Superioridade em Zona Urbana: desafio às F.A. ocidentais

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JoseMFernandes

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Superioridade em Zona Urbana: desafio às F.A. ocidentais
« em: Março 01, 2007, 03:09:49 pm »
"Em todos os tempos os militares recearam ver-se envolvidos em operações nas zonas urbanas.Seja por necessitarem a instalação/dispersão de forças numerosas(o que reduz boa parte das vantagens tecnológicas do mais forte) como por existir um forte risco de perdas elevadas, tanto nas forças amigas como nas populações civis, sem  apesar disso  assegurar um eficaz resultado final.
No entanto a verdade é que nos dias de hoje as Forças Armadas ocidentais, devido ao aumento exponencial da urbanização no mundo actual, vêem crescer consideravelmente esse tipo de operações.

Quando em acção nas zonas urbanas, os combatentes de base sentem muito mais graves dificuldades que em terreno aberto, para terem uma ideia precisa da topografia dos locais e elaborar uma representação fiel e quase em tempo real da situação táctica.Com efeito trata-se de combates de alta intensidade, as destruições de edificios alteram permanentemente o campo de batalha, tendo como consequência modificar os eixos de progressão e criar ruínas propícias a realização de emboscadas pelo adversário.
Além disso, a paisagem urbana, com os encaminhamentos possiveis por caves e redes de Metro ou esgotos, obriga a pre-disposição de uma cartografia subterrânea exacta.No que se refere ao conhecimento do dispositivo inimigo, em combates de alta ou baixa intensidade, ele torna-se muito mais dificil de obter  - seja pela sua fluidez, pela compartimentação restrita da zona, ou interligação extrema dos dispositivos combatentes dos dois lados - que em terreno aberto.
Aqui o combate desenvolve-se normalmente na escala de secção, cujo chefe deve saber o que vai encontrar no edificio em frente ou no canto da rua, devendo evitar a emboscada ou uma explosão de bomba artesanal. E tem de o saber em prazos muito curtos, a fim que a manobra não seja atrasada pela espera de informação.
Dizendo de outra forma...os meios de reconhecimento/vigilancia sofisticados (satélites, aviões, drones...)mesmo se chegam a detectar sinais de presença IN num emaranhado de ruinas acabam por revelar-se quase inúteis graças ao atraso da exploração e transmissão de dados ao nivel dos combatentes.
O chefe de secção apenas podera contar, para ter uma ideia da posição tactica local,com os meios colocados a sua disposição imediata...como o classico envio de patrulhas com vista a detectar presença adversa, localizar e avaliar o seu distintivo, mas indubitavelmente expondo os seus homens a inegaveis riscos.
Mas nos nossos dias, a opinião ocidental ja não aceita mais a perda em numero dos seus soldados.Como consequencia varios esforços foram consentidos, nos ultimos anos pelos ocidentais, para fornecer ao chefe de secção os meios que lhe permitem  obter um resultado similar mas reduzindo sensivelmente os riscos de baixas.
É o caso, evidentemente, do aparecimento de sistemas de infantaria futuristas, como o FELIN francês ou o americano LandWarrior que integram os homens numa rede numérica, permitindo-lhes partilhar dados e imagens.E também da empresa de Singapura STK que oferece hoje com o seu recente SPARCS um utensilio particularmente interessante.Trata-se de uma granada de 40mm que transporta uma câmara e transmissão de dados.Quando o soldado de infantaria, em zona urbana, quer saber o que se esconde atrás de um muro ou as ruinas de um edificio a 100-150mts de distancia, basta com a ajuda de um vulgar lança-granadas, atirar a granada(220g de massa) por cima da zona em causa (altitude maxima de 150mts) e esperar a recepção, num pequeno écran da vista aérea obtida pela câmara vídeo que está descendo tranquilamente por um pequeno pára-quedas.
A MBDA em França, está igualmente a trabalhar num obus de morteiro de fibra óptica(Alfo).
O uso de mini-drones de observação com sensores TV/IR explorados por uma secção de combate constitui também uma resposta adaptada e aliás já utilizada pelas forças americanas no Iraque.
E brevemente também com o DRAC das Forças Armadas francesas.
Os veiculos terrestres dotados de mastros telescópicos de 5 a 10mts também podem ser uma outra forma de  ajudar os chefes de secção.
No lado francês esta-se a trabalhar no Egacod projecto de blindado de rodas da Engenharia, que ira integrar as secções de combate interarmas e que devem precisamente ser postos em serviço nas zonas urbanas.O Egacod dispõe com efeito, também além dos meios de 'desobstrução' de ruas(braço hidráulico e 'lâmina' frontal para abrir caminho aos combatentes em barricadas ou ruinas)  de cargas explosivas em 'rockets' para desencadeamento a distância ( face a minas ou outras cargas improvisadas), de um mastro telescópico de observação TV/IR.Todos estes meios permitem fornecer ao chefe de secção uma visão aérea, ou seja tridimensional, da sua zona de operações.Portanto, e efectivamente, cartografar os arredores, ver o que se esconde atras de uma parede e detectar a progressão de elementos adversos ao longo das ruas...tudo isto em tempo real.Não se pode dizer que seja pouco...!

