A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589

  • 44 Respostas
  • 16530 Visualizações
*

João Vaz

  • 193
  • +1/-0
A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589
« em: Agosto 31, 2010, 11:47:16 am »
PARTE I - D. António Prior do Crato, os "piratas hereges" e o trono de Portugal


Baixo-relevo na Catedral de Canterbury (Kent, Inglaterra), representando a morte no mar de Sir James Hales, tesoureiro da armada de Sir Francis Drake a Portugal em 1589. Trata-se do único monumento iconográfico contemporâneo da expedição identificado pelo autor

A 18 de Abril de 1589, dez meses após a derrota da “Invencível Armada” que pretendera invadir Inglaterra, o célebre corsário e almirante inglês Sir Francis Drake partiu do porto de Plymouth rumo à Península Ibérica. O galeão a bordo do qual seguia denominava-se apropriadamente Revenge. Conjuntamente chefiada por Sir Francis Drake e Sir John Norris, oficial veterano da Guerra dos Países Baixos (indigitados, respectivamente, comandante da armada e do exército), esta foi uma das maiores expedições navais do século XVI.

A bordo da armada seguia a pequena corte portuguesa no exílio desde 1581: D. António, Prior do Crato, pretendente ao trono português, o seu filho D. Manuel de Portugal e mais de 70 partidários portugueses, juntamente com um contingente anglo-holandês de 12.400 soldados. A Inglaterra passava à ofensiva pelo domínio do Atlântico.


D. António, efémero rei de Portugal ou "pobre rei" nas palavras dos seus aliados ingleses, liderou a resistência portuguesa contra Filipe II e a Monarquia Hispânica. Exilado após a invasão espanhola de 1580, conseguiu regressar a Portugal em 1589, de onde partiu novamente derrotado. A sua pretensão à coroa portuguesa baseava-se no pressuposto da sucessão electiva e não hereditária. Para tal, promoveu uma intensa edição de panfletos em várias línguas publicitando os seus argumentos contra Filipe II

D. António, filho ilegítimo do infante D. Luís (filho do rei D. Manuel), gozara de um reinado efémero: aclamado pelo povo e principais cidades do reino nas vésperas da invasão espanhola em Junho de 1580, o Prior do Crato resistira com o apoio do povo e do baixo clero, mas acabara derrotado dois meses depois na batalha de Alcântara. Não obstante a fácil conquista de Portugal, D. António manteve-se como uma das maiores preocupações do monarca espanhol.

Tencionava repetir-se o êxito dos ataques-surpresa executados com mestria por Drake a Cádiz e Sagres (1587), mas em maior escala e com o objectivo prioritário de destruir as unidades sobreviventes da “Invencível Armada” que haviam regressado ao norte de Espanha. Cedo se estabeleceram dois novos objectivos: repôr D. António no trono português - abrindo uma nova frente contra Espanha - e interceptar a “Frota da Prata” espanhola ao largo dos Açores, interrompendo o fluxo vital de metais preciosos para Espanha e assegurando uma base naval estratégica.


Sir Francis Drake, o mais famoso corsário e almirante da Rainha Isabel I de Inglaterra. O fracasso da expedição a Portugal de 1589 evitou um golpe decisivo no poder naval espanhol e valeu-lhe o afastamento da Corte inglesa por 6 anos

Dada a penúria das finanças isabelinas, tal como nas expedições anteriores de Drake, investidores privados proporcionaram o grosso da armada, constituída por navios de transporte armados. O investimento seria amortizado pela captura da frota das Índias e o livre acesso aos portos em Portugal.


Assalto à Coruña: primeiras dificuldades


Os desembarques ingleses, temidos pelas populações peninsulares, caracterizavam-se pelos roubos e violência contra civis mas também contra alvos religiosos, saqueando e destruindo edifícios religiosos. Este também foi o caso na expedição de 1589

Ventos contrários e problemas logísticos atrasaram a armada em seis semanas, criando despesas extraordinárias. Após a partida, a 28 de Abril, desertaram ainda 25 navios holandeses levando a bordo 2.000 homens. Alcançada a Coruña em 4 de Maio, as forças inglesas alcançam o primeiro objectivo da expedição, com o ataque a dois galeões regressados da fatídica "Invencível" Armada no ano anterior, que se encontravam em reparações: eram eles o São João, navio-almirante da esquadra da Coroa de Portugal e o São Bernardo, integrante da mesma. Enquanto a tripulação do primeiro incendiou o próprio navio para evitar que caísse em mãos inimigas, o segundo escapou, não sem antes os ingleses terem capturado a artilharia que se encontrava desembarcada.

Após um desembarque bem sucedido, mas em clara desobediência às ordens da Rainha, os ingleses apenas conseguem tomar a cidade baixa, onde se instalam D. António e o seu filho com as tropas de Isabel I. O alarme soou por toda a Galiza. Na vizinha cidade de Santiago de Compostela, o Arcebispo apelou à defesa da catedral para que o "Santo corpo do Apóstolo (...) não seja profanado por estes bárbaros hereges". A disciplina das tropas inglesas, maioritariamente recrutas inexperientes, provou ser tarefa difícil, sobretudo após a descoberta das adegas locais. Surgiram também os primeiros focos de epidemia provocando muitas mortes por entre os invasores.

Finalmente, depois de confrontados com uma forte resistência popular e desprovidos de equipamentos de cerco, os ingleses reembarcaram no dia 7 de Maio, deixando a cidade baixa saqueada e em chamas. O aviso do desembarque na Coruña tinha sido recebido em Lisboa a tempo de se reforçarem as defesas da capital portuguesa. Era chegado o momento da costa portuguesa se confrontar com o mais famoso corsário da sua época trazendo nos seus navios o rei exilado D. António acompanhado dos "piratas hereges".


Itinerário da expedição inglesa liderada por Sir Francis Drake e Sir John Norris em apoio de D. António pelo trono de Portugal em 1589

Desembarque em Peniche: o efémero regresso de D. António a Portugal


Fortaleza de Peniche (fotografia datada do segundo quartel do século XX. Arquivo Histórico Militar, Lisboa), um dos raros edifícios actualmente existentes que testemunhou o desembarque inglês com D. António.

Pelas 10 horas da manhã de sexta-feira 26 de Maio de 1589, a vila de Peniche foi surpreendida por uma esquadra de 155 navios manobrando ao largo. Perto das 16:00 horas as tropas inglesas iniciam o desembarque de um contingente de 6.500 homens no areal de Nossa Senhora da Consolação, a Sul da península. O jovem conde de Essex arriscou afogar-se para ser o primeiro a tocar em terra.

A defesa da praia revelou-se difícil para a reduzida guarnição espanhola, pois era demasiado ampla e a própria localização desabrigada da forte ondulação e do vento Norte não haviam determinado a sua vigilância. O desembarque inglês prosseguiu durante o final do dia até que na mesma noite sob uma lua quase cheia, Essex e o General Norris entraram na vila abandonada pelos militares espanhóis, que recuaram para novas posições defensivas aguardando reforços.

Em Peniche, o alcaide da fortaleza e muitos habitantes fugiram em pânico mal souberam da presença de Drake. Mas, à vista de D. António que desembarcara com uma cruz levantada e uma "insígnia" da Virgem Maria, o capitão entregou a fortaleza apesar desta se encontrar bem provida de artilharia e munições. O pretendente ao trono não perdeu tempo e distribuíu uma carta-manifesto na qual convocou o povo a recebê-lo enquanto libertador, assim como às tropas inglesas e à armada que o apoiavam. Nos dias seguintes, D. António e o seu filho distribuiram aos portugueses armas e munições capturadas na esperança de os acompanharem até à rendição de Lisboa.

Quanto aos reforços locais convocados pelas autoridades espanholas em Óbidos, Torres Vedras e Alcobaça, não passavam de "gente rústica, e fraca", que debandou "já sem armas e ânimo". No dia 27 de Maio, as forças inglesas dividiram-se: o General Norris iniciou a marcha até Lisboa e Drake partiu pouco depois com a armada rumo a Cascais. Ambas as forças deveriam reunir-se para o assalto conjunto à capital portuguesa.

João Pedro Vaz, Campanhas do Prior do Crato, 1580-1589: Entre Reis e Corsários pelo Trono de Portugal, Lisboa: Tribuna da História, 2005.
"E se os antigos portugueses, e ainda os modernos, não foram tão pouco afeiçoados à escritura como são, não se perderiam tantas antiguidades entre nós (...), nem houvera tão profundo esquecimento de muitas coisas".
Pero de Magalhães de Gândavo, História da Província Santa Cruz, 1576
 

*

João Vaz

  • 193
  • +1/-0
Re: A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589
« Responder #1 em: Agosto 31, 2010, 12:13:31 pm »
PARTE II - O Regresso do "Pobre Rei" D. António


Infantaria inglesa da época isabelina em marcha. Gravura da obra de John Derrick, Images of Ireland (1581)

Deixando em Peniche os soldados doentes e feridos e 3 navios para assegurar uma eventual retirada, o General Sir John Norris, D. António de Portugal e o conde de Essex iniciaram a marcha para Lisboa com menos de 6.000 homens e 44 cavaleiros, mas desprovidos de artilharia. Essex e o Coronel Sir Roger Williams comandavam a vanguarda, enquanto D. António e o seu filho viajaram na retaguarda da formação protegidos pela cavalaria. Sob um sol escaldante de Primavera, demoraram 6 dias para percorrer os 80 km de caminho sinuoso até Lisboa. No dia 28 de Maio, D. António e as tropas inglesas chegaram à Lourinhã, enquanto as tropas espanholas se retiraram de Torres Vedras para Enxara dos Cavaleiros, mantendo somente uns cavaleiros "sempre à vista do inimigo" e enviando batedores por "todas partes". A estratégia defensiva das forças ocupantes espanholas era prudente, deixando o inimigo desgastar-se na marcha para Lisboa e envolvendo o mínimo de confrontos.

