Os EUA vão cortar o comércio com a Espanha?
A ameaça é real, mas mais retórica do que realidade, Um corte total no comércio com os EUA é extremamente improvável em termos práticos, jurídicos e geopolíticos. Trump afirmou publicamente que "cortaria todo o comércio com Espanha" depois de Madrid se ter recusado a permitir que os EUA usassem as suas bases para ataques ao Irão, e declarou ter ordenado ao Departamento do Tesouro que "cortasse todas as relações" com Espanha. A recusa de Espanha em permitir a utilização das bases foi confirmada por vários órgãos de imprensa, e Trump intensificou a situação ao ligá-la aos gastos com a defesa e às queixas relacionadas com a NATO. O jornal "The Economic Times" chegou mesmo a descrevê-la como um potencial "embargo comercial total dos EUA".
Mas as realidades estruturais tornam tal embargo praticamente impossível de implementar.
Porque é que um corte real no comércio é quase impossível?
A Espanha faz parte da união aduaneira da UE, o que significa que os EUA não podem visar apenas a Espanha sem, na prática, iniciar uma guerra comercial com toda a UE. O Politico observa explicitamente que o isolamento de Espanha "criaria atritos com outros Estados-membros, como a Alemanha, a França e a Itália".
A UE retaliaria colectivamente, como fez durante as disputas tarifárias de 2018-2019. Um embargo unilateral dos EUA contra um membro da UE desencadearia contramedidas automáticas em todo o bloco.
Os interesses comerciais dos EUA opor-se-iam fortemente a isto, especialmente os sectores agrícola, aeroespacial e tecnológico, que dependem dos mercados da UE.
Barreiras legislativas e legais: Um embargo total exige autorização legal e enfrentaria contestações judiciais imediatas, a menos que estivesse ligado à segurança nacional ao abrigo da Lei dos Poderes Económicos de Emergência Internacional (IEEPA). Ainda assim, visar um aliado da NATO seria inédito.
A própria resposta de Espanha mostra que o país não acredita que isso vá acontecer. O primeiro-ministro Pedro Sánchez desvalorizou publicamente a ameaça e criticou os ataques ao Irão, sinalizando que Madrid a vê como uma pressão política, e não como uma mudança política credível.