Expansão portuguesa

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Re: Expansão portuguesa
« Responder #15 em: Agosto 21, 2015, 01:03:19 pm »
O que terá levado o rei a arriscar tanto numa aventura africana?


O espírito de Cruzada; a procura do ouro e dos cereais; a vontade de um país maduro mostrar poder aos castelhanos e à Europa; a necessidade de combater o corso marroquino. Há várias explicações antigas para as causas da conquista. E uma leitura recente: Ceuta foi um risco que poderia ter afundado o país.

O único ponto de consenso neste debate é que não houve certamente uma única causa, mas muitas causas. O que esteve seguramente longe de acontecer foi uma acção impulsiva, voluntarista ou irreflectida. Raras vezes na história de Portugal uma acção desta envergadura foi objecto de tanta meditação, de tanto planeamento e de tanto zelo na guarda dos segredos do Estado. Ceuta é por isso um atestado de maioridade política do país, interpretada por uma geração que chegou e se firmou no poder após uma revolução de cariz popular, em 1383, e uma longa guerra com um vizinho mais poderoso que atingiu o seu zénite na vitória de Aljubarrota, a 14 de Agosto de 1385.

No início do século XV, a guerra com a Espanha ficou suspensa e Portugal estava condenado a viver o que o historiador Bernardo Vasconcelos e Sousa designou na História de Portugal dirigida por Rui Ramos como o “impasse ibérico do reino”. “D. João I conseguiu estabilizar o país depois de vencer a ameaça castelhana e percebeu que tinha de projectar a capacidade de intervenção militar do reino até às suas fronteiras estratégicas”, nota o historiador João Paulo Oliveira e Costa. “Exibindo os músculos”, Portugal impunha respeito a qualquer veleidade de conquista vinda de Castela, escreve Luís Miguel Duarte, historiador da Universidade do Porto. Como sublinha João Paulo Oliveira e Costa, os portugueses “ganhavam um novo protagonismo nas relações entre o Mediterrâneo e o Atlântico norte por criarem uma nova escala para a navegação cristã num ponto crítico das rotas navais”. No mesmo contexto, Jorge Borges de Macedo sublinhava a conquista como uma forma de garantir o equilíbrio com Castela e Aragão no contexto peninsular.

Depois de atravessar as interrogações de várias gerações de historiadores, a tese de que a dinastia de Avis se procurava consolidar no quadro peninsular e europeu através de uma acção militar capaz de amainar as ambições da nobreza parece assim ter ganho avanço sobre todas as outras causas esboçadas em quase cem anos de debate historiográfico. Mas neste debate nenhuma dos argumentos anteriores foi liminarmente rejeitado. Investigadores como Oliveira Marques, João Paulo Oliveira e Costa ou Luis Filipe Reis Thomaz reconhecem que, de alguma forma, Ceuta é um capítulo tardio da Reconquista Cristã, embora com matizes que os separam dos argumentos espirituais de Joaquim Bensaúde e, numa outra dimensão, Jaime Cortesão. “A conquista de Ceuta é um segundo episódio da “Reconquista” – com aspas, como diz o José Mattoso – cristã da Península Ibérica”, sublinha o historiador Amândio Barros.  

Se há teses que, sem se extinguirem, perderam fôlego foram as que apontam Ceuta como uma Cruzada destinada a impor o império da fé ou como uma operação destinada a obter proveitos económicos. Já no século XIX Oliveira Martins indicava que Ceuta abria a Portugal “as portas douradas do Oriente vago e misterioso”, onde havia cristãos perdidos mas também ouro, tecidos preciosos e especiarias. António Sérgio mencionava a necessidade de controlar os cereais de Ceuta, como se Ceuta fosse uma zona produtora e não apenas um mercado de destino que podia ser facilmente substituído. Da mesma forma, as rotas do ouro ou das sedas estariam condenadas a extinguir-se quando os portugueses dominassem a praça. As causas económicas, que também atraíram Jaime Cortesão ou Vitorino Magalhães Godinho, deixaram de ter o ascendente no debate que tiveram na segunda metade do século XX.  

Certo é que Ceuta nasce de um impulso interno, de uma necessidade de encontrar “uma saída” para um impasse, na reflexão de Bernardo Vasconcelos e Sousa. Não é ainda um impulso movido pela necessidade de abertura ao mundo, de conhecimento ou de qualquer instinto progressista que determinaram o espírito do Renascimento. “A expansão portuguesa em Marrocos antes de D. João II é muito mais um derradeiro episódio da história medieval do que o primeiro episódio da moderna”, nota Luis Filipe Reis Thomaz nessa obra extraordinária da História portuguesa contemporânea que é o livro “De Ceuta a Timor”. Até porque, como escreveu em 1985 Alexandre Lobato (citado no livro de Paulo Drumond Braga), o móbil principal da aventura foi o espírito de cavalaria na sua vertente de honra e proveito. “Não há razão imperativa alguma, nacional, peninsular ou internacional para se conquistar Ceuta. Trata-se de uma inutilidade grandiosa, qualquer coisa como o feito da construção de Mafra no século XVIII”, escreveu este autor.