D. António entrou pouco depois em Torres Vedras a 29 de Maio após a retirada da guarnição espanhola e desfilou debaixo de um "pálio" (espécie de toldo portátil) tal como faziam os monarcas nas paradas, procedimento que se repetiu em todas as povoações no seu caminho. Entretanto, juntaram-se-lhes frades, gente pobre e alguns fidalgos que prometiam a adesão de muitos mais apoiantes portugueses.

Contudo, após 8 anos de ausência do pretendente português e da dura repressão espanhola sobre nobres, religiosos e populares, a esperada adesão popular a D. António não se concretizou. O sangrento episódio do Rei da Ericeira em 1585 criara tanto medo na população que muitos temiam mais "serem prezos por estes cazos que não pella Santa Inquisição". Só no início de 1589, o rei Filipe II (D. Filipe I de Portugal) ordenara a deportação de 70 fidalgos suspeitos. E durante o cerco de Lisboa movido pelas tropas inglesas seria degolado um irmão do Barão de Alvito por suspeitas de conspiração e o Conde de Redondo encarcerado no castelo de São Jorge. O facto de D. António se fazer acompanhar de uma hoste de "hereges" Protestantes, ainda que libertadores, também comprometeu o pretendido apoio popular.


Robert Devereux, 2.º Conde de Essex, fidalgo aventureiro e um dos cortesãos favoritos da Rainha Isabel I, acompanhou a expedição de Sir Francis Drake e D. António a Portugal, integrando o contingente militar infringindo a vontade da Rainha que ordenou o seu regresso logo após a notícia da sua partida

A notícia do desembarque inglês provocou o pânico em Lisboa. Nas primeiras horas da manhã, os habitantes abandonaram a capital com os seus haveres, desembolsando fortunas pelo aluguer de simples carroças e quaisquer barcos rumo ao Barreiro e ao Montijo.

No arraial inglês, a falta de mantimentos agravou-se com o cumprimento das ordens do General Norris, proibindo qualquer roubo a portugueses, o que obrigou os ingleses a comer "muitas imundicias... e muitos delles se embebedavão, por aver muito vinho", de que muitos "adoecião e morrião". Na noite de 30 de Maio, os ingleses instalaram-se em Loures. Chegadas aqui, as tropas invasoras sofrem a primeira investida das forças espanholas durante quase 2 dias, causando algumas baixas e fazendo prisioneiros, cujo interrogatório confirma o estado debilitado dos ingleses.

No dia 31, o campo espanhol transfere-se para as imediações da ponte de Alcântara, prevendo a eventual subida do Tejo pelos navios de Drake, enquanto as religiososas dos conventos extra-muros da Esperança, Odivelas e Santos-o-Novo são acolhidas em Lisboa, bem como a população residente nas numerosas quintas dos arrabaldes. O pavor dos invasores hereges levou algumas religiosas a regressarem a casa das respectivas famílias, enquanto outras provocaram escândalo ao refugiarem-se nas celas e nos dormitórios dos frades no mosteiro de São Francisco, dando lugar a boatos maliciosos e à perturbação dos ofícios religosos.


Sir Francis Drake e a armada inglesa na tomada de Cascais


Fortificações de Cascais no século XVI: em cima, gravura de Georg Braun representando a torre joanina e em baixo a fortaleza filipina, construída sobre a primeira e cujo alcaide se rendeu às forças inglesas de Drake em 1589

Terça-feira, dia 30 de Maio, a baía de Cascais é enquadrada pela armada liderada por Sir Francis Drake. Após um rápido desembarque defronte do Mosteiro de Santo António (actuais Salesianos do Estoril), 300 soldados ingleses assumiram a vanguarda de um contingente de 1.500 homens que cercou e tomou a fortaleza de Cascais, apoiados pela artilharia da armada. Simultaneamente, um piloto português desembarcado do Revenge, navio de Drake, convenceu a população local a acolher os invasores e apoiar D. António na sua luta pelo trono português. O alcaide espanhol da fortaleza de Cascais rendeu-se devido às notícias comunicadas pelo seu capelão (padre do mosteiro de Santo António) e depois de Drake ter comunicado que Lisboa também se entregara. O desafortunado alcaide espanhol retirou-se num barco a remos e a sua guarnição abandonou a fortaleza, apenas para mais tarde ser sentenciado à morte por traição e executado em praça pública na Ribeira de Lisboa.


As forças navais portuguesas encontravam-se em plena reconstrução após o fracasso da "Invencível" Armada de 1588, não intervindo na defesa de Lisboa contra a expedição inglesa de 1589. Nesta ocasião, a barra e o estuário do Tejo foram defendidos por navios da Coroa de Espanha

No Tejo, as defesas a ultrapassar pela armada consistiam na esquadra de 12 galés de D. Alonso de Bázán (irmão do falecido Marquês de Santa Cruz, idealizador da "Invencível" Armada de 1588), a fortaleza de São Julião da Barra substancialmente ampliada e a plataforma de artilharia erguida no areal da Cabeça Seca (Bugio).


Planta hidrográfica da barra de Lisboa topografada em 1589 com indicação das trincheiras feitas pelos defensores espanhóis quando da "vinda dos ingleses". Alexandre Massai, "Discripcaõ Relaçaõ do Reino de Portvgal Segvndo Tratado", 1621 (Museu da Cidade, Lisboa)

Na mesma noite em que as forças de Drake tomaram a fortaleza de Cascais, este soube da chegada do General Norris e de D. António aos subúrbios de Lisboa.

O Inimigo às Portas de Lisboa: o breve cerco da capital


Após a longa marcha desde Peniche, D. António e as forças inglesas alojaram-se nas colinas dos Moinhos de Vento (Príncipe Real) e do Bairro Alto, onde permaneceram durante os breves mas intensos combates para penetrar as muralhas de Lisboa

Na manhã de 1 de Junho, dia de Corpo de Deus, Lisboa não celebrou a habitual procissão do Santíssimo Sacramento. Concentrando forças e precavendo-se de uma eventual sublevação popular, o exército espanhol coordenado pelo Vice-rei Alberto de Áustria e comandado pelo Capitão-geral conde de Fuentes recolheu para o interior dos muros da capital, distribuindo dezenas de companhias de infantaria pelas praças de armas improvisadas em Nossa Senhora da Graça, no Terreiro do Paço e no Rossio, assim como ao longo da muralha fernandina e entulhando as diversas portas e postigas. A cavalaria portuguesa, liderada por D. Francisco Mascarenhas, conde de Vila da Horta, foi encarregue de patrulhar as ruas da cidade, prevenindo qualquer alteração da ordem. O reforço da defesa da capital foi considerável: na véspera do desembarque inglês em Peniche, Lisboa contava com 6.680 soldados, já durante o ataque às muralhas da cidade, os efectivos atingiram perto de 12.000 homens (dos quais apenas 1.000 seriam portugueses). Os defensores possuíam, assim, quase o dobro de homens das foras atacantes.

Fora de muros, na Pampulha, as autoridades incendiaram deliberadamente os armazéns de cereais e derrubaram as casas enconstadas à muralha medieval no Bairro Alto, impedindo qualquer apoio às hostes invasoras na guerrilha urbana que se antevia.

Na tarde seguinte, após um breve reconhecimento dos bairros abandonados nos arrabaldes da capital, as tropas inglesas entricheiraram-se no casario entre os Moínhos de Vento (actual Rua da Escola Politécnica/Príncipe Real) e em Santa Catarina até à Esperança e Boavista, tomando posição estratégica no alto de uma das colinas de Lisboa facilmente defensável dominando grande parte da cidade e beneficiando de bons alojamentos, situando-se numa zona de eleição da nobreza com diversas quintas e solares. O General Norris estabeleceu o quartel-general improvisado na quinta dos Soares da Cotovia (actual R. da Escola Politécnica, onde hoje se ergue o edifício da Imprensa Nacional). Porém, os defensores espanhóis mantiveram os invasores debaixo de mira e os alojamentos ingleses foram alvo dos tiros da artilharia do castelo de São Jorge no lado oposto do vale, cujos disparos foram recebidos com aplausos e demonstrações de desprezo pelos sitiantes. Um dos tiros atingiu em cheio o quartel-general inglês "salpicando" D. António de cal e pedras, obrigando-o a escolher refúgio seguro mais abaixo, na Calçada do Combro.


