O Boicote a Portugal

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dremanu

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O Boicote a Portugal
« em: Março 04, 2004, 11:01:59 pm »
É um fenómeno curioso que não se admitia como possível na Europa da livre circulação de bens e serviços o sistemático boicote a Portugal por parte das grandes empresas multinacionais com especial relevo aquelas que usufruem de posições monopolistas. Trata-se aqui do boicote à venda directa dos seus produtos a partir dos respectivos países de origem para Portugal.

Os tradicionais importadores portugueses são obrigados a comprarem a um qualquer representante espanhol, pagando por isso uma espécie de «direito de importação» sob a forma da margem de lucro usufruída pelo espanhol que se apresenta com o título de representante para a Península Ibérica. O facto encareceu muito os produtos importados e prejudicou os termos de troca da economia de Portugal que passou a pagar mais caro e a vender sem alterações. Julgavam os importadores portugueses que tinham entrado num regime de livre circulação de mercadorias quando sucedeu o contrário por imposição dos monopólios multinacionais, e a Espanha tornou-se na Alfândega secreta de Portugal que cobra verbas altíssimas sem nada produzir de válido para Portugal.

No campo dos "inputs" para a agricultura, o fenómeno é notório; são os produtos químicos alemães que têm de ser adquiridos em Barcelona, ou sementes israelitas que só podem vir de El Egido no Sul de Espanha, ou sementes francesas que só podem vir de Valença e agora sementes e outros produtos holandeses a vir obrigatoriamente de Espanha. Algumas multinacionais vão ao ponto de organizarem as suas rendes de venda, ligando Portugal à sua delegação na Estremadura. Para essas multinacionais, Portugal não só não é um dos mais antigos países independentes do Mundo como passou à categoria de província da Região espanhola da Estremadura.

Um empresa israelita que passou a boicotar Portugal percebeu o fenómeno e resolveu editar uma espécie de cartão de visita com a bandeira portuguesa, mas o produto continua a vir de El Egido a preços astronómicos. As impressoras e computadores HP vêm de Espanha, tal como milhentos outros artigos, incluindo automóveis, matérias-primas, etc., etc. O custo para a economia portuguesa cifra-se em cerca de 20% do valor CIF das mercadorias importadas, valor muito superior às antigas taxas aduaneiras, cobrando o Estado espanhol uma boa fatia por esses vultuosos lucros sem contrapartida de trabalho. E isto porque, fundamentalmente, as multinacionais vendem a partir de Espanha ao preço de revenda normal e não ao de importação e entre um e outro há margens de 20% ou mais ainda.

O fenómeno foi muito facilitado por uma certa mentalidade portuguesa que aceita tudo o que vem de fora e quase se consola em autoflagelar-se quando a realidade portuguesa é bem diferente. Os portugueses deixam-se enganar por muitas estatísticas superficiais que colocam Portugal na cauda da Europa, esquecendo que atrás dessas estatísticas se escondem realidades bem diferentes.

Veja-se só a Irlanda com apenas 1,2 km de auto-estradas por mil km2 de superfície quando Portugal tem quase 20, mais que a Espanha e que a maior parte dos países europeus e três vezes mais que os EUA. Veja-se o número de casas, uma para cada 1,9 portugueses, muito mais que qualquer país da Europa e os 21% da população na escola e os 40 mil estudantes universitários por milhão de habitantes quando a Alemanha e a Europa dita «desenvolvida» tem metade.

Os portugueses têm razões para se orgulharem de si mesmos e para não se deixarem enganar por um espanhol que apareça a vender uma «banha da cobra» qualquer, ou por outro qualquer representante de uma pseudo grande empresa. Vivemos todos numa Europa unida, mas ninguém pode esquecer a sua Pátria. O exemplo mais edificante é o do povo alemão que desdenha muito os produtos importados e nunca um supermercado alemão evidencia produtos concorrentes como os de fabrico nacional. E este exemplo é seguido por outros povos, os franceses por exemplo.

Basta circular nas estradas da Alemanha ou da França para verificar que os franceses adquirem quase só carros franceses e os alemães preferem o seu próprio produto. Todos sabem que a livre circulação é indispensável para evitar fenómenos de especulação e manter níveis adequados de qualidade, mas o interesse de cada um está em comprar nacional, sempre que o produto nacional exista e tenha um nível suficiente de qualidade e preço. Na Holanda ou na Bélgica, por exemplo, ninguém imagina comprar na Alemanha um produto francês ou espanhol só porque a Alemanha tem 80 milhões habitantes.

Os países pequenos da Europa também têm o seu amor-próprio e devem, como tal, ser respeitados por todos os que actuam nos mercados mundiais. Portugal está a ser muito afectado pelas multinacionais, mas terá de reagir com um espírito construtivamente nacional.
"Esta é a ditosa pátria minha amada."
 

