Focke-Wulf Fw 190 “Dora” – Opiniões dos pilotos (Episódio 3)
Em Setembro de 1944 a
Jagdwaffe atravessava um ponto crucial da sua existência, sob pressão de uma enorme lista de prioridades e enfraquecida por deficiências fora do seu controlo. Sem alternativas, os pilotos de caça alemães continuaram a batalhar com determinação, geralmente de aeródromos rudimentares com escasso apoio de manutenção, contra um inimigo significativamente mais poderoso e com reservas e recursos que a
Luftwaffe apenas podia sonhar. O Major Hans-Ekkehard Bob, que comandava na altura o segundo
gruppe da JG 3 em Evreux, equipada com o venerável Messerschmitt Bf 109G, relembra a constante presença de caças inimigos;
“Por vezes éramos atacados logo na descolagem, o que acabava por bloquear completamente a pista. A nossa situação era péssima. Calculávamos que o adversário gozava de uma vantagem de 10-para-1 em caças. As nossas operações eram, sem exagero, um mero exercício de auto-preservação.”Outro experiente piloto de Bf 109G, o Sargento Herbert Kaiser, que serviu na JG 1, recorda;
“Éramos obrigados a descolar em pequenas formações, geralmente dois ou quatro aviões, para fugir aos caças Aliados que patrulhavam directamente sobre os nossos aeródromos. Para atingirmos o alvo tínhamos de voar por entre montes e vales aproveitando qualquer cobertura disponível. Ao voar a apenas uns metros do chão evitávamos o radar inimigo mas também aumentavam as hipóteses de nos espetarmos contra uma montanha. Só ganhávamos alguma altitude ao atingir o ponto de ataque. As probabilidades de sobrevivência eram fracas, podíamos contar pelos dedos de uma mão quantos dias poderíamos durar.” Extraordinária foto de um Focke-Wulf Fw 190D-9 em pleno mergulho a alta velocidade após um ataque a um bombardeiro médio Martin B-26 Marauder da Nona Força Aérea, poucos instantes após a largada de bombas, durante uma intercepção em 1944.
O quarto
gruppe da JG 3 começou a receber os “
Dora” em Fevereiro de 1945, pouco depois do Tenente Oscar Romm ser promovido a comandante;
“A primeira vez que vi o “Dora-9” foi em Dezembro de 1944 em Stargard, perto de Stettin, tinha acabado de ser entregue da fábrica da Focke-Wulf em Marienburg. Eu estava ansioso de receber estes aviões porque era óbvio que muito brevemente estaríamos a lutar em duas frentes; por um lado contra os Russos e, no outro, os Ingleses e Americanos. E o “Dora” seria o avião ideal para os enfrentar. Consegui equipar um staffel completo (cerca de 12 caças) e uns poucos mais de reserva. Salvamos alguns aviões de bases prestes a ser conquistadas pelo inimigo, apesar dos riscos envolvidos. Todos os nossos “Dora” estavam equipados com o motor Jumo 213A e injecção de água-metanol MW 50, capaz de atingir 2240cv. Como caça de superioridade aérea manobrava melhor que o Fw 190A e era mais rápido em todos os regimes. Durante combates entre os 3000-7300 metros, usual contra os Russos, o “Dora” conseguia manter curvas apertadas em potência sem perder velocidade. No anterior Fw 190A era necessário reduzir a velocidade para “puxar” melhor em curva. No mergulho, a aceleração do motor Jumo do “Dora” era muito superior á do “190A”; podia deixar os Yakovlev Yak-3 e Yak-9 Russos literalmente “pendurados”.”Outro piloto com vasta experiência, o Tenente Hans Hartings, descreveu assim as dificuldades em combater o P-51
Mustang:
“Atacar um P-47 era uma coisa, mas o P-51 era um problema muito diferente. Mesmo um piloto fenomenal não conseguia fugir de um Mustang em curva com o ‘190’. Está fora de questão. Eu tentei. Fora de questão.”O piloto Heinz Gehrke da JG 26 elogia a velocidade e o avançado sistema eléctrico do Fw 190 embora continuasse a preferir o Messerschmitt Bf 109;
“O “Dora” era um pássaro selvagem. Tudo era eléctrico. Trem de aterragem, flaps, compensadores, tudo accionado por simples interruptores ou botões. Ah, e o pássaro era veloz! No Bf 109, totalmente armado e equipado, conseguia atingir 500-520km/h a baixa altitude – o D-9 era uns bons 50-60km/h mais rápido. Mesmo assim, em termos de prazer de pilotagem preferia o Messerschmitt, apesar de todos os problemas na descolagem e aterrarem.” Durante Agosto o Terceiro Exército do General Patton irrompeu pela França e perseguiu os sobreviventes da Werhmacht até às fronteiras do Reich enquanto o Sexto Exército se aproximava pelo Sul, seguindo a fronteira da Suíça. E com o enorme sucesso da ofensiva Soviética em Julho-Agosto na Operação Bagration, os Alemães viam-se completamente cercados e com poucas opções.