Em São Roque e Santa Catarina (Bairro Alto) ocorreram os combates mais intensos na tentativa de assalto das tropas inglesas à capital. Actualmente, algumas ruínas da muralha medieval de Lisboa contíguas às antigas Portas de Santa Catarina encontram-se preservadas (Espaço Chiado, próximo do Teatro da Trindade)

Na madrugada de 3 de Junho, com apenas 200 portugueses reunidos a D. António desde o o desembarque em Peniche, o General Norris inicou o ataque aos muros da capital com uma incursão na igreja do Loreto no Bairro Alto, contígua à muralha fernandina. Aproveitando a baixa-mar, as tropas inglesas aproximaram-se da parte mais vulnerável da muralha na sua extremidade à beira-rio, enconstada ao imponente palácio dos Corte-Reais (ao Corpo Santo, e destruído no terramoto de 1755), propriedade do controverso D. Cristóvão de Moura. O assalto foi impedido, ironicamente, pela pequena nau espanhola María San Juan, única sobrevivente da "Invencível Armada" regressada a Lisboa, cujos tripulantes bascos puderam assim vingar a derrota do ano anterior, desencadeando um potente fogo de barragem juntamente com as galés.

Pouco depois do meio-dia, aproveitando a chegada de 500 soldados veteranos das guarnições do Porto, as forças espanholas dividiram o contra-ataque em duas frentes: pelas portas de Santo Antão saíram 500 arcabuzeiros e "piqueiros" apoiados por 3 companhias de cavalaria, que subiram a encosta da Anunciada ao longo da muralha até São Roque (actual Largo de São Roque ou da Misericórdia), enquanto um contingente de 200 "atiradores" ganhou o interior da igreja do Loreto, onde os ingleses que já tinham a porta da mesma arrombada foram repelidos pelos mosqueteiros no telhado, nas varandas e janelas da igreja de São Roque.

A luta ao redor da quinta da Cotovia revelou-se mais encarniçada, envolvendo-se as forças em luta corpo-a-corpo, depois de os espanhóis, aos gritos de "Viva elRey Dom Antonio!" terem momentaneamente confundido as tropas inglesas. Desalojadas as trincheiras inglesas, a cavalaria espanhola carregou, mas as ruas estreitas limitaram as suas manobras e sofreram fogo dos atirados inimigos situados nas janelas do casario, forçando os cavaleiros a retirar com algumas baixas e atropelando a própria infantaria. Foi necessário o reforço de 200 arcabuzeiros e 50 "piqueiros" para cobrir a sua retirada. A intensidade do contra-ataque inglês, aproveitando a retirada da cavalaria espanhola trouxe os combatentes de ambos os lados envoltos de volta às Portas de Santa Catarina (actual Largo de Camões), frente às quais o conde de Essex desafiou a guarnição defensora a sair e combater. Após este breve mas intenso ocombate, ambos os lados contaram cerca de 40 mortos, entre os quais vários oficiais. Os ingleses enterraram um dos seus capitães em Santa Catarina com muitas cerimónias, enquanto os feridos espanhóis foram transportados para o Hospital Real de Todos os Santos (actual Praça da Figueira).

Contudo, durante esta acção a armada de Drake mantivera-se bem longe, não subindo o Tejo para o encontro combinado com as forças de Norris em Lisboa. Sem este apoio, a situação das tropas inglesas rapidamente se tornou insustentável. O General Norris levantou campo ao final da tarde de domingo dia 4 de Junho e retirou-se furtivamente de madrugada deixando várias fogueiras acesas para iludir os sitiados. Sem o esperado apoio popular e face aos reforço constante da cidade pelas forças espanholas através do Rio Tejo, os comandante ingleses decidiram não arriscar e prosseguiram ao reencontro de ambos em Cascais para decidirem os próximos objectivos.

Para D. António, este foi um efémero e amargo regresso, esfumando-se as esperanças de uma sublevação que o ajudaria a recuperar o trono de Portugal. Filipe II de Espanha (I de Portugal) impedira com sucesso a capital portuguesa de receber o "pobre rei" português exilado, "sem a qual (cidade) o mesmo se encontra arruinado", nas palavras de um dos participantes da expedição inglesa.
"E se os antigos portugueses, e ainda os modernos, não foram tão pouco afeiçoados à escritura como são, não se perderiam tantas antiguidades entre nós (...), nem houvera tão profundo esquecimento de muitas coisas".
Pero de Magalhães de Gândavo, História da Província Santa Cruz, 1576
 

*

HSMW

  • Moderador Global
  • *****
  • 8557
  • Recebeu: 787 vez(es)
  • Enviou: 1299 vez(es)
  • +86/-34
    • http://youtube.com/HSMW
Re: A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589
« Responder #2 em: Agosto 31, 2010, 01:35:41 pm »
Excelentes textos! Bem vindo ao fórum João Vaz.  :G-beer2:
http://www.youtube.com/profile_videos?user=HSMW

"Tudo pela Nação, nada contra a Nação."
 

*

Cabeça de Martelo

  • Investigador
  • *****
  • 15017
  • Recebeu: 1004 vez(es)
  • Enviou: 945 vez(es)
  • +171/-168
Re: A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589
« Responder #3 em: Agosto 31, 2010, 04:39:44 pm »
Sem dúvida! :G-beer2:
7. Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais que os outros.

 

*

João Vaz

  • 193
  • +1/-0
Re: A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589
« Responder #4 em: Setembro 01, 2010, 11:10:05 am »
Agradeço e retribuo os cumprimentos aos novos colegas virtuais  :wink: . E confesso que deixei por falta de tempo ontem as últimas partes desta minha investigação para publicar agora (antes tarde que nunca). Aqui vão:

PARTE III - Derrota e Desilusão

As últimas tropas inglesas que formavam a retaguarda em retirada de Lisboa, em que seguiu D. Manuel de Portugal (filho de D. António) e a cavalaria inglesa partiram na madrugada de 5 de Junho, quando já a vanguarda onde se encontrava D. António passava por Alcântara, cenário da derrota de 1580 frente às tropas espanholas que levou à tomada de Lisboa. A bom passo e por terrenos agrestes, fora dos caminhos mais percorridos devido ao fogo das galés espanholas que os bombardearam novamente, as forças inglesas dirigiram-se para Cascais onde chegaram na mesma noite. Desconfiado, o Capitão-geral da gente de guerra Conde de Fuentes atrasou a saída das tropas defensoras de Lisboa receando uma emboscada., mas envia umas companhias soltas de arcabuzeiros a cavalo e de ginetes (cavalaria ligeira) em perseguição fazendo algumas vítimas e mantendo a vigilância.


D. Manuel de Portugal, filho de D. António Prior do Crato, integrou a expedição inglesa de 1589 e mais tarde, com o seu irmão D. Cristóvão acompanharam a armada inglesa liderada pelo Conde de Essex contra Cádiz em 1596

Entretanto, em Lisboa, os pedidos insistentes do Conde de Vila da Horta para sair com a cavalaria portuguesa foram ignorados pelo Conde de Fuentes, que os deixou preparados na praça do Rossio sem, contudo, avisá-los da sua saída. Os desentendimentos com o Conde de Fuentes não impediram o general português de se juntar a ele pouco depois na perseguição aos ingleses e a D. António até Oeiras, mas atingem Cascais já tarde no dia 7, com o inimigo entrincheirado na vila e no Mosteiro de Santo António, conseguindo apenas interceptar os retardatários no caminho e nas quintas dos arredores. No dia seguinte o Conde de Fuentes regressou a Lisboa, não sem antes recusar novo desafio pessoal do Conde de Essex para um combate organizado entre as forças adversárias, invocando a impossibilidade de aceitar batalha sem ordem do Rei.


As tropas espanholas asseguraram a defesa de Lisboa adoptando uma táctica passiva com um mínimo de confrontos, deixando os invasores ingleses enfraquecer-se devido às próprias limitações logísticas e à fraca qualidade do contingente militar. (painel de azulejos do Palácio dos Marqueses de Bazán, em Ciudad Real)

Nos dias seguintes, os oficiais espanhóis discutem em Lisboa sobre a melhor maneira de destruir a armada inglesa, enquanto se abrem trincheiras ao longo dos possíveis desembarcadouros na margem Norte do Tejo, e os reforços se acumulam na capital, de entre os quais sobressaía o Duque de Bragança D. Teodósio e o seu irmão à frene de uma hoste de 1.000 homens de pé e 200 cavaleiros. Por seu lado, os ingleses preparam em Cascais o reembarque das tropas, após se terem recomposto com o gado recolhido nas redondezas da vila e de saquearem Colares e Sintra, de onde trouxeram armas e dinheiro. A armada de Sir Francis Drake apresou ainda uma imprudente frota de 60 navios hanseáticos carregados de cereais destinados a Lisboa, mas de pouco valeu a carga, pois a cavalaria portuguesa destruíra as mós dos moínhos em Oeiras e em Barcarena.