À margem das motivações, consolida-se também a ideia de que o risco da conquista de Ceuta raiou os limiares da insensatez. António José Saraiva, no seu essencial estudo “O Crepúsculo da Idade Média em Portugal” explicou porquê: “Tudo poderia ter acabado num desastre total, como, vinte anos depois, o mostraria a derrota de Tânger, que é um aviso de Alcácer-Quibir. O rei arriscou nela a vida, o exército e a independência do Reino. Os que vêem nesta aventura o plano sensato de um mercador ‘de claro entendimento’, como seria o vedor da fazenda João Afonso, mostram como são escravos de esquemas pré-concebidos”. Para Saraiva, “a verdade é que Ceuta foi uma das mais perigosas e bem-sucedidas aventuras da história portuguesa, própria de cavaleiros temerários que punham as suas vidas na balança do ‘juízo de Deus’. Este episódio de maneira nenhuma abona o famoso despertar do espírito científico e mercantil que alguns historiadores e ensaístas viram na origem da expansão portuguesa. Parece mais um feito de vikings”. O historiador Luís Miguel Duarte, um dos investigadores que mais estudou esta fase da história nacional, subscreve “totalmente” esta opinião.

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Re: Expansão portuguesa
« Responder #16 em: Agosto 22, 2015, 01:57:32 am »
Boas pessoal, aqui fica o essencial do que aconteceu à 600 anos atrás durante a conquista da praça marroquina de Ceuta, espero que seja do vosso agrado ou se quiserem saber mais, podem comprar ou consultar os livros sobre este acontecimento que eu mais atrás referi



A primeira etapa de uma longa Epopeia


Fig 1 - Painel de azulejos de Jorge Colaço na Estação de São Bento, Porto, em grande plano o Infante D.Henrique



Este importante acontecimento deve-se ao querer dos jovens infantes, a saber: D. Duarte, D. Henrique e D. Pedro por serem armados cavaleiros depois de um acto guerreiro. O Pai D.João I tinha a ideia de fazer uma grande festa com convidados de todas as casas reais europeias, e onde não faltariam os habituais torneios e justas. Mas essa ideia não era do agrado dos filhos, que preferiam ganhar honra com um feito militar.

Então surgiu a ideia de conquistar uma cidade ou território, a ideia mais aceite era de efetuar alguma conquista no Reino de Granada, o último reino mouro na Península Ibérica, mas tal ia contra as intenções dos castelhanos que achavam aquele território seu por natureza. Foi o vedor da fazenda João Afonso de Alenquer, segundo o cronista Gomes Eanes de Zurara, que propôs Ceuta como uma boa hipótese para uma investida militar, ideia que agradou aos infantes e ao Rei, já que era uma cidade rica e um ponto estratégico muito importante. Através deste feito a jovem dinastia de Avis queria também ganhar prestigio aos olhos da Cristandade e principalmente do Papado, entidade bastante poderosa na altura, além disso pensava-se que seria o prolongamento natural da Reconquista Cristã.

Iniciaram-se então os preparativos com o maior dos secretismos, importante foi a ida do capitão Afonso Furtado e do Prior do Hospital em missão de espionagem a Ceuta, com o disfarce de fazerem uma escala para a Sicília onde se ia propor à Rainha D.Branca um casamento com o infante D. Pedro. Dessa diligência obteve-se a informação necessária sobre as defesas daquela cidade que foi dada aos infantes, ao Rei e restantes conselheiros através de uma maquete, feita com duas cargas de areia, um novelo de fita, meio alqueire de favas e uma escudela, serviram de réplica da cidade, representando as torres, a muralha, o terreno e os seus declives. A maquete foi destruída depois de ter sido estudada pelos infantes, pelo rei e demais conselheiros.

Os preparativos começaram pouco depois da decisão definitiva do rei de conquistar aquela cidade do Norte de África, ao serem reunidas entre 100 a 200 velas, principalmente galés e fustas seguindo nelas cerca de 20 000 homens e 1700 tripulantes provenientes não só do nosso pais, mas também de Inglaterra, França, Flandres, Galiza etc  A nível nacional o Infante D.Henrique preparou a expedição do Porto, com o recrutamento,  de toda a nobreza e respetivo material bélico da zona norte a reunir-se na cidade Invicta, enquanto o Infante D.Pedro preparou a partir de Lisboa o recrutamento toda a nobreza e respetivo material bélico da zona centro e Sul. Depois de todos os soldados, tripulação, armas e mantimentos serem embarcados, a armada parte no dia 23 de Julho do Restelo ainda com destino incerto tanto para o povo como para os que se encontravam a bordo. Só na escala que a frota efetuou em Lagos é que o destino daquela grande armada foi revelado pela boca de Frei João Xira, que aproveitou para fazer um pequeno sermão e animar as hostes. Depois desta curta paragem os ventos eram contrários e não ajudaram na progressão da armada que teve esperar perto de 2 semanas para prosseguir o seu destino.

No entanto na aproximação a Ceuta de novo ventos desfavoráveis voltaram a surgir e afastaram parte da esquadra para a zona de Málaga, enquanto a outra conseguiu atingir Ceuta. O Rei D.João preferiu esperar pelo regresso do resto da armada, enquanto isso os mouros já se preparavam colocando bestas e trons (espécie de canhão primitivo) nas muralhas, el-rei decide esperar pelos restantes navios, uns quilómetros a sul de Ceuta, na Baia do Barbaçote. Depois de todos reunidos na pequena baia o rei decide seguir o plano inicial de atacar Ceuta, já que muitos temiam que o efeito surpresa tivesse desaparecido e por isso o melhor era voltar ao Reino ou então atacar Gibraltar, mas o plano mantêm-se, no entanto a frota apanha de novo ventos contrários e parte da frota vai ter à zona de Algeciras. Os mouros vendo esta manobra desguarnecem as suas defesas, pensando que os cristãos tinham desistido de atacar a cidade. Entretanto o plano de ataque é delineado. Enquanto o rei simulava que atacaria a parte sul da baia da Almina (zona dos banhos), a armada vinda do Porto comandada pelo Infante D. Henrique atacaria em força a porta da Almina que ficava mais a norte, e tomar a praia que ficaria conhecida como Santo Amaro, nesse momento a frota do rei interromperia o avanço e juntar-se-ia aos infantes. O plano correu como combinado, só que os membros da armada do Infante D.Henrique anteciparam-se ao sinal dado por el-rei para iniciar o ataque, fruto talvez das provocações vindas da muralha e lançaram-se à conquista da praia, o que conseguiram juntamente com a porta da Almina, entretanto tinha chegado a ajuda do Infante D.Duarte que com os seus soldados frescos, foram essenciais para que o bairro da Almina fosse tomado ao final da manhã.

