrique Galvão não lhe dá ouvidos. Tânger estava enxameada de agentes da PIDE, a Polícia política portuguesa, que vigiava os revolucionários. A ‘Operação Vagô’ não podia ser adiada. Foi desencadeada em 10 de Novembro. Os panfletos foram substituídos: em vez de instruções como fabricar bombas, denunciavam as eleições fraudulentas para a Assembleia Nacional, marcadas para daí a dois dias, e apelavam à revolta popular. Manuel Serra só no final do ano conseguiu accionar a intentona, levada a cabo na madrugada de 1 de Janeiro de 1962, com o assalto ao quartel de Beja. O golpe, comandado pelo capitão Varela Gomes, foi um fracasso.

A ROTA DO VOO

1 - 9h15 - O avião da TAP descola de Casablanca rumo a Lisboa. Entre os 19 passageiros, um comando de seis revolucionários chefiado por Palma Inácio

2 - 10h15 - Palma Inácio entra na cabina de pilotagem e aponta o revólver de cano longo à cabeça do comandante José Marcelino

3 - A torre de controlo autoriza o avião a aterrar na pista 05 do Aeroporto de Lisboa. O comandante inicia a aproximação, mas no último momento afasta-se da pista e vira para Sul

4 - O avião voa perigosamente baixo. Larga, através de uma janela de emergência, milhares de panfletos sobre Lisboa, Barreiro, Setúbal, Beja e Faro

5 - Dois caças F-84 Sabre da Força Aérea descolam da Base de Montreal: têm ordens para abater o avião da TAP – mas não o encontram

6 - O comandante José Marcelino, um ás da aviação, escapa ás peças de artilharia de dois navios de guerra ao largo do Algarve

7 -12h45 – Aterra em segurança no Aeroporto de Tânger, três horas e meia depois de ter descolado de Casablanca
Manuel Catarino

Fonte: http://www.correiomanha.pt/noticia.asp? ... al=9&p=200
 

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Maginot

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    • http://www.emfa.pt/
(sem assunto)
« Responder #1 em: Novembro 12, 2006, 10:13:12 pm »
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5 - Dois caças F-84 Sabre da Força Aérea descolam da Base de Montreal: têm ordens para abater o avião da TAP – mas não o encontram


Eram F-86 e não F-84.
EX MERO MOTU
 

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Yosy

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Re: CM: A história do avião desviado - Os segredos da Op. Va
« Responder #2 em: Novembro 13, 2006, 08:44:43 pm »
Citação de: "PereiraMarques"
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2006-11-09 - 00:00:00

Nunca, na história da aviação comercial, um avião fora tomado no ar



Erro: http://en.wikipedia.org/wiki/Aircraft_h ... Background
 

 

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