Terminamos com o relato do Tenente Karl-Heinz Ossenkop, um jovem piloto destacado para a elite JG 26 em Agosto de 1944, “fresco” da unidade de treino operacional JG 103. Ossenkop representava o típico jovem piloto da
Jagdwaffe, obrigado a aprender rapidamente, e em condições desfavoráveis, a melhor forma de defender os céus da Alemanha – e sobreviver. Em inferioridade numérica e com constantes mudanças de base, era um período desmoralizante, com poucas razões para celebrar ou manter o optimismo. Assim que chegou á JG 26, Ossenkop foi destacado como “asa” de um piloto veterano que o aconselhou a manter-se sempre bem colado a ele, olhar constantemente para trás e nem sequer pensar em atacar o inimigo durante as primeiras seis semanas. Ganhar experiência era a chave da sobrevivência, não a busca de glória. Sensatamente, Ossenkop prestou atenção. Em Dezembro a JG 26 recebeu os primeiros “
Dora-9”, conforme o próprio relembra;
“Fiquei impressionado com a qualidade de construção dos novos aviões. As junções dos painéis de alumínio eram muito lisas, o que ajudava a reduzir o arrasto aerodinâmico. Os aviões construídos na fábrica em Sorau eram, na minha opinião, os melhores. O meu “Preto 8” (Schwarz-8), com o sistema MW 50 e sem nenhuma carga externa, atingia 600km/h a 20-30 metros do altitude. Comparado com o Fw 190A-8, o “Dora”; 1) era mais rápido e atingia maior altitude; 2) usufruía de melhor visibilidade, devido á canópia em “bolha”; 3) era mais silencioso – o motor Jumo vibrava muito menos do que o radial BMW 801; 4) manobrava melhor no plano horizontal e em ângulos de ataque elevados; 5) sofria menor efeito de “torque”; e 6) a autonomia era superior.
“Sim, inicialmente tínhamos as nossas dúvidas mas assim que ganhamos confiança no Fw 190D sentimos que podíamos lutar de igual-para-igual contra os Aliados e até, em certas situações, superiorizarmo-nos em combate. Por exemplo, frente ao Hawker Tempest, o “Dora” subia e acelerava melhor, era praticamente igual em manobras a baixa altitude mas no mergulho o Tempest era superior. Acontecia o mesmo contra o enorme P-47 Thunderbolt; o nosso “Dora” era superior em curva, subida e velocidade em voo nivelado mas totalmente batido em voo de mergulho. Nunca tentem fugir de um P-47 em mergulho. Nunca.”
O Tenente Karl-Heinz Ossenkop da JG 26 voou com o Fw 190 “Dora” durante os últimos meses da guerra, incluindo na malfadada Operação Bodenplatte, a última cartada ofensiva da Luftwaffe. Nessa missão o leme e estabilizador horizontal do “Dora” de Ossenkop ficou em farrapos após um “encontro imediato” com a hélice…. de outro “Dora”! Conseguiu regressar, a muito custo, á base em Twenthe onde fez uma aterragem de emergência.
Com a produção a bom ritmo e a recepção entusiástica dos pilotos garantida, restava agora ao Fw 190D demonstrar real capacidade em acção. Mas como seria o dia-a-dia operacional de uma unidade de caça da
Luftwaffe em finais de 1944?