Ainda os combates estavam longe de terminar e já a maioria dos soldados estava ocupada no saque da cidade, enquanto o alcaide muçulmano Salah ben Salah mandava cerrar as restantes portas da cidade. Enquanto isso os infantes entrincheiraram-se aguardando por reforços. Chegados os reforços da frota do rei, os infantes D.Henrique e D.Duarte mandaram os soldados dividirem-se em três grupos e espalhar-se pelas ruas dos bairros que vão ter à mesquita.

A ritmos diferentes os nossos avançavam, já que os mouros combatiam rijamente pela sua vida, pelos seus haveres e pela sua cidade, por isso um combate porta a porta, pelo que sofremos algumas baixas como D. Vasco Fernandes de Ataíde, governador da casa do Infante D.Henrique, atingido por uma pedra na cabeça. Apesar disso o governador da cidade Salah ben Salah tinha montando no seu ginete e fugido da cidade.

Depois de todos os bairros e pontos altos conquistados, causou algum espanto verem a mesquita abandonada, pelo que os infantes e as suas hostes tiveram o seu merecido descanso naquele lugar de culto. Ali combinaram o ataque final ao castelo para o dia seguinte. Pouco depois um soldado que fazia a guarda perto do castelo repara que no cimo das muralhas os pardais andavam animados, e por isso dando a entender que estaria abandonado e manda avisar de imediato os infantes e el-rei que já se encontrava entre eles na mesquita.


Fig 2 - Retrato de D. Pedro de Meneses, primeiro governador português de Ceuta

Coube a João Vaz de Almada que se dirigisse ao Castelo e hasteasse a bandeira de São Vicente, o estandarte da cidade de Lisboa, dentro do castelo encontrou um biscainho e um genovês que o avisaram da partida dos mouros. Então João Vaz entregou-lhes a bandeira e mandou que eles a hasteassem. No dia seguinte, depois da mesquita estar devidamente limpa e preparada para a cerimonia que se ia seguir, foram armados cavaleiros os três infantes, D.Henrique, D.Duarte e D.Pedro mas não foram os únicos, vários fidalgos de nomeada foram armados cavaleiros por El-Rei, como Pedro Vaz de Almada (filho de João Vaz), D.Pedro de Meneses, Vasco Martins de Albergaria, Álvaro Pereira entre outros.

Depois de conquistada a cidade, nenhum dos capitães escolhidos por D.João I aceitou ser o primeiro capitão de uma praça portuguesa além mar. Entre os nomes estavam o condestável  Nuno Alvares Pereira, o marechal Gonçalo Vasques Coutinho e Martim Afonso de Melo. Apenas o jovem conde D.Pedro de Meneses se voluntariou para comandar a guarnição da cidade, o que D.João I aceitou de imediato, mas com algum espanto tanto do monarca como dos presentes já que a família Meneses tinha apoiado o lado castelhano na crise de 1383/1385 e que assim se tentava redimir do pecado cometido pela sua família no passado. Cargo que ocupou com grande sabedoria, perspicácia e valentia, já que ocupou o referido cargo até à sua morte em 1437 por causas naturais.
 
Bibliografia Consultada:

João Gouveia Monteiro / António Martins Costa - 1415 Conquista de Ceuta (2015)
Luis de Albuquerque, Ana Maria Magalhães, Isabel Alçada - Os Descobrimentos Portugueses I Volume (1991)
 

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Re: Expansão portuguesa
« Responder #17 em: Agosto 22, 2015, 11:24:53 pm »
 

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Re: Expansão portuguesa
« Responder #18 em: Agosto 24, 2015, 01:00:26 pm »
 

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Re: Expansão portuguesa
« Responder #19 em: Agosto 24, 2015, 10:38:07 pm »
Ceuta efectivamente fue obra y conquista portuguesa, pasó posteriormente a ser de domínio español por votación libre (referendum) de sus habitantes cuando tras unos breves años de unión ámbos países se separaron.
Ceuta orgullosa de su pasado portugués ostenta como bandera comunitaria la bandera de Lisboa y como escudo las armas de Portugal.
Visible y apreciada es en Ceuta la huella dejada por Portugal.¡
1.492, DESCUBRIMOS EL PARAISO.
"SIN MAS ENEMIGOS QUE LOS DE MI PÁTRIA"
 

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Re: Expansão portuguesa
« Responder #20 em: Setembro 03, 2015, 03:47:07 pm »
Governo timorense prepara comemoração dos 500 anos da chegada de portugueses


O Governo timorense analisou esta semana o programa de atividades proposto para a comemoração no final deste ano, do 500.º aniversário da "Afirmação da Identidade Timorense", que marca a chegada de navegadores portugueses ao território.

Uma proposta do programa foi apresentada esta semana pelo ministro da Administração Estatal e presidente da comissão organizadora dos festejos, Dionísio Babo, com o Governo a explicar que se vão centrar no mês de novembro e, em particular no enclave de Oe-Cusse, onde primeiro chegaram os portugueses.