Embora ao longo do caminho para Lisboa as guarnições de Peniche, Torres Vedras e Cascais se tenham entregue praticamente sem resistência, as forças inglesas não foram suficientes nem para entrar na capital, nem para obter apoio popular à desejada sublevação portuguesa contra as autoridades espanholas. Em apenas 3 semanas de operações, as hostes inglesas haviam sofrido perto de 4.000 baixas devido a deserções, doença e combates, desde o cerco da Coruña. Confrontado com a sólida defesa organizada pelas forças militares espanholas, Drake saqueou a vila de Cascais e incendiou o castelo, partindo no dia 18 de Junho rumo ao Cabo de São Vicente com 8.500 sobreviventes.

Porém, na viagem de regresso da costa algarvia uma semana depois, a armada inglesa foi interceptada depois de temporariamente imbolizada por uma calmaria ao largo do Cabo Espichel pelas 15 galés espanholas estacionadas no Tejo comandadas pelo Adelantado Mayor de Castela D. Martín de Padilla Manrique (futuro Capitão-geral da Armada do Mar Oceano) e, numa acção inédita na carreira de Drake, este perde 5 navios em combate (3 afundados e 2 incendiados) que durou 3 horas com as forças defensoras na perseguição movida ao largo da costa portuguesa.

Entretanto, alguns navios ingleses enviados a recolher as tropas deixadas em Peniche são recebidos com tiros de artilharia da guarnição espanhola. Descobrem então que o capitão inglês a cujas ordens ficaram os últimos ingleses já havia partido para Inglaterra, abandonando 300 soldados à sua sorte.


Apesar da superioridade dos navios ingleses de alto-bordo sob Drake, as fortes defesas da barra do Tejo dissuadiram o avanço da armada inglesa até Lisboa (pormenor de um galeão espanhol num óleo sobre tela representando a derrota da "Invencível" Armada)

Pouco depois, o mau tempo obrigou ao cancelamento do desembarque inglês nas ilhas dos Açores, último objectivo da expedição. Poucas semanas depois, no início de Julho, as cobiçadas naus da Índia ancoraram na Baía de Angra, na ilha Terceira, onde aguardaram em segurança o regresso a Lisboa. Finalmente, a armada de Drake pôs-se em fuga e abandonou o litoral português rumo a Inglaterra, não sem antes saquear e incendiar Vigo, na Galiza. A 10 de Junho, Drake e D. António aportaram em Plymouth, trazendo os navios em mau estado e as tropas em situação miserável. Poucos dias depois estalaram motins e distúrbios entre os soldados que reclamaram soldos em atraso. Em Londres, o Secretário de Estado Walsingham escreveu a D. António, aconselhando-o prudentemente a partir para França pois caíra em desfavor na Corte inglesa.


A antiga abadia de Buckland (Devon, Sul de Inglaterra), lar de dois grandes corsários ingleses, Sir Richard Grenville e Sir Francis Drake (que a adquiriu ao primeiro), foi lugar de reunião entre o pretendente ao trono português no exílio D. António e o próprio Drake na preparação das iniciativas contra Filipe II de Espanha.

Em Lisboa, celebrou-se a 20 de Julho uma procissão de acção de graças entre a Sé e São Francisco, na qual participaram todas as ordens religiosas, confrarias e gente "principal" e se transportou uma imagem de Nossa Senhora da Guia mutilada pelos ingleses, proveniente de uma ermida de Cascais. Seis semanas depois, a população de Roma assistiu ao regozijo do Papa Sixto-Quinto com a boa nova da retirada da expedição inglesa de Portugal, compondo pessoalmente um salmo e várias preces e liderando 36 cardeais e toda a Corte Pontifícia em mais uma procissão até à igreja de Sant'Antonio dei Portoghesi.
"E se os antigos portugueses, e ainda os modernos, não foram tão pouco afeiçoados à escritura como são, não se perderiam tantas antiguidades entre nós (...), nem houvera tão profundo esquecimento de muitas coisas".
Pero de Magalhães de Gândavo, História da Província Santa Cruz, 1576
 

*

João Vaz

  • 193
  • +1/-0
Re: A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589
« Responder #5 em: Setembro 01, 2010, 11:20:29 am »
PARTE IV - Desfecho e Consequências

Em Inglaterra, a Rainha Isabel não poupou Sir Francis Drake pelo fracasso da expedição, sobretudo pela incapacidade em forçar a barra do Tejo para se reunir às tropas de Sir John Norris. Em resultado, o famoso corsário e almirante inglês cumpriu um desterro da Corte isabelina - e dos mares - durante 6 longos anos. Drake comprometera o resultado da grande armada inglesa e mostrara indisciplina face às ordens da Rainha no cumprimento dos objectivos. Ele e Norris foram incapazes de se justificar perante o Conselho Privado da Rainha das acusações de desvio dos objectivos previstos em proveito próprio. A destruição dos navios sobreviventes da "Invencível" Armada refugiados sobretudo no porto de Santander não foi cumprida.


Relato testemunhal de Anthony Wingfield, A Trve Coppie of a Discourse written by a gentleman, employed in the late voyage of Spaine and Portingale... (London, 1589) disponível online. Exemplar na Kraus Collection of Sir Francis Drake, actualmente na Biblioteca do Congresso (Washington DC). Outro relato, em latim (na mesma colecção): Ephemeris expeditionis Norreysij & Draki in Lusitaniam (London, 1589)

A expedição de 1589 poderia ter sido decisiva na Guerra Anglo-Espanhola. A reconquista de Lisboa teria obrigado Filipe II a desviar tropas de outras frentes de guerra e poderia ter levado À negociação de tréguas segundo condições inglesas. De posse desta importante base naval e centro marítimo, a Inglaterra beneficiaria da colaboração das forças navais portuguesas garantindo, a curto prazo, o domínio dos mares e ameaçando seriamente os circuitos comerciais transatlânticos da Monarquia Hispânica. Contudo, a falta de preparação das tropas e de material, aliados à dissociação de interesses da Coroa e dos particulares que ajudaram a financiar a expedição a Portugal, ficaram patentes os limites de acção do emergente poder naval inglês.

Para o fracassso contribuiram, para além das negligências individuais dos comandantes, as crónicas insuficiências logísticas comuns às armadas ingleses desse período. Criara-se um equilíbrio de forças momentâneo no Atlântico, pois a Espanha ainda recuperava do fracasso da "Invencível" Armada de 1588 e reconstruia as suas forças navais. A guerra no mar contra Filipe II recrudesceria na década seguinte sobretudo com recurso aos navios corsários navegando sob bandeira de D. António contra a marinha mercante ibérica. Mas o receio inglês de novas grandes armadas espanholas continuou tão vivo como em 1588.

A própria questão do fortíssimo antagonismo religioso entre Católicos e Protestantes havia sido correctamente previsto pelo líder espiritual da Revolta dos Países Baixos (Philippe Marnix de Sainte-Aldegonde), ao recusar o convite de D. António para integrar a expedição e estabelecer a liberdade de culto em Portugal, invocando as inevitáveis animosidades e fortes desconfianças dos católicos portugueses.


Isabel I de Inglaterra e Filipe II de Espanha (I de Portugal) protagonizaram uma escalada militar que culminou na Guerra Anglo-Espanhola. As armadas espanhola e inglesa defrontaram-se entre 1585 até à morte de ambos os monarcas. Embora a "Invencível" (ou Grande) Armada de 1588 tenha sofrido um sério revés, o poder naval espanhol conseguiu recuperar e reformar-se, prolongando a guerra no mar até ao início de Seiscentos

Filipe II de Espanha (D. Filipe I de Portugal) manteve, através do Vice-Rei Alberto de Áustria, o controle firme de Lisboa e do território português. As grandes armadas espanholas mantiveram a Inglaterra em alerta mesmo após a derrota da "Invencível" Armada de 1588. O seu principal adversário português, D. António Prior do Crato perdeu todas as batalhas contra as forças espanholas, desde Alcântara (1580) até até à derradeira batalha de Lisboa (1589).

Numa das suas derradeiras cartas à Rainha Isabel I, D. António prometia não desistir de regressar a Portugal e procurou auxílio junto do Rei Henrique IV de França, mas sem sucesso pois não passou da fase de planeamento. A 26 de Agosto de 1595, dois dias antes da partida última expedição de Drake, D. António morreu em Paris na miséria. O seu conhecido e apoiante já idoso e apelidado pelos espanhóis de "Francisco Draque el viejo" morreria pouco tempo depois, em Janeiro de 1596 a bordo do seu navio no Mar das Caraíbas, onde iniciara a sua longa luta contra Espanha. Finalmente, no ano seguinte, o General Sir John Norris, último dos três protagonistas da expedição de 1589, já enfraquecido pela doença no regresso de Portugal, sucumbiu às velhas feridas de guerra na Irlanda.

«Amigos de Peniche»?

A história da expedição inglesa de 1589 padece ainda hoje de uma herança enganosa e redutora. Segundo alguns autores do séc. XX, a expressão popular amigos de Peniche deve a sua origem à falta de apoio dos ingleses no regresso de D. António a Portugal, numa acepção pejorativa de falsos amigos apenas interessados em saquear. Contudo, apesar de os ingleses terem retirado sem conseguirem de facto ajudar a causa de D. António, a origem da expressão não terá sido, até prova documental em contrário, contemporânea da expedição ou sequer relativa à mesma. Mais provavelmente, terá que ver com o desembarque das forças liberais em 1833 (aproveitando a fuga da guarnição do partido absolutista), consumado com actos de vandalismo e agressões a populares, atingindo sobretudo as igrejas, mutilando imagens e altares.


