https://cnnportugal.iol.pt/zhang-youxia/china/ninguem-se-pode-sentir-seguro-na-china-nem-os-mais-proximos-de-xi-como-a-queda-de-um-general-esta-a-abalar-as-elites-em-pequim/20260126/69776083d34e0ec52ec2b4d0Queda do general Zhang Youxia abalou as elites em Pequim que juram lealdade ao regime de Xi Jinping. O presidente chinês virou-se contra o homem que, até agora, atuava como os "olhos e ouvidos" de Xi nas Forças Armadas
Confiante, seguro e sem “medo de falar com estrangeiros”. É assim que o general Zhang Youxia é descrito por quem privou com ele, inclusive Jake Sullivan, conselheiro de segurança nacional dos EUA, que se reuniu recentemente com aquele que era, até há pouco tempo, um dos aliados mais próximos do presidente Xi Jinping.
Hoje, porém, Zhang Youxia é o rosto de um dos maiores escândalos de corrupção das últimas décadas do exército chinês, sendo acusado de “desrespeitar” a autoridade do chefe militar, Xi Jinping, e de “minar gravemente a liderança absoluta do partido sobre as Forças Armadas” - acusações feitas num editorial sobre o general Zhang no Diário do Exército de Libertação, publicado no domingo.
A notícia surpreendeu tudo e todos, inclusive aqueles que pensavam compreender o pensamento de Xi Jinping. Shanshan Mei, politólogo da RAND, uma organização que estuda as Forças Armadas chinesas, afirmou ao New York Times que, apesar da menção à corrupção, “a essência da acusação é muito política: trair Xi”.
Além do editorial, surgiram, entretanto, outras acusações contra Zhang. De acordo com o Wall Street Journal, Zhang também é acusado de vender segredos nucleares aos Estados Unidos.
Jack Sullivan, que se reuniu em Pequim com o general Zhang, em 2024, na presença de mais 20 outros oficiais militares chineses, para discutir questões nucleares, adiantou que, durante a reunião, que durou cerca de uma hora, o general mencionou as armas nucleares no contexto do fortalecimento militar geral da China, mas não disse nada de sensível ou sequer substancial sobre o assunto. “Esse não foi um dos principais tópicos da discussão”, sublinhou Sullivan, citado pelo New York Times.
Segundo Deng Yumen, antigo editor de um jornal do Partido Comunista Chinês, que vive agora nos EUA, a queda do general Zhang vai ter “um grande impacto na elite do poder em Pequim, uma vez que elimina uma das suas barreiras de segurança”. “Nem mesmo a relação pessoal de Zhang Youxia com Xi Jinping garantia a sua segurança, pelo que ninguém se pode sentir seguro."
Jack Sullivan descreve a queda de Zhang como “um evento sísmico”, sobretudo tendo em conta que o presidente chinês está “a eliminar alguém com quem tinha uma longa história”
A relação entre Xi Jinping e o general Zhang remonta a vários anos. Ambos são príncipes herdeiros, filhos de revolucionários que serviram sob o comando de Mao Tsé-Tung. O pai de Zhang serviu ao lado do pai de Xi, Xi Zhongxun, na China. Não se sabe se Zhang e Xi eram próximos na infância, mas, segundo Joseph Torigian, autor de uma biografia de Xi Jinping, este ponto em comum pode ter ajudado a fortalecer o vínculo entre ambos.
De acordo com o New York Times, o general Zhang entrou no exército chinês no final de 1968, tendo-se destacado posteriormente como oficial da linha da frente durante a guerra da China com o Vietname, a partir de 1979.
Quando Xi chegou ao poder, em 2012, decidiu promover uma reestruturação das Forças Armadas, que estavam “mergulhadas na corrupção e presas ao passado”, descreve o New York Times. O general Zhang foi precisamente um dos comandantes escolhidos por Xi Jinping para liderar essa reforma do Exército de Libertação Popular.
Em 2012, o general Zhang, então chefe de uma região militar na China, integrou uma delegação de altos oficiais militares chineses numa visita aos EUA. Drew Thompson, que trabalhava na altura no Pentágono e ajudou a organizar a visita, recorda como Zhang se apresentou surpreendentemente confiante e seguro.
“Ele não tinha medo de falar com estrangeiros, ao contrário de alguns oficiais superiores que muitas vezes tinham medo ou eram incapazes de interagir”, escreveu Thompson, num artigo em que se diz “genuinamente surpreendido” com o anúncio da detenção do general Zhang.
Ainda em 2012, Zhang foi promovido a chefe do departamento de armamento das Forças Armadas da China, organismo responsável pela compra de armas - cargo que ocupou até 2017. Daniel Mattingly, professor da Universidade de Yale que estuda a política militar chinesa, explica ao New York Times que aquele departamento tinha tudo para ser “um verdadeiro foco de corrupção”, “perfeito para receber subornos”.
Tanto assim é que, de acordo com o jornal norte-americano, outros oficiais superiores que trabalhavam naquele departamento acabaram por ser afastados na sequência de investigações de combate à corrupção. O general Zhang, por sua vez, parece ter passado pelos pingos da chuva.
Aos 75 anos, Zhang, em teoria, já estaria reformado. Xi Jinping decidiu mantê-lo no cargo mesmo após a sua reforma e nomeou-o o seu principal vice-presidente da Comissão Militar Central. Na prática, explica o New York Times, Zhang atuava como “os olhos e os ouvidos de Xi na gestão diárias das forças do Exército de Libertação Popular”.
As teorias e o impacto da queda do general Zhang para os EUA e Taiwan
Sabendo de tudo isto, muitos procuram agora perceber os motivos que levaram à queda do general Zhang - alguns analistas acreditam que Xi o começou a achar demasiado poderoso; outros admitem que o presidente chinês quer acabar com a corrupção sistémica nas Forças Armadas e promover uma reestruturação com uma nova geração de comandantes.
A queda do general Zhang pode ter impactos a nível geopolítico, adverte Drew Thompson, que esperava, “pelo bem das relações militares estáveis entre os EUA e a China e da estabilidade entre os dois lados do Estreito”, que Zhang Youxia continuasse a ser o conselheiro militar mais próximo de Xi
“Acredito que ele era o único oficial do Exército de Libertação Popular no ativo capaz de dar a Xi os melhores e mais objetivos conselhos sobre as capacidades militares do Exército de Libertação Popular, incluindo as suas deficiências e, fundamentalmente, o custo humano de um conflito militar”, notou o antigo funcionário do Pentágono.
Além disso, acrescentou Drew Thompson, Zhang era capaz de “avaliar objetivamente as capacidades militares dos EUA e de Taiwan e explicar a Xi Jinping quais seriam os riscos e custos militares de uma operação para tomar Taiwan”. “Preocupo-me com as consequências de alguém que não seja Zhang Youxia fornecer conselhos militares a Xi Jinping”, admite Thompson.