A proposta foi analisada na reunião de terça-feira do Conselho de Ministros, tendo sido preparada pela comissão organizadora que foi criada, por decreto governamental, a 14 de abril último.

Segundo explica o Governo em comunicado - sem detalhar para já qualquer informação da agenda de atividades - as cerimónias "pretendem dignificar a história e o processo de construção da identidade timorense, bem como valorizar a democracia, a política e a unidade nacional".

Está a ser prevista uma agenda de atividades para recordar a "abordagem histórica, cultural e intelectual" do aniversário.

A resolução que cria a comissão organizadora recorda que as comemorações terão o seu ponto alto no dia 28 de novembro, data que marca ainda o 40º aniversário da declaração da independência de Timor-Leste.

"Esta comemoração, recorde-se, tem como ponto de partida assinalar a chegada dos navegadores e missionários portugueses a Lifau, Oe-Cusse Ambeno, e representa um marco histórico na afirmação da nova identidade timorense e na construção de Timor-Leste", explica o Governo.


Lusa
 

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Re: Expansão portuguesa
« Responder #21 em: Março 14, 2016, 10:33:21 am »
Navio da armada de Vasco da Gama encontrado em Omã


O Ministério do Património e da Cultura de Omã anunciou esta segunda-feira a descoberta de um navio português naufragado numa ilha remota de Omã, em 1503, quando fazia a carreira da Índia, incluído na armada de Vasco da Gama.

O navio é, de acordo com aquela entidade, a mais antiga embarcação dos Descobrimentos Portugueses encontrado e cientificamente investigado por arqueólogos.

Em comunicado, o Ministério indica que o navio português naufragou durante uma tempestade ao largo da ilha Al Hallaniyah, na região Dhofar, de Omã. O local do naufrágio foi inicialmente descoberto pela empresa britânica Blue Water Recoveries Ltd. (BWR), em 1998, no 500º aniversário da descoberta de Vasco da Gama do caminho marítimo para a Índia.

Contudo, o Ministério só deu início ao levantamento arqueológico e à escavação em 2013, tendo sido desde então realizadas mais duas escavações em 2014 e 2015, com a recuperação de mais de 2.800 artefactos.

Os principais artefactos, que permitiram identificar o local do naufrágio como sendo a nau “Esmeralda”, de Vicente Sodré, incluem um disco importante de liga de cobre, com o brasão real português e uma esfera armilar e um emblema pessoal de D. Manuel I.

A mesma fonte indicou que foram também encontrados um sino de bronze, com uma inscrição que sugere que o navio data de 1498, cruzados de ouro, cunhados em Lisboa entre 1495 e 1501 e um moeda de prata rara, chamada Índio, que D. Manuel I terá mandado fazer especificamente para o comércio com a Índia.

"A extrema raridade do Índio (só se conhece um outro exemplar no mundo inteiro) é tal, que possui o estatuto lendário da moeda ‘perdida’ ou ‘fantasma’ de D. Manuel I", adiantou o Ministério de Omã.

Na nota é também referido que "o projecto foi gerido conjuntamente por este Ministério e David L. Mearns da BWR, tendo-se respeitado rigorosamente a Convenção da UNESCO para a Protecção do Património Cultural Subaquático de 2001".


>> http://rr.sapo.pt/noticia/49233/navio_da_armada_de_vasco_da_gama_encontrado_em_oma?utm_source=rss
 

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Re: Expansão portuguesa
« Responder #22 em: Março 14, 2016, 01:15:11 pm »
Descoberta de navio que pertencia à armada de Vasco da Gama é "muito importante"




Assim classificou o historiador Paulo Pinto a confirmação de que o navio português naufragado na região de Omã integrava a armada de Vasco da Gama

O Ministério do Património e da Cultura de Omã confirmou hoje a descoberta de um navio português naufragado numa ilha remota de Omã em 1503, que fazia a carreira da Índia e que estava incluído na armada de Vasco da Gama.

Em declarações hoje à agência Lusa, o historiador e investigador do Centro de História d'Aquém e d'Além-Mar (CHAM) da Universidade Nova de Lisboa explicou que este "navio era poderoso e o mais importante da armada".

"Se foram agora encontrados os seus restos, é um achado arqueológico muito importante e relevante até para a compreensão do que foram estes primeiros anos da presença portuguesa naquela região", disse.

O investigador esclareceu que o navio e o capitão estavam integrados na armada de Vasco da Gama quando chegaram à Índia, mas as circunstâncias que rodearam o naufrágio e os conduziram ao naufrágio não têm nada a ver com a viagem de Lisboa para a Índia.

"O que aconteceu foi o seguinte: a primeira armada para a índia foi a de Vasco da Gama, a segunda, a de Pedro Álvares Cabral, a terceira, a de João da Nóvoa e o Vicente Sodré foi na quarta armada" à qual pertence este navio, disse.

De acordo com o investigador, em 1502 partiu uma poderosa armada em direção à Índia, tendo Vasco da Gama regressado a Portugal mais tarde e Vicente Sodré ficado na região da atual Omã.

"É este capitão Vicente Sodré que fica incumbido de continuar a patrulhar a costa ocidental indiana e impor-se pela força, [era recorrente nesta conjuntura]. O importante desta armada e deste navio que naufragou é que foi a primeira armada que ficou na índia", esclareceu.

Segundo Paulo Pinto, Vicente Sodré efetuou uma série de ações de retaliação contra navios muçulmanos nesta região e a certa altura patrulhou aquela região de Omã.