Fontes Publicadas

HAKLUYT, Richard, The Principal Navigations, Voyages, Traffiques and Navigations of the English Nation, London: The Hakluyt Society, vol. VII (London: 1907).

LIMA, Durval Pires de, "O ataque dos ingleses a Lisboa em 1589 contado por uma testemunha...", in Lisboa e seu Termo: Estudos e Documentos, Associação dos Arqueólogos Portugueses, vol. I (Lisboa: 1948).

Memorial de Pero Roiz Soares (1565-1628), publicado por M. Lopes de Almeida, Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 1963.

WERNHAM, Richard B. (ed.), The Expedition of Sir John Norris and Sir Francis Drake to Spain and Portugal in 1589, Aldershot: 1988.


Estudos Principais

CAEIRO, Francisco, O Arquiduque Alberto de Áustria, Vice-Rei e Inquisidor-mor de Portugal, Cardeal Legado do Papa, Governador e depois Soberano dos Países Baixos, Lisboa: edição do autor, 1961.

CASTRO, José de, O Prior do Crato, Lisboa, 1942.

MacCAFFREY, Wallace T., Elizabeth I: War and Politics, 1588-1603, Princeton, New Jersey: Princeton University Press, 1994 (2.ª ed.).

VAZ, João Pedro, Campanhas do Prior do Crato, 1580-1589: entre Reis e Corsários pelo Trono de Portugal, col. Batalhas de Portugal - 19, Lisboa: Tribuna da História, 2005.

VAZ, João Pedro e FONSECA, Luís Falcão da, "Sir Francis Drake and the «Poor King» D. António: the Portugal Voyage of 1589", in The British Historical Society of Portugal 23rd. Annual Report and Review 1996(Lisbon, 1997), pp. 25-53.
"E se os antigos portugueses, e ainda os modernos, não foram tão pouco afeiçoados à escritura como são, não se perderiam tantas antiguidades entre nós (...), nem houvera tão profundo esquecimento de muitas coisas".
Pero de Magalhães de Gândavo, História da Província Santa Cruz, 1576
 

*

papatango

  • Investigador
  • *****
  • 5512
  • Recebeu: 9 vez(es)
  • +18/-0
    • http://www.areamilitar.net
Re: A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589
« Responder #6 em: Setembro 01, 2010, 02:28:30 pm »
Só umas pequenas questões:


Que tropas espanholas são essas, já que o que havia em Portugal era a guarda Tudesca (alemães e austriacos) e mercenários italinos ?
Seria interessante explicar porque havia tão poucos dispostos a lutar. Já agora, o que acontece quando um mercenário deixa de receber o soldo ?
Também seria interessante explicar o que aconteceu com o exército do Duque de Bragança, que acorreu para lutar contra as tropas de D. António. O exército reunido por D. Teodósio, Duque de Bragança tinha entre 6.000 a 12.000 homens.

A intervenção dos «espanhois» que como sabemos na sua maioria nem sequer eram espanhois nem de qualquer reino da peninsula,foi minima.
Quem ganhou o confronto foi o Duque de Bragança, que preferiu defender o rei Habsburgo de Madrid, que lhe concedia grandes benefícios (que o comprou) em vez de defender a independência de Portugal.
E o conflito de 1589, foi acima de tudo resultado do ódio de morte que D.Teodósio (Duque de Bragança) nutria por D. António (Prior da ordem do Crato).
D. Teodosio sabia perfeitamente que se D. Antonio tomasse o poder em Lisboa, tudo o que pertencia à Casa de Bragança (a família nobre mais rica de toda a peninsula ibérica) seria perdido.
D. Teodósio o Duque de Bragança, não lutou sequer contra Portugal, ou pela Espanha, lutou sim para manter as suas riquezas.

Como a casa de Bragança voltou ao poder em Portugal após 1640, a participação aviltante do duque ao lado dos Habsburgos espanhóis foi sendo esquecida e desvalorizada.
A coroa castelhana (sobre a qual recaia o peso das despesas militares de toda a coroa, já desde o tempo de Carlos V - como o próprio Carlos V afirmava ) estava falida e era incapaz de pagar aos mercenários para defender qualquer área de Portugal. Por isso, só quem poderia ajudar a manter o Satus Quo eram as elites portugueses, com a Casa de Bragança à cabeça.

Filipe II disse em 1581, A Portugal herdei-o, conquistei-o e comprei-o.


O resto, é conversa...
 

*

João Vaz

  • 193
  • +1/-0
Re: A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589
« Responder #7 em: Setembro 01, 2010, 06:39:24 pm »
Caro papatango, realmente nada como boas questões para uns bons esclarecimentos. Não admira, pois este é um período histórico ainda mal estudado e pejado de preconceitos e desconhecimentos. Como deverá imaginar, todas essas questões foram objecto de apreciação e investigação durante o meu trabalho neste e noutros livros, a partir de arquivos tanto portugueses, como espanhóis.

Vamos então por partes:

Citação de: "papatango"
Que tropas espanholas são essas, já que o que havia em Portugal era a guarda Tudesca (alemães e austriacos) e mercenários italinos ?...

Ora, as tropas espanholas eram isso mesmo: destacamentos das forças militares da Coroa de Espanha (leia-se profissionais e não mercenários)  em Portugal. Esta foi, aliás, uma das principais violações dos Acordos de Tomar assinados em 1581 na investidura de Filipe II enquanto D. Filipe I de Portugal, ou seja, a ausência de tropas estrangeiras da força dominante. Obviamente, sem essas tropas, nunca teria sido possível à Coroa de Espanha dominar Portugal. A força de ocupação espanhola era formada nem mais nem menos do que por alguns dos famosos Tercios, ou Terços em português, e dividiam-se em companhias, das quais existem dezenas de "livros de mostra" no Arquivo da Torre do Tombo contabilizando mês a mês os efectivos e os pagamentos, a nível individual e pormenores quanto às movimentações das companhias e dos Tercios. Estas tropas espanholas formaram as guarnições das fortificações continentais e das ilhas adjacentes. Possuíam uma hierarquia bem definida, encabeçada pelo Capitão-Geral da Gente de Guerra do Reino e por um Mestre de Campo Geral do Reino residente no castelo de São Jorge. Ambos os cargos resultam da manutenção em Portugal das forças militares espanholas enquanto durou o domínio dos reis Filipes, ou seja, até 1640.

Tanto os oficiais, como os soldados da maioria dos Tercios eram espanhóis. Existiram, como sempre sucedeu ao longo de Quinhentos, companhias e até Terços inteiros de tropas alemãs e italianas, com algumas companhias soltas de flamengos, irlandeses e escoceses (estes sim, não regulares mas a sua força era mínima). Algumas unidades de veteranos do famoso Exército da Flandres (o maior e melhor exército de todo o século XVI na Europa) integraram as forças invasoras (sendo o Tercio de Flandres o mais reputado), e pouco depois lideraram a tomada da ilha de São Miguel (1582) e da Terceira (1583), incluindo unidades de infantaria de marinha (os predecessores dos fuzileiros), no caso do Tercio de Nápoles. A Guarda Tudesca do rei já existia em Lisboa anteriormente à invasão espanhola mas, tanto quanto se sabe, não viu combate pois tratava-se de uma simples guarda de honra, além dos seus efectivos serem mínimos. No decurso da expedição inglesa de 1589, as poucas tropas portuguesas que intervieram fizeram-no apenas como auxiliares e, mais uma vez, foram controladas pela hierarquia espanhola ao ponto de quase não entrarem em combate. Sobre este tema das forças militares espanholas em Portugal poderei em breve quantificar os efectivos e terei todo o gosto em partilhar aqui esses resultados. Acho surpreendente que hoje em dia só nós neste cantinho à beira-mar ainda não reconheçamos os factos acerca da potência ocupante em Portugal e da sua máquina militar, tanto terrestre, como naval.

Resumindo, a acção das forças espanholas não foi "mínima", foi, isso sim, unica e totalmente responsável pela defesa da capital e pelo domínio do território. A missão das guarnições espanholas (que, após a conquista de Portugal e tomada dos Açores, se resumiu a cerca de 11.000 - 12.000 soldados) era dupla: consistia na controle do território contra eventuais sublevações internas enquanto mantinham a segurança contra ameaças externas. Recordemos - e para isso bastará ler com atenção os meus textos, não somente os que coloquei nos "posts" acima, como no livro referido, onde encontrará todas as notas necessárias - que para o fracasso da expedição inglesa contribuiram o mau planeamento e a péssima logística da parte de uma força conjunta entre interesses privados (comerciais) e de Estado (militares). As chefias e as forças militares espanholas em Portugal souberam tirar o maior partido dessas deficiências.

Citação de: "papatango"
Seria interessante explicar porque havia tão poucos dispostos a lutar. Já agora, o que acontece quando um mercenário deixa de receber o soldo ?

