Então só em caso de guerra é que as FA iam a correr aprender a usar esses meios?
Entretanto não podem usar os meios e manter niveis de treino e operacionalidade enquanto os usam?
Porque não podemos ter especialistas nas FA especializados nesses meios acumulando conhecimento util em tempo de guerra?
As FA têm de treinar e operar com os meios que vão usar em guerra, porque só assim mantêm a competência técnica acumulada,
rotinas operacionais, cadeias de comando funcionais e a capacidade de mobilização real.
Há casos em que há mesmo duplo uso: os helis que fazem SAR também fazem transporte tático. Mas é ideal? Não sei, mas parece ter
funcionado bem durante umas décadas.
E em caso de guerra… sim, teriam mesmo de aprender tudo à pressa, porque temos esquadras dedicadas apenas a missões civis, luta
contra incêndios é o maior exemplo.
Há casos úteis de duplo uso: esquadra de transporte VIP também faz transporte de orgãos, e esquadras de transporte que fazem transporte de doentes
e evacuação médica de emergência, etc como missões
secundárias.
O problema do “duplo uso” é que, na prática portuguesa, significa quase sempre uso singular para proteção civil, com as FA a servirem de
bombeiros, nadadores‑salvadores, polícia costeira, e tudo menos forças armadas.
E depois admiram‑se que a Marinha não tenha navios de combate, o Exército não tenha brigadas completas, a FAP tenha esquadras inteiras
dedicadas a missões que não são militares.
Se queremos FA capazes, então sim, precisamos de especialistas militares a operar meios militares todos os dias, mesmo em paz, para que em guerra não haja improvisos.
Isto é o que Portugal faz e que nenhum país com FA funcionais faz. Criar unidades militares dedicadas a missões civis permanentes
Exemplos:
Esquadras da FAP dedicadas a incêndios ou evacuação médica
RAME do Exército a fazer proteção civil.
Marinha a operar embarcações que são, na prática, de Polícia Marítima / Guarda Costeira
Isto não é duplo uso. É uso singular civil com farda militar.
É usar os parcos meios militares para tapar buracos de ministérios civis. Quando o MAI ou o Ambiente não têm meios, o MDN “empresta”.
O resultado é que as FA deixam de treinar. Os meios desgastam‑se em missões que não são militares. A prontidão militar cai. Estamos a criar
dependências permanentes.
Se a proteção civil depende estruturalmente das FA, então as FA deixam de ser FA e passam a ser uma reserva operacional do MAI.
Há pouquíssimos casos em que o “duplo uso” faz sentido estruturalmente para forças armadas. E quando faz, é porque não destrói a função
militar, não consome recursos, e não cria dependências permanentes.
Uma análise que normalmente ninguém faz: onde o duplo uso funciona, porque funciona, e porque em Portugal quase nunca é isso que acontece.
1. Quando o duplo uso é um subproduto, e não a missão principal
Exemplos internacionais:
Navios logísticos que em paz transportam carga civil ocasional (Noruega, Canadá).
Helicópteros SAR militares que também fazem evacuações médicas civis (Reino Unido, França).
Engenharia militar que apoia obras civis em catástrofes (EUA, Itália).
Porque funciona:
O meio é militar por natureza.
A missão civil é ocasional, não permanente.
O treino militar não é sacrificado.
2. Quando o duplo uso reforça a prontidão militar
Exemplos:
Unidades NBQ militares que respondem a acidentes industriais.
Equipas de mergulhadores militares que fazem buscas civis.
Meios de transporte militar que evacuam populações em catástrofes.
Porque funciona:
A missão civil é idêntica à militar, apenas muda o contexto, não a competência. O treino militar é diretamente útil.
3. Quando o meio é demasiado caro para existir só para uso civil
Exemplo clássico:
Aeronaves SAR de longo alcance (C‑295, P‑3, A400M).
Navios polares usados para ciência e presença militar (Austrália, Chile).
Satélites militares que também fornecem dados civis.
Porque funciona: o estado evita duplicação de meios, a missão militar continua a ser a primária. A missão civil é complementar e
não consome a capacidade.
Voltando ao tópico, a classe Tejo, desarmada como está (para não falar dos problemas "técnicos") é um caso de duplo uso "gone wrong".
Adeus e bons ventos.

Esperemos que sejam substituídos por navios com alguma capacidade de combate e sejam verdadeiros navios "duplo uso", ou então
passem para a GNR/Guarda Costeira.