"As fontes falam que o navio se perdeu junto às ilhas de Cúria Múria provavelmente em abril ou maio de 1503, o que bate certo com o local onde [agora] dizem ter encontrado o navio. Depois terá aparecido um tufão, um temporal e o navio afundou", disse, adiantando que terão sobrevivido apenas uma ou duas pessoas.

O investigador salientou também que a região em causa "não é assim tão grande para que o achado esteja incorreto".

"Tanto quanto sei, por esses anos, provavelmente este foi o único navio da armada portuguesa naufragado naquela região. As fontes portuguesas dizem claramente que foi perdido junto a essas ilhas", concluiu.

Em comunicado, o Ministério da Cultura e do Património de Omã salientou que o navio português, que estava incluído numa das armadas de Vasco da Gama com destino à Índia naufragou em 1503 durante uma tempestade ao largo da ilha Al Hallaniyah, na região Dhofar, de Omã.

O ministério informou que o local do naufrágio foi inicialmente descoberto pela empresa britânica Blue Water Recoveries Ltd. (BWR) em 1998, no 500.º aniversário da descoberta de Vasco da Gama do caminho marítimo para a Índia.

Contudo, o ministério só deu início ao levantamento arqueológico e à escavação em 2013, tendo sido desde então realizadas mais duas escavações em 2014 e 2015, com a recuperação de mais de 2.800 artefactos.

DN
 

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Re: Expansão portuguesa
« Responder #23 em: Março 15, 2016, 01:32:09 pm »
« Última modificação: Março 15, 2016, 01:33:49 pm por Lusitano89 »
 

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Re: Expansão portuguesa
« Responder #24 em: Março 16, 2016, 02:03:56 pm »
A nau 'Esmeralda' foi de facto descoberta? As pistas e as dúvidas





"Omã. Uma fascinante descoberta. A acompanhar com toda a atenção" escrevia ontem o ministro da Cultura na sua página de Facebook. João Soares referia-se à descoberta da nau Esmeralda, anunciada na segunda-feira pelo Ministério do Património e da Cultura (MPC) de Omã. A nau fazia parte de uma armada de Vasco da Gama na rota da Índia. Comandada por Vicente Sodré, terá naufragado em maio de 1503 ao largo da ilha Al Hallaniyah. Com ela, a São Pedro, comandada pelo irmão de Vicente, Brás, tios de Vasco da Gama.

No dia em que a notícia foi divulgada, nenhum dos investigadores envolvidos falava. Tinham ordens para esperarem pelo dia de ontem, altura em que foi apresentado oficialmente, em Mascate, o artigo assinado por David L. Mearns, explorador responsável pela empresa Blue Water Recoveries, David Parham, arqueólogo da universidade de Bournemouth, e Bruno Frohlich, antropólogo do Museu Nacional de História Natural, Smithsonian Institute, Washington. Publicado o artigo, os investigadores falaram. Era, pois, hora de esgrimir argumentos.

David Mearns conta ao telefone que, quando percebeu que tinha permissão para explorar a área marítima de Omã, pensou: "Bom, qual pode ser o navio mais importante que possamos encontrar? Era o Esmeralda. Aliás, eram os dois navios dos irmãos Sodré." Assim foi. Começou com uma pequena expedição em 1998. "Recuperámos cerca de 40 artefactos. Agora temos 2800." De 1998 até hoje, aconteceram três anos de expedições, que só decorreram de 2013 em diante. Porquê tamanho interregno? "Não tínhamos os especialistas para escavar. Se prosseguíssemos sem a equipa certa, podíamos ter causado danos. Esperámos. Foi muito difícil conseguir que alguém nos prestasse atenção e levasse a sério."

Filipe Castro, professor de Arqueologia Subaquática na Universidade do Texas A&M, não esteve envolvido no projeto. Reconhece a credibilidade de Parham, da revista onde foi publicado o artigo, a International Journal of Nautical Archeology, e até o facto de ser "plausível" que se trate da nau portuguesa. Todavia, diz: " Anunciar o achado da Esmeralda é uma parvoíce." É "plausível", "não certo". Caso se verifique, esta "será a nau portuguesa mais antiga descoberta até agora ganhando, por isso, uma enorme importância", explica o professor.

Quando lhe pedimos um parecer acerca do número de portugueses no projeto - oito - lança: "Vou-lhe contar uma história. Ele [Mearns] convidou o Alexandre Monteiro, o arqueólogo português mais conceituado, que disse: "Tem de ter cuidado. Não pode, antes de começar a escavar, achar que isto é a Esmeralda. Não pode estar a fazer uma escavação para provar a sua teoria. Primeiro tem de ver quantos navios se perderam ali, há vários naufrágios, aquilo é um porto. Havia navios árabes cheios de artefactos portugueses e vice-versa. Temos de ir com calma."

David não terá gostado. Ele que, segundo notou ao DN, se espanta com a falta de interesse das instituições portuguesas. Recorda que as tem contactado e, "no verão de 2014", esteve na Direção Geral do Património Cultural (DGPC) a apresentar o projeto. Nunca obteve resposta. "Estamos abertos a trabalhar com qualquer português neste projeto. A DGPC disse-nos: "Aceitariam ter convosco pessoas nossas?" E eu disse: "Absolutamente." Eles nunca nos contactaram."

O ministério português da Cultura foi lacónico em relação a este assunto. Contactado pelo DN, foi apenas dito que estará "a acompanhar o assunto pelos meios apropriados". Já o ministério dos Negócios Estrangeiros afirmou que "Portugal facilitará toda a colaboração ao Sultanato de Omã, havendo natural interesse no acesso de investigadores portugueses ao local de trabalho, no seguimento, aliás, do envolvimento de entidades nacionais na análise dos artefactos encontrados".