Duas razões explicam a falta de apoio popular à expedição inglesa em favor de D. António: a repressão eficaz (hoje chamar-se-ia "contra-insurreição") e o medo generalizado. Ambos provocados pela extensa rede de informações de Filipe II e que se encontram amplamente documentados, com prisões indiscriminadas, deportações e execuções de todos os potenciais partidários de D. António contra Espanha. Aqui também não se deverá omitir o papel das elites que, grosso modo, contribuiram para a pacificação forçada do reino através da sua vassalagem pública prestada em 1581 nos Acordos de Tomar para com Filipe II enquanto D. Filipe I de Portugal. As inevitáveis rivalidades e colaborações da maior parte da nobreza dificultaram ainda mais a articulação de uma sublevação.

Quanto à questão dos "mercenários", confesso não entender como isso cabe neste tópico, uma vez que não houve da parte espanhola qualquer envolvimento militar fora do âmbito profissional. Uma vez mais, não há qualquer referência nas diversas fontes portuguesas, espanholas, italianas e inglesas que consultei. O teatro de operações convencional dos mercenários circunscrevia-se sobretudo à Europa Central, entre os Países Baixos, as Províncias Unidas, a França e aos estados italianos.

Citação de: "papatango"
Também seria interessante explicar o que aconteceu com o exército do Duque de Bragança, que acorreu para lutar contra as tropas de D. António. O exército reunido por D. Teodósio, Duque de Bragança tinha entre 6.000 a 12.000 homens.

Esta questão não se colocou nesses termos. Aliás, quem escolheu e acedeu prestar vassalagem ao candidato mais poderoso ao trono de Portugal não foi o jovem D. Teodósio, mas sim sua mãe a Duquesa D. Catarina. Obviamente, o facto de Filipe II ter pago o resgate de D. Teodósio ainda adolescente prisioneiro após Alcácer-Quibir contribuiu muito para essa conclusão (para além do facto de, segundo as leis sucessórias da época, as mulheres perderem sempre para os homens na candidatura ao trono).
A participação na defesa de Lisboa em 1589 do Duque de Bragança à frente da sua famosa comitiva de 10 ou 12.000 camponeses bem vestidos mas mal armados e completamente "maçaricos" apenas reforçou a sua lealdade ao rei espanhol, compreensível dado os interesses mútuos. Tratava-se mesmo de uma obrigação sua em apoio do seu soberano legitimado. A questão de uma hipotética sucessão de D. Teodósio de Bragança ao trono de Portugal contra Filipe II simplesmente nunca se colocou. Finalmente, não se tratou de "vitória" de D. Teodósio de Bragança porque:
a) as suas forças já chegaram tarde demais para intervir, visto que os ingleses haviam levantado o cerco à capital. A sua contribuição prática foi nula, para além de vistosa. Os próprios testemunhos e cronistas dos acontecimentos pouca atenção prestam.
b) o Duque nunca demonstrou interesse em liderar uma sublevação, nem sequer dispunha de apoio para tal, ao contrário do imenso partidarismo popular à causa de D. António, assim como da comunidade cristã-nova (na maioria grandes comerciantes) e do baixo clero incluindo alguns fidalgos e membros da nobreza.

Citação de: "papatango"
A intervenção dos «espanhois» que como sabemos na sua maioria nem sequer eram espanhois nem de qualquer reino da peninsula,foi minima.
Quem ganhou o confronto foi o Duque de Bragança, que preferiu defender o rei Habsburgo de Madrid, que lhe concedia grandes benefícios (que o comprou) em vez de defender a independência de Portugal.
E o conflito de 1589, foi acima de tudo resultado do ódio de morte que D.Teodósio (Duque de Bragança) nutria por D. António (Prior da ordem do Crato).
D. Teodosio sabia perfeitamente que se D. Antonio tomasse o poder em Lisboa, tudo o que pertencia à Casa de Bragança (a família nobre mais rica de toda a peninsula ibérica) seria perdido.
D. Teodósio o Duque de Bragança, não lutou sequer contra Portugal, ou pela Espanha, lutou sim para manter as suas riquezas. Como a casa de Bragança voltou ao poder em Portugal após 1640, a participação aviltante do duque ao lado dos Habsburgos espanhóis foi sendo esquecida e desvalorizada.


Não há nada nos arquivos, ou em qualquer estudo da época que aponte para um alegado "ódio de morte" de D. Teodósio, Duque de Bragança contra D. António Prior do Crato.

Citação de: "papatango"
A coroa castelhana (sobre a qual recaia o peso das despesas militares de toda a coroa, já desde o tempo de Carlos V - como o próprio Carlos V afirmava ) estava falida e era incapaz de pagar aos mercenários para defender qualquer área de Portugal. Por isso, só quem poderia ajudar a manter o Satus Quo eram as elites portugueses, com a Casa de Bragança à cabeça.

Esta afirmação não encontra qualquer fundamento nas análises históricas nem nos extensos fundos de arquivos investigados. Além de ser confuso (não houve "mercenários", mas sim forças regulares da Coroa de Espanha em Portugal), as elites portuguesas tinham interesses próprios compatíveis com os de Filipe II na sua gestão do domínio espanhol em Portugal. Recordemos que o rei se encontrou quase sempre ausente e por isso as elites reforçaram algum do seu poder (excepto o militar, por razões óbvias) nos respectivos territórios da nobreza.

Caro papatango, a minha reconstituição e análise da campanha inglesa de 1589 a Portugal deve-se a uma década de estudos, investigações, debates prolongados sobre estes temas tão mal estudados da máquina militar e naval em Portugal durante o final de Quinhentos. E a primeira evidência absoluta e inabalável é justamente a co-existência de uma máquina administrativa e militar dupla, portuguesa e espanhola sediada em Lisboa...à imagem da Monarquia Dual luso-espanhola que caracterizou a União Ibérica iniciada em 1580. Enquanto não nos libertarmos de alguns velhos fantasmas, podemos investigar e revelar muito mas as opiniões continuarão a ofuscar os factos. O que é uma pena  c34x
"E se os antigos portugueses, e ainda os modernos, não foram tão pouco afeiçoados à escritura como são, não se perderiam tantas antiguidades entre nós (...), nem houvera tão profundo esquecimento de muitas coisas".
Pero de Magalhães de Gândavo, História da Província Santa Cruz, 1576
 

*

papatango

  • Investigador
  • *****
  • 5512
  • Recebeu: 9 vez(es)
  • +18/-0
    • http://www.areamilitar.net
Re: A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589
« Responder #8 em: Setembro 02, 2010, 12:39:09 am »
Citar
Ora, as tropas espanholas eram isso mesmo: destacamentos das forças militares da Coroa de Espanha (leia-se profissionais e não mercenários) em Portugal. Esta foi, aliás, uma das principais violações dos Acordos de Tomar assinados em 1581 na investidura de Filipe II enquanto D. Filipe I de Portugal, ou seja, a ausência de tropas estrangeiras da força dominante. Obviamente, sem essas tropas, nunca teria sido possível à Coroa de Espanha dominar Portugal.

Meu caro João Vaz, permita-me que em primeiro lugar coloque as coisas no seu contexto:

Em 1589 não havia nenhuma Coroa de Espanha.
Não havendo Coroa de Espanha, logo não poderia haver tropas da Coroa de Espanha.

Em segundo lugar, no século XVI, o soldado profissional é por natureza e definição um MERCENÁRIO.
As tropas mercenárias, são constituídas por soldados de Elite, que têm a guerra como profissão.
É a primeira coisa que deve entender quando estuda a guerra no século XVI. O Mercenário, é o soldado de Elite, porque evidentemente ninguém paga a um mercenário se ele não for um bom soldado e não tiver experiência.

Portanto, não entendo a sua expressão «leia-se profisionais e não mercenários».

No século XVI não há tropa profissional que não seja mercenária. Mercenário, é o nome que se atribui ao militar que vende os seus serviços como militar a um senhor. No século XVI e até ao século XIX não há o conceito de Nação e de serviço à Nação. Há apenas o conceito de serviço ao Senhor. Seja Rei, Duque, Conde ou Bispo.

Desde o período de Carlos V, que a maior parte das tropas de elite da Coroa dos Habsburgos são militares mercenários católicos de origem germânica.
Fora os militares de origem germânica, havia também bastantes italianos dos estados do Sul de Itália além de holandeses católicos (ou flamengos para ser mais correcto).

Na Península ibérica, a principal força militar da Coroa de Castela e Leão (A principal potência militar de entre os países da península ibérica) era constituída por Galegos.
A Galiza era uma região rica em termos de agricultura e por isso tinha uma grande densidade populacional. Mas como havia muita gente, os segundos, terceiros e restantes filhos não herdavam e isso levava-os a imigrar, sendo o serviço militar uma das soluções.

Dos reinos da Coroa de Aragão não havia grande numero de militares para forças terrestres. Tanto a Catalunha como o reino de Valência eram Talassocracias, muito mais interessadas em aumentar e manter o seu poder naval. Normalmente mandavam o rei em Madrid dar uma volta quando este pedia dinheiro para tropas.

É por isso que a Coroa de Castela é praticamente a única que contribui sempre para o esforço militar. É assim desde Carlos V, que fala dos «meus pobres e fiéis súbditos castelhanos», os únicos que ainda pagam as despesas dos seus exércitos.
É também isso que explica as revoltas separatistas da Andaluzia em meados do século XVII, protestando contra a injustiça a que os castelhanos estavam submetidos, por pagarem muito mais que os outros reinos da Coroa dos Habsburgos.
Citar
A força de ocupação espanhola era formada nem mais nem menos do que por alguns dos famosos Tercios, ou Terços em português, e dividiam-se em companhias, das quais existem dezenas de "livros de mostra" no Arquivo da Torre do Tombo contabilizando mês a mês os efectivos e os pagamentos, a nível individual e pormenores quanto às movimentações das companhias e dos Tercios

Como você mesmo disse, uma das exigências nas Cortes de Tomar era que o Reino continuasse a ter as suas próprias defesas e forças. Em parte isso aconteceu e é por isso que havia muito poucas tropas directamente dependentes da Coroa em Portugal.
Aliás, não acha estranho que tendo em 1589 a Coroa dos Habsburgos problemas tão graves (a coroa estava praticamente falida por causa das despesas com a Armada), conseguisse ainda assim dinheiro para sustentar os Terços em Portugal ?

E se essas forças eram realmente poderosas, e os documentos a que alude  não constituíam apenas (confirmando a ilustre  tradição portuguesa de roubar utilizando a burocracia) um artifício para justificar o envio de ouro desde Madrid para Lisboa para os braços da nobreza corrupta, então porque D. Teodósio, Duque de Bragança,  armou primeiro um exército de 6.000 homens e depois um segundo exercito de 13.000 às suas próprias custas (pago pela Casa de Bragança) para defender o Reino ?
(in Oliveira Martins, Guimarães Editores p.308).

As forças comandadas pelo Duque de Alba, enviadas contra Portugal em 1580, eram sem dúvida  forças poderosas, constituídas pelos melhore mercenários alemães e italianos, MAS NENHUM EXÉRCITO mantém uma força de elite numa região ocupada, ainda mais quando conseguiu através da corrupção, comprar a nobreza mais influente.

= = =
Citar
Tanto os oficiais, como os soldados da maioria dos Tercios eram espanhóis. Existiram, como sempre sucedeu ao longo de Quinhentos, companhias e até Terços inteiros de tropas alemãs e italianas, com algumas companhias soltas de flamengos, irlandeses e escoceses (estes sim, não regulares mas a sua força era mínima).
= = =

Será como diz, mas veja o que nos diz Domingos Ortiz na sua obra «três milénios de História de Espanha»:
«En los momentos culminantes España llegó a tener en Flandes cerca de ochenta mil hombres, pero apenas la tercera parte eran españoles;
el resto, italianos, alemanes y flamencos, y a finales del siglo también ingleses e irlandeses.
Era la mejor fuerza armada que había en el mundo, pero profesional, costosa; si faltaban las pagas se relajaba la disciplina, se producían motines y a veces se produjo el lamentable espectáculo de los saqueos de ciudades; el más famoso, el de Amberes en 1576,consecuencia directa de la bancarrota estatal del año precedente, que había bloqueado el envío de numerário.


Quer dizer-nos o que aconteceu em termos de pagamentos às tropas reais exactamente no ano de 1589, aquando do ataque dos ingleses e relacionar o ocorrido com o paragrafo em que o historiador espanhol afirma que quando não recebiam pagamento as tropas eram indisciplinadas e chegavam a saquear as cidades ? ? ? ?

Quer relacionar o facto com a urgente tomada de posição de Dom Teodósio, organizando à pressa um exército constituido exclusivamente por portugueses para atacar os ingleses  ?
Se alguns dos famosos Tercios de elite estavam em Portugal, numa altura em que a coroa cortava nos salários porque estava quase falida, não acha estranho que o homem mais rico da península ibérica tivesse que pagar um exército do seu próprio bolso ?
Lembre-se que falamos de 1589, um ano a seguir à derrota da armada invencível e não de 1580. As tropas de elite de 1580/1581 foram-se todas embora após a saída do rei em 1583 (se não me equivoco).

A ideia de que os portugueses não participaram no conflito é apenas resultado da tradição histórica da Espanha castelhana de menosprezar qualquer participação militar portuguesa em todo e qualquer acontecimento. Essa tradicional arrogância que às vezes chega a roçar o patético por parte dos espanhóis, também tem que ser considerada por nós quando analisamos este tipo de temas.

Citar
Citar
A coroa castelhana (sobre a qual recaia o peso das despesas militares de toda a coroa, já desde o tempo de Carlos V - como o próprio Carlos V afirmava ) estava falida e era incapaz de pagar aos mercenários para defender qualquer área de Portugal. Por isso, só quem poderia ajudar a manter o Satus Quo eram as elites portugueses, com a Casa de Bragança à cabeça.
Esta afirmação não encontra qualquer fundamento nas análises históricas nem nos extensos fundos de arquivos investigados. Além de ser confuso (não houve "mercenários", mas sim forças regulares da Coroa de Espanha em Portugal),

Quanto aos mercenários, creio que deverá analisar um pouco a História Militar. Ou então devemos tentar definir o que é para si um mercenário.

Peço que não leve a mal a minha impertinência, mas mais uma vez, a maior parte dos livros que li sobre a Espanha e a História de Espanha, todos apontam no sentido de a Coroa de Castela e Leão, ter sido o principal sustentáculo económico das aventuras militares de Carlos V e de Filipe II.
Isto prende-se com o facto de o rei em Madrid não ter por exemplo acesso aos direitos aduaneiros cobrados nos seus restantes domínios.

O tradicional erro que nós portugueses cometemos, é não tentar entender a Espanha do século XVI. Em Aragão, por exemplo, Filipe II pouco podia cobrar de impostos. Em Portugal nem se fala.
Em 1588, a armada foi mandada sair, porque só o seu aparelhamento, praticamente todo feito às custas da Coroa de Castela estava a consumir cerca de 80% dos impostos cobrado aos castelhanos (A coroa de Castela e Leão arrecadava uma média de 900.000 ducados por mês em impostos e desse dinheiro, 700.000 ducados eram enviados para Portugal todos os meses para sustentar a armada ).
A armada saiu com enormes faltas de material, porque pura e simplesmente a coroa estava praticamente falida e não tinha mais dinheiro. (A fonte não é de origem espanhola, é apenas o livro de Augusto Salgado e João Pedro Vaz sobre a armada Invencivel da "Tribuna da História", 2004, que até tem o patrocinio do Instituto da Defesa Nacional). A Fazenda Real, declarou bancarrota em 1557 em 1575 e em 1596, mas os problemas financeiros e as dificuldades de pagamento eram endémicas.

No ano seguinte à derrota da armada a situação financeira era muito complicada e naturalmente o dinheiro para as tropas nas regiões menos importantes e consideradas mais seguras era tudo menos prioritário.
Só isto explica a necessidade de recorrer às tropas locais de D. Teodósio, o Duque de Bragança.
Não eram evidentemente tropas de elite, mas foram o suficiente para mostrar aos ingleses, que quem conseguia reunir forças eram os partidários do rei espanhol.

A situação continuou a degradar-se continuamente, com a cobrança de mais e mais impostos que seriam pagos pela Coroa de Castela, ainda na última década do século XVI.
No século XVII, para tentar aliviar a pressão sobre a depauperada coroa castelhana, tentou-se a famosa lei da "união de armas" e a partir daí, foi o colapso.

Nós não fomos ocupados pela Espanha durante 60 anos. As nossas elites optaram por «chular» os castelhanos até ao tutano. Quando Castela estava seca e já não dava nada  e ainda por cima começaram a pedir às nossas elites que pagassem impostos, então apareceram os nobres nacionalistas e proclamaram a independência.
Também não creio que encontre nenhuma evidência documental disto.
Mas eu acredito que nós também vivemos de mitos e a realidade não é facilmente aceitável pelo nosso ego. Habituamo-nos a dizer que fomos invadidos pelos espanhóis, e parte do nosso sentimento nacionalista a partir da quarta dinastia baseou-se nisso.

Se contestamos isso, ficamos sem nada. O país continua a ter razão para existir, o problema é que fica complicado explicar as razões ao maralhal.
Afinal, somos um povo que se habituou a viver de expedientes, a roubar os outros (periodo romano) a roubar os mouros (reconquista) a invadir as terras dos outros (invasão de Ceuta), a roubar as riquesas dos outros (império da India), a viver dos impostos que os outros pagavam (dinastia Filipina) a explorar o trabalho dos outros (Império do Brasil) e a viver de dinheiro emprestado (União Europeia).

Trágico ... :mrgreen:
 

*

João Vaz

  • 193
  • +1/-0
Re: A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589
« Responder #9 em: Setembro 02, 2010, 12:30:21 pm »
Sempre às ordens para esclarecimentos:

Citação de: "papatango"
Em 1589 não havia nenhuma Coroa de Espanha.
Não havendo Coroa de Espanha, logo não poderia haver tropas da Coroa de Espanha

Pode-se discordar. Aquilo que aponta é apenas um preciosismo arcaico, o qual os próprios historiadores espanhóis já ultrapassaram com toda a razão, uma vez que, além de Portugal, só existiu mais um monarca na Península Ibérica, o rei de (toda a) Espanha desde Carlos V de Habsburgo (Carlos I de Espanha). O termo Espanha também é empregue no século XVI. Toda a historiografia contemporânea aceita e é perfeitamente concordante nesse pormenor.