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komet

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« Responder #1 em: Março 05, 2004, 12:53:30 am »
É de facto interessante porque se formos a ver, estamos separados da Europa por espanha, e eles não perdem tempo para tirar proveito disso...
é caso para dizer, são bem espanhóis.
"History is always written by who wins the war..."
 

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Spectral

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« Responder #2 em: Março 05, 2004, 06:32:36 pm »
Eu não diria boicote.

Muitas vezes essas empresas estrangeiras tomam decisões puramente económicas, que acabam por benefeciá-las, mas que nos prejudicam.

Não se esqueçam que somos um mercado de apenas 10 milhões de pessoas, no meio de uma Europa com 300-400 milhões ( agora não sei os números).

E o nosso poder de compra também não é por aí além...


cumptos
I hope that you accept Nature as It is - absurd.

R.P. Feynman
 

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Ricardo Nunes

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« Responder #3 em: Março 05, 2004, 06:39:59 pm »
Exactamente Spectral,

E a própria localização de Portugal influncia hoje em dia, e muito, o desenvolvimento da nossa indústria.
Já não faz sentido falarmos em mercado português e mercado espanhol - hoje em dia falamos em mercado ibérico. E, qualquer empresa não-ibérica que se queira assumir neste mercado vai obviamente tentar implantar-se na melhor zona estratégica possível de distribuição para a península - essa zona, como qualquer um pode ver, é o centro da mesma, logo Espanha. A implementação de grandes indústrias na península ibérica ( pelo menos os seus principais pólos ) dão-se em Espanha devido a esse factor. É muito mais fácil enviar um lote de 6000 carros de Madrid para qualquer lado da península do que de Lisboa. Esta é uma das razões pela quais devemos dar tanto valor à Auto-Europa, por exemplo.
Ricardo Nunes
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emarques

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« Responder #4 em: Março 06, 2004, 03:05:48 am »
Ou seja, o que o tal boicote descreve é a existência de um nível adicional de intermediários na economia portuguesa. O importador ibérico recebe os produtos, e as redes de distribuição na Espanha dirigem-se ao importador. Em Portugal há mais uma empresa que vai buscar os produtos ao importador ibérico e depois se arvora em distribuidor para Portugal. Quanto ao importador ibérico, a não ser que os preços a que vende os produtos para Portugal sejam mais altos do que os preços para a Galiza, ou para a Andaluzia, a verdade é que não está a boicotar coisa nenhuma, está a conduzir o seu negócio normalmente. Se existe um acréscimo de preços, será mais pela falta de uma mudança de mentalidade em Portugal que ainda não se adaptou à existência do tal mercado ibérico. Claro, resta saber se o importador espanhol já se adaptou a essa nova realidade e está disposto a tratar igualmente com clientes portugueses e espanhóis.

Provavelmente o mercado do Benelux funciona mais ou menos da mesma forma, mas eles estão habituados a um funcionamento integrado das economias, e provavelmente os luxemburgueses não clamam contra o bloqueio que maliciosamente coloca os centros de distribuição em Roterdão, ou onde quer que seja.
Ai que eco que há aqui!
Que eco é?
É o eco que há cá.
Há cá eco, é?!
Há cá eco, há.
 

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dremanu

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« Responder #5 em: Março 16, 2004, 12:42:12 am »
O mercado Ibérico funciona a favor de Espanha, não de Portugal. Portugal têm 300 empresas em Espanha, os espanhoís têm 3,000 em Portugal.

Se as importações que vêm de fora da Europa e que serão consumidas em Portugal, e que têm o seu ponto de entrada em Espanha, onde é que os Portuguêses ficam a ganhar nessa transação. Os impostos de importação que são pagos, são pagos ao governo Espanhol, não ao governo Português, sendo assim a receita portuguêsa baixa.

Os países do Benelux estam no coração da Europa rodeados de vizinhos por todos os lados, as trocas comerciaís entres eles equilibram-se mais facilmente porque a oportunidade de um país facilmente se impor em relação ao outro é reduzida, a competição é muito maior. Portugal só tem um vizinho, e esse é 4 vezes maior, logo aí é muito mais fácil para o maior ganhar ao mais pequeno, aumentando o seu controle estratégico sobre o menor.

Não se pode esperar que sejam os agentes económicos, nacionais, ou internacionais, a tomar decisões que favoreçam o país. Todos eles fazem as suas decisões na base do lucro, o governo é que tem que interceder para balançar o impacto dessas decisões na população em geral, e nas suas finanças internas. Se o governo Portuguêse não tem onde ir buscar dinheiro para gastar nos serviços que presta ao povo Português, o que acham que vai aconteçer a longo-prazo? Aliás já está a aconteçer porque o ministro das finanças anda a dizer que a situação nacional é mais grave do que se esperava. E o desemprego aumenta cada vez mais.
"Esta é a ditosa pátria minha amada."