A moeda rara de D. Manuel I

À parte das bolsas que Mearns recebeu de instituições como a National Geographic Society, foi o MPC de Omã que financiou o projeto. Talvez por isso, depois "da análise de conservação e restauro, os artefactos" serão exibidos no novo Museu Nacional de Omã. A análise, contudo, pode demorar anos, diz Mearns. Quanto aos artefactos, que segundo os investigadores permitem identificar o navio naufragado como o Esmeralda, incluem um Índio, rara moeda de prata que D. Manuel I terá mandado fazer e do qual só existirá mais um exemplar.

António Trigueiros, especialista em Numismática do país, e ex-diretor do Departamento de Moeda e Produtos Metálicos da Imprensa Nacional Casa da Moeda, foi um dos investigadores com quem Mearns contou. Recorda que, quando recebeu a fotografia do Índio, terá dito: "Não pode ser. Se for, é a descoberta na numismática mais importante dos últimos cem anos." E esse Índio, conta Trigueiros, permite identificar o navio que o transportava como sendo de 1503, ano em que Esmeralda e São Pedro afundaram.

Esmeralda, a nau de uma das armadas de Vasco da Gama de que, nos últimos dias, todos falam, é apresentada no artigo ontem divulgado como "a fonte provável" dos artefactos encontrados. "Ainda que o registo histórico sugira que os destroços são de facto de apenas um navio, e que são da Esmeralda de Vicente e não de São Pedro, ainda nos faltam provas conclusivas para fazer esta determinação", lê-se.

Tânia Casimiro, arqueóloga portuguesa, foi consultada por Mearns logo em 2013. Foi a Omã em janeiro de 2015. Da descoberta, diz que a "importância científica, pelo menos a nível da cultura material, é extraordinária." Com ela, é "possível saber que tipo de objetos se utilizava em Portugal nos inícios do século XVI." Quanto às novidades, continua a investigadora, "são mais que muitas. Isto vai poder permitir contar muitas histórias sobre a vida a bordo nos inícios da carreira da Índia, mas igualmente sobre o que se passava em Portugal".


DN
« Última modificação: Março 16, 2016, 06:16:46 pm por Lusitano89 »
 

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Re: Expansão portuguesa
« Responder #25 em: Maio 09, 2016, 02:47:38 pm »
Entrevista com Roger Crowley: Portugueses eram "incrivelmente corajosos, às vezes estupidamente corajosos"


Roger Crowley investigou a fundo o início do império português na Índia. Deixou-se cativar pela coragem – por vezes estúpida – dos militares, mas também pelo génio de Afonso de Albuquerque.

Livros sobre os descobrimentos portugueses há muitos, mas “Conquistadores” é diferente de boa parte deles: o seu autor é inglês. Roger Crowley passou os últimos anos a investigar este período da história mundial.

Claramente rendido ao aspecto singular da expansão portuguesa, o olhar de Crowley permite, todavia, assinalar claramente tanto as virtudes como os vícios do esforço incrível dos portugueses que se lançaram sobre a Índia, mas com o coração em Jerusalém.

Este livro foi inicialmente escrito em inglês, para o mercado anglófono. Tem tido sucesso?

Tem sido muito bem recebido, com interesse e surpresa. A questão de Vasco da Gama tem sido mais ou menos esquecida, infelizmente para os portugueses, mas também para todos porque foi um processo formador do mundo em que hoje vivemos.

Porque é que os portugueses devem ler um livro sobre história de Portugal escrita por um inglês?

Para mim é difícil julgar isso, mas a sensação que tenho, com base em reacções, é de que os portugueses, por um lado, têm muita curiosidade sobre a forma como são vistos pelos estrangeiros e não há muitos livros escritos sobre a história de Portugal, sem ser de âmbito académico.

Eu escrevo para leitores normais, pessoas que se interessam por história mas que não são académicos. Escrevo para ouvir as vozes do passado. Os portugueses até podem saber algumas das coisas que o [Afonso de] Albuquerque ou [Francisco de] Almeida fizeram ou disseram, mas espero que a história que conto seja fascinante para todos.

De todas as figuras que aborda, qual a que mais o marcou?

Só posso responder que foi o Albuquerque, é uma personagem extraordinária. Foi um construtor de impérios e incrivelmente convencido. Pensava que podia fazer tudo. Era extremamente inteligente. Embora tenha recorrido à violência, penso que o fez de forma estratégica. Ele tinha noção que os portugueses eram poucos e que por isso era necessário intimidar os locais.

Também era muito inteligente do ponto de vista geoestratégico. Foi ele quem percebeu que era Goa e não Calecute, que mais se adequava aos interesses dos portugueses. Trata-se de uma ilha, fácil de defender, muito bem situada a meio da costa da Índia, precisamente entre o império muçulmano e o hindu. Foi um acto de grande visão estratégica, porque D. Manuel não lhe tinha dito para conquistar Goa, fê-lo por sua iniciativa e, na verdade, foi ele o verdadeiro fundador do império português no Oriente.

Era ainda bastante liberal em muitas coisas. Foi ele quem instituiu a política dos casamentos mistos e compreendeu que era impossível erradicar o islão do Oceano Índico. Dizia que enquanto os portugueses fossem justos seriam amados, mas no dia em que se tornassem avarentos seriam odiados. Tinha um sentido férreo de justiça e, tanto quanto consegui apurar, não se enriqueceu. Era um servidor do rei e agia com a melhor iniciativa possível.

No livro apresenta batalhas que os portugueses vencem apesar de estarem em grande minoria. Como é que o fizeram? Coragem? Superioridade tecnológica? Ou uma mistura de ambos?