VER ATRAS DOS MUROS

Mas só por si não chega, porque o adversário pode progredir igualmente por caminhos subterrâneos(caves ligadas entre elas, esgotos, metropolitano etc...) enquanto os equipamentos em altura não permitem detectar a presença inimiga no interior dos edificios.Daí a necessidade de 'ver' o interior dos edificios e condutas subterrâneas.E aí também já começam a aparecer novos produtos para reduzir os riscos dos combatentes, ... por exemplo o Egacod já evocado antes pode beneficiar de uma 'barquinha' blindada montada num(outro) braço extensivel, que poderia pôr dois ou três combatentes directamente numa janela de um 3° andar de um prédio.Isto permite indiscutivelmente um efeito-surpresa e evitaria a passagem pelas aberturas de R/chão, eventualmente minadas ou mantidas sobre a ameaça de atiradores hostis.
Outros tipos de sensores, por exemplo radares, suficientemente miniaturizados para poderem ser transportados nas costas, permitem detectar movimentos humanos através de paredes de 90cm de espessura ou debaixo do chão(túneis de Metro, caves, esgotos, abrigos subterrâneos).
A indústria ocidental trabalha igualmente na realização de 'granadas de observação'...pesam algumas centenas de gramas e tem sensores diversos(TV/IR e acústicos), podendo ser lançadas a mão de um lugar a outro, através de uma abertura.O combatente abrigado fica assim em condições de proceder, via uma 'interface' homem/máquina particularmente simples a uma sumária inspecção do sitio e detectar uma presença humana ou mesmo  armadilhas.
A firma francesa  ECA trabalha agora na realização de um MRS, mini-robot de 2,1 kgs, auto-consumivel dotado de mini-lagartas e que responde bem a este conceito.
A mesma sociedade viabilizou igualmente outros robots mais pesados e  ambiciosos.

A USArmy espalhou já por Bagdade desde  ha ano e meio,um pequeno grupo de robots Swords cuja particularidade é  estarem armados com uma metralhadora e atirarem com extrema precisão.
Mas o uso destes 'robots' também levanta alguns problemas, entre eles o abrandamento de ritmo da acção(o 'robot' é menos ágil que o combatente humano) e os limites ligados a importante transferencia de dados(imagens em especial) para o operador.A solução passaria por uma maior autonomia de acção do 'robot', e por um recurso acrescido a inteligência artificial a bordo.Mas, no entanto, mesmo aí, com receios fortes da parte dos operacionais de poderem ver escapar-lhes o controle dos 'robots'(sobre que critérios autorizar o 'robot' a abrir fogo por 'sua' decisão) tanto mais que este uso autónomo de armas se assimila segundo alguns juristas ao deuma mina anti-pessoal cujo emprego estaria interdito...para já não falar da possibilidade de o inimigo  poder vir  a aproveitar-se ( por captura, desvio...)

NEUTRALIZAR OS SNIPERS

O chefe de secção encontra-se confrontado igualmente, no meio urbano mais que noutro sítio, com  a ameaça de snipers .E na verdade este meio compartimentado ao extremo, oferece inúmeras plataformas de tiro e esconderijos potenciais a estes atiradores de élite.
As perdas ligadas aos tiros de snipers constituem hoje, com as de morteiros, as principais em número aquando de operações em zonas urbanas.Reduzir esta ameaça parece pois ser uma prioridade.Ora, operando sozinho ou com apenas um parceiro, os snipers são particularmente discretos e dificeis de 'apanhar'.No entanto nem todos beneficiaram de um forte treino especifico e o simples sobrevoo de uma zona por helicóptero ou drone pode permitir detectar alguns que não se souberam camuflar devidamente.
Os snipers profissionais consagraram porém imenso tempo a preparação das suas posições de tiro e possibilidades de recuo.Eles evitam os 'terraços' e varandas, preferindo janelas ou até mesmo simples cavidades nas paredes, cuidadosamente camufladas.E especialmente, mudam de posiçao de tiro depois de cada intervenção.
Neutralizá-los com a intervenção de equipas de atiradores de élite - opção pertinente face a 'snipers' pouco treinados -  revela-se pois bem delicada e de todo modo insuficiente para assegurar a 'limpeza' de uma zona.
E aí recorre-se ainda a novas tecnologias, por exemplo detectores de infra-vermelhos, laser, acústicos, radar e outros.A USArmy testou o sistema Stingray de detecção por 'varrimento' laser das ópticas de mira (efeito 'olho de gato').O sistema da alerta  pode mesmo, em modo automático, neutralizar a óptica detectada.
O interesse destes equipamentos, passivos e discretos por natureza, consiste na detecção potencial do sistema de mira do sniper antes mesmo que este possa atirar.
A industria francesa propõe hoje o SLD500(Cilas) sistema similar de detecção laser dispondo também de um  detector acústico(Pilar).Este equipamento é completado com com camaras CCD a cores e térmicas, ligadas ao sistema, permitindo filmá-lo, e eventualmente capturá-lo em posteriores operações de controle.Estes sistemas, leves e fácilmente transportaveis podem ser montados sobre carros ou em tectos.
(...)

Se o combate em zona urbana pode parecer, numa primeira vista, neutralizar uma boa parte das vantagens tácticas que beneficiam as forças ocidentais em terreno aberto, o desenvolvimento de certas tecnologias deveria poder rapidamente restabelecer essa vantagem.
Considerando, no entanto que as melhores tecnologias nunca substituirão, e especialmente neste caso, a competência e a inciativa do chefe de secção."
m/adapt. e trad. de um texto de Jean-Louis Promé