Citação de: "papatango"
Em segundo lugar, no século XVI, o soldado profissional é por natureza e definição um MERCENÁRIO.
As tropas mercenárias, são constituídas por soldados de Elite, que têm a guerra como profissão.
É a primeira coisa que deve entender quando estuda a guerra no século XVI. O Mercenário, é o soldado de Elite, porque evidentemente ninguém paga a um mercenário se ele não for um bom soldado e não tiver experiência.

Portanto, não entendo a sua expressão «leia-se profisionais e não mercenários».

No século XVI não há tropa profissional que não seja mercenária. Mercenário, é o nome que se atribui ao militar que vende os seus serviços como militar a um senhor. No século XVI e até ao século XIX não há o conceito de Nação e de serviço à Nação. Há apenas o conceito de serviço ao Senhor. Seja Rei, Duque, Conde ou Bispo.

Tal definição incorre noutro erro, não sustentado por qualquer estudo ou documento da época e completamente cego à modernização dos estados ocidentais europeus no final do Renascimento. É reconhecido que o século XVI teve um grau de desenvolvimento considerável (daí o "Renascimento") diferente de uma "pré-história" militar em que apenas mercenários actuam ao serviço dos monarcas e estadistas. É mais uma noção antiquada e totalmente descartada na historiografia militar desde há muito tempo. Seria conveniente actualizar as fontes em que se baseia. Deixo-lhe no entanto um dado há muito adquirido pelos estudiosos da matéria: o século XVI é justamente o século de profissionalização das forças militares e navais. Isto porque se criam os primeiros exércitos segundo conceito moderno, ou seja, forças profissionais permanentes. Os mercenários simplesmente co-existiram, mas já não dominavam o campo de batalha e sempre foram numericamente inferiores precisamente porque eram dificilmente controláveis. Essa lição já tinha sido aprendida com as prolongadas guerras no final da Idade Média e no início do Renascimento. O século XVI (e isto não é anda revolucionário, é ensinado nas Universidades há muito tempo) assistiu ao nascimento dos Estados Modernos, com o desenvolvimento de administrações complezas, permanentes que por seu lado apoiaram o início dos primeiros exércitos nacionais e o embrião das futuras marinhas de guerra.

Além de não encontrar nenhuma relação entre o que escreve e os meus textos na insistência de "mercenários" no final do século XVI na Península Ibérica, tambem se percebe muita confusão entre Mercenário e Soldado de Elite, conceito ausente no Século XVI.


Citação de: "papatango"
Desde o período de Carlos V, que a maior parte das tropas de elite da Coroa dos Habsburgos são militares mercenários católicos de origem germânica.
Fora os militares de origem germânica, havia também bastantes italianos dos estados do Sul de Itália além de holandeses católicos (ou flamengos para ser mais correcto).

Mais uma vez, há confusão de épocas históricas e uma ideia redutora e simplista do período em causa. Mesmo assim, merce correcção básica, mas necessária:
1) Na segunda metade de Quinhentos, "A maior parte das tropas de elite" não foram "mercenários católicos de origem germânica" e não há estudos actuais que sustentem tal afirmação. Trata-se, uma vez mais, de um conceito totalmente ultrapassado.
Indico-lhe para leitura as obras do Professor Geoffrey Parker, o especialista pioneiro no estudo do Exército da Flandres e das forças militares espanholas na segunda metade do século XVI. Em particular, recomendo vivamente um dos principais estudos da História Militar dos Séculos XVI e XVII, The Military Revolution, onde é apresentado e sustentado o modelo evolutivo de transição europeu entre as "hostes" feudais e os mercenários para exércitos profissionais permanentes (assim como se operou no domínio naval).
2) Se conseguir ler com atenção as minhas explicações no primeiro "post" de resposta, verá que lá descrevo a composição do exército de invasão espanhol que actuou em Portugal nas décadas de 1580 e de 1590 e a necessária explicação acerca da intervenção de tropas estrangeiras nos exércitos de Espanha (e não se trata de mercenários). Penso, por isso, ser desnecessário repetir-me neste tópico.


Citação de: "papatango"
Na Península ibérica, a principal força militar da Coroa de Castela e Leão (A principal potência militar de entre os países da península ibérica) era constituída por Galegos.
A Galiza era uma região rica em termos de agricultura e por isso tinha uma grande densidade populacional. Mas como havia muita gente, os segundos, terceiros e restantes filhos não herdavam e isso levava-os a imigrar, sendo o serviço militar uma das soluções.

Dos reinos da Coroa de Aragão não havia grande numero de militares para forças terrestres. Tanto a Catalunha como o reino de Valência eram Talassocracias, muito mais interessadas em aumentar e manter o seu poder naval. Normalmente mandavam o rei em Madrid dar uma volta quando este pedia dinheiro para tropas.

Essa explicação poderia colher algo se tivesse sido proferida há 60 anos. Porém, não há qualquer novidade nem ligação entre estes dois parágrafos e a minha descrição e análise da expedição inglesa a Portugal em 1589. Isto, para além de verificar, mais uma vez, que os compêndios em que se baseia são antiquados e referem-se a épocas anteriores àquela estudada e apresentada aqui. Já agora, mais uns esclarecimentos úteis:
1) a Galiza sempre foi o parente pobre em Espanha nesta época.
2) Aquilo que escreve diz respeito sobretudo à Idade Média, uns quantos séculos atrasados quanto ao âmbito da minha apresentação.
3) "Mandar o rei dar uma volta" é interessante para explicar o facto de a Catalunha nunca se ter autonomizado completamente. A dura repressão da Revolta (ou Alterações) de Aragão em 1591 deu um sinal forte da intransigência do rei em relação às pretensões autonómicas. Trata-se de uma afirmação exagerada e desprovida de realidade no último quartel do século XVI (o período em questão), devido à forte centralização do poder em Madrid e do consequente reforço militar na Península. Daí que Espanha seja uma realidade já no século XVI, facto reconhecido pela historiografia há muito tempo.


Citação de: "papatango"
É por isso que a Coroa de Castela é praticamente a única que contribui sempre para o esforço militar. É assim desde Carlos V, que fala dos «meus pobres e fiéis súbditos castelhanos», os únicos que ainda pagam as despesas dos seus exércitos.
É também isso que explica as revoltas separatistas da Andaluzia em meados do século XVII, protestando contra a injustiça a que os castelhanos estavam submetidos, por pagarem muito mais que os outros reinos da Coroa dos Habsburgos.

E então...? Além de mais conceitos confusos, apenas se reforça a constatação de que as forças militares da Coroa de Espanha eram...espanholas em Espanha...

Citação de: "papatango"
Como você mesmo disse, uma das exigências nas Cortes de Tomar era que o Reino continuasse a ter as suas próprias defesas e forças. Em parte isso aconteceu e é por isso que havia muito poucas tropas directamente dependentes da Coroa em Portugal.
Aliás, não acha estranho que tendo em 1589 a Coroa dos Habsburgos problemas tão graves (a coroa estava praticamente falida por causa das despesas com a Armada), conseguisse ainda assim dinheiro para sustentar os Terços em Portugal?

Sinceramente, gostaria que desenvolvesse mais as suas dúvidas sem misturá-las com afirmações e opiniões que simplesmente não correspondem aos factos hoje conhecidos, pois não entendo o que pretende questionar. As forças militares da Coroa de Espanha em Portugal eram pagas por vezes com atraso, mas isso era algo comum a todas as forças dos principais estados europeus. E aqui em Portugal, apesar dessa situação, nunca deixaram de servir. Apenas denoto que continua a insistir na qestão de "tropas de elite" e de "mercenários", tema totalmente marginal no tema e no período em questão.

Citação de: "papatango"
E se essas forças eram realmente poderosas, e os documentos a que alude  não constituíam apenas (confirmando a ilustre  tradição portuguesa de roubar utilizando a burocracia) um artifício para justificar o envio de ouro desde Madrid para Lisboa para os braços da nobreza corrupta, então porque D. Teodósio, Duque de Bragança,  armou primeiro um exército de 6.000 homens e depois um segundo exercito de 13.000 às suas próprias custas (pago pela Casa de Bragança) para defender o Reino ?
(in Oliveira Martins, Guimarães Editores p.308).

Estes documentos nem sequer passaram por mãos portuguesas, trata-se de documentos oficiais da administração militar (Vedoria-Geral de Guerra) espanhola em Portugal. Não existiu qualquer conspiração envolvida...
O Duque de Bragança, que era bem mais pacífico do que alguns antepassados seus, não fez mais do que a sua obrigação como principal nobre do reino em serviço do seu monarca legitimado e fê-lo à medida das suas posses, que eram consideráveis (graças em parte, ao apoio de Filipe II).
Poderia ficar aqui a esclarecê-lo com todo o gosto as suas dúvidas - até porque é um tema que muito aprecio - mas reparo aqui que chegamos ao cerne das suas dúvidas. As suas fontes têm um atraso de muitas décadas em relação aos estudos modernos dos últimos 50 anos e sobretudo relativamente