Penso que é uma mistura de ambos. Eles chegam ao Índico com uma tecnologia de ruptura e com esta vantagem sabiam que podiam rebentar com qualquer navio inimigo.

Mas também eram incrivelmente corajosos – às vezes estupidamente corajosos – mais do que estratégicos. Havia um código de honra entre a nobreza, que só se preocupava com a glória individual, e isso levou-os a situações loucas e a tomar decisões muito pouco sábias, como o ataque a Calecute em 1510 que terminou com um massacre, porque Coutinho decidiu que ia marchar sobre o palácio e tomá-lo. Há histórias extraordinárias do século XV de pessoas a discutir durante tanto tempo sobre quem devia ser o primeiro a escalar a muralha de uma fortaleza marroquina, que acabaram por ser todos mortos.

Portanto era uma mistura de coragem, tecnologia e bluff. Mas também de claridade estratégica. Eles compreenderam que se construíssem boas fortalezas, ninguém possuía a tecnologia de cerco necessária para as conquistar. Esta estratégia de fortalezas e poder naval móvel tornou-se o protótipo para sucessivos impérios, como o holandês e o inglês.

Mas Albuquerque não era fã desta mentalidade fidalga, pois não?

Albuquerque percebia que não havia portugueses suficientes para andar a desperdiçar vidas. E houve momentos de tensão quando ele tentou introduzir as tácticas dos bandos suíços – formações ordenadas de piqueiros e mosqueteiros – e tentou organizar um sistema regimental e menos feudal. Fez isto em Goa, ensinou os soldados a fazer ordem unida e treinava juntamente com os homens, mas os fidalgos tentavam boicotar tudo, chegando a tentar destruir um carregamento de piques que chegou de Lisboa.

Esta tensão acabou por levar à queda em desgraça de Albuquerque, porque os fidalgos queixaram-se amargamente ao Rei D. Manuel, acusando-o de ser corrupto e de estar a tentar instalar-se como um rei independente.

Muitas potências europeias tiveram colónias na Ásia e em África. Os portugueses foram só mais uns – porventura os primeiros – ou havia algo de diferente na política colonial portuguesa?

Foram sem dúvida os primeiros e os holandeses copiaram-nos. Mas penso que o império português tem sido diferente. Tinham uma variedade de estilos imperiais. No Índico tinham um império formal, no Oriente tinham um império informal. A extensão do império é que era crítica. Do Brasil à China, muito leve no que diz respeito a ocupação de terreno e muito móvel. Misturavam-se com as populações locais, casavam-se e aproximaram-se muito mais do que os holandeses e ingleses.

Sabemos que houve casos de crueldade, massacres. É anacronismo condenar estes actos segundo critérios actuais? Os portugueses estavam simplesmente a fazer o que todos faziam nessa época?

Claro que são coisas que nos chocam, mas penso que se formos ver a experiência de todas as potências coloniais durante o século XVI a tendência era a mesma.

Num certo sentido havia violência que era necessária, os portugueses não iam conseguir estabelecer-se no Índico sem uma luta. Mas também sabemos que se praticaram actos individuais que mesmo na altura eram vistos como chocantes. Quando Vasco da Gama afundou um navio de peregrinos, o Miri, isso foi comentado por portugueses que estavam com ele e que diziam que não compreendiam o sentido do acto.

Para dizer a verdade, se virmos a presença portuguesa como um todo, tratou-se apenas de uma fase. O meu livro é que se concentra muito nesta fase. Mas havia uma missão civilizadora e a religião desempenhou um papel importante nesse sentido. Não estavam lá apenas para levar os bens de volta para Portugal, ao contrário dos holandeses. Os holandeses estavam-se nas tintas para converter pessoas. Mas os portugueses tinham uma missão mista e a religião e a conversão puseram-nos em contacto com pessoas de uma forma mais simpática do que violenta.

Tende-se a ver o período das descobertas como uma mera corrida ao ouro. Afinal, o que motivava D. Manuel?

Era certamente motivado por uma ideia de missão religiosa. Gostava da riqueza, claro, mas via-a como uma justa retribuição de Deus, mas no fim de contas era a visão messiânica que o motivava.

Já tinha tentado formar uma cruzada mediterrânica, mas sem sucesso e tinha uma estratégia extraordinária de raptar o cadáver de Maomé e trocá-lo por Jerusalém. Há quem diga que, se fosse preciso, estaria disposto a trocar o Império na Ásia por Jerusalém.

A estratégia de capturar o corpo de Maomé e trocá-lo por Jerusalém era viável? O seu livro termina com a tentativa falhada de conquistar Áden. Caso tivessem conseguido, o plano de chegar a Meca teria sido viável?

Acho que sim. É impossível ter a certeza, mas era certamente uma possibilidade. Se o plano teria resultado? É preciso admitir que era de uma ambição incrível e a verdade é que, a longo prazo, as cruzadas falharam porque simplesmente não havia gente suficiente. Estamos a falar de um mundo árabe e penso que, no fim de contas, o centro do Médio Oriente irá sempre ser de maioria muçulmana e árabe. Por isso, realisticamente, talvez conseguissem conquistar Jerusalém durante algum tempo, mas a Terra Santa iria acabar por ser povoada por muçulmanos.


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Re: Expansão portuguesa
« Responder #26 em: Maio 09, 2016, 04:18:34 pm »
Citação de: Lusitano89

[b
Sabemos que houve casos de crueldade, massacres. É anacronismo condenar estes actos segundo critérios actuais? Os portugueses estavam simplesmente a fazer o que todos faziam nessa época?[/b]

Claro que são coisas que nos chocam, mas penso que se formos ver a experiência de todas as potências coloniais durante o século XVI a tendência era a mesma.

Num certo sentido havia violência que era necessária, os portugueses não iam conseguir estabelecer-se no Índico sem uma luta. Mas também sabemos que se praticaram actos individuais que mesmo na altura eram vistos como chocantes. Quando Vasco da Gama afundou um navio de peregrinos, o Miri, isso foi comentado por portugueses que estavam com ele e que diziam que não compreendiam o sentido do acto.

Fascinante leitura no geral!
Mas sempre que vejo algo do género ao citado, penso se as gerações futuras nos irão criticar por sermos uma sociedade demasiado fraca, demasiado preocupada com os direitos de tudo ou mesmo demasiado "amaricada". Que por isso tudo entrou em decadência e acabou por desaparecer como tantas vezes aconteceu na História.   
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Re: Expansão portuguesa
« Responder #27 em: Setembro 15, 2017, 07:09:49 pm »

Execution by cannon in Iran, 1890s

http://rarehistoricalphotos.com/execution-cannon-1890s/

Citar
The method was utilized by Portuguese colonialists in the 16th and 17th centuries, from as early as 1509 across their empire from Ceylon (modern-day Sri Lanka) to Mozambique to Brazil.

Arguably, the nation most well-known to have implemented this type of execution was the British Empire, in its role as paramount power in India, and in particular as a punishment for native soldiers found guilty of mutiny or desertion. Using the methods previously practiced by the Mughals, the British began implementing blowing from guns in the latter half of the 18th century, with the most intense period of use being during the 1857 sepoy mutiny, when both the British and the rebelling sepoys used it frequently.
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Re: Expansão portuguesa
« Responder #28 em: Setembro 20, 2017, 09:42:32 am »
Marinha Portuguesa, 700 Anos a servir Portugal
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Re: Expansão portuguesa
« Responder #29 em: Outubro 24, 2017, 03:34:52 pm »
Descoberto em Omã astrolábio que pertenceu a nau naufragada de Vasco da Gama

Os investigadores da Universidade de Warwick, no Reino Unido, acreditam que o astrolábio recuperado ao largo da costa de Omã é o mais antigo instrumento de navegação alguma vez descoberto.



A nau Esmeralda terá naufragado no Oceano Índico em 1503. Foi uma de duas naus da frota de Vasco da Gama (a outra foi a São Pedro) que se sabe ter naufragado durante a segunda viagem do navegador português à Índia.

Os restos da nau Esmeralda foram descobertos ao largo da costa de Omã há quase duas décadas. Os restos… ou que se acreditava ser os restos; muitos arqueólogos começaram por contestar a descoberta. Agora, e depois de a localização exata da nau Esmeralda ter sido divulgada no último ano, uma descoberta arqueológica feita pouco antes vem provar definitivamente que, sendo ou não a nau Esmeralda, aquela era definitivamente uma embarcação portuguesa que pertenceu à época dos Descobrimentos.



Em meados de 2014, o investigador britânico David Mearns, responsável da Blue Water Recoveries, liderou uma expedição até aos restos da nau. Entre os quase três mil artefactos que Mearns recuperou durante a expedição encontrava-se um disco em bronze com 17,5 centímetros de diâmetro e dois milímetros de espessura. Tratava-se na verdade de um astrolábio, acreditando os investigadores que é o mais antigo instrumento de navegação alguma vez descoberto.

    O astrolábio tinha dois símbolos que viríamos a identificar: um era o brasão de armas português; o outro era o emblema pessoal de D. Manuel I, à época rei de Portugal”, afirmou David Mearns à BBC. E acrescentou: “Sabemos que foi fabricado antes de 1502 porque esse foi o ano em que a nau [Esmeralda] deixou Lisboa. E o rei D. Manuel só subiu ao trono em 1495 — este astrolábio não teria o emblema do monarca se ele ainda não fosse o rei de Portugal. Penso que é justo afirmar que o astrolábio data do período de 1495 a 1500”.

Depois de recuperado durante a expedição a Omã, o astrolábio foi analisado mais detalhadamente por investigadores da Universidade de Warwick, no Reino Unido. O disco em bronze não tinha quaisquer marcas de navegação. Mais tarde, e depois do recurso à tecnologia laser, os cientistas de Warwick que estudavam o astrolábio encontrariam marcas (com intervalos de cinco graus) à volta do disco. Tratar-se-ia, definitivamente, de um astrolábio. E é raro descobrir astrolábios usados por navegadores daquela época: pouco mais de uma centena foram catalogados até hoje.



O responsável da Blue Water Recoveries sabe-o. “É um grande privilégio encontrar algo tão raro, algo tão importante do ponto de vista histórico, uma descoberta que vem preencher uma lacuna e que está a ser alvo de grande interesse pela comunidade científica”, afirmou David Mearns à BBC. O astrolábio era utilizado pelos navegadores para medir a altitude do Sol em relação ao horizonte, determinar a posição de outros astros no céu e possibilitar a localização das embarcações, permitindo-lhes saber que direção seguir.

Portugal não foi até agora oficialmente informado pelas autoridades de Omã sobre a descoberta da nau Esmeralda. No entanto, esta pode ser considerada património do Estado português. E o Governo já afirmou a sua intenção de enviar peritos para Omã para investigar o naufrágio da nau Esmeralda, aguardando a resposta das autoridades omanitas.

http://observador.pt/2017/10/24/descoberto-em-oma-astrolabio-que-pertenceu-a-nau-naufragada-de-vasco-da-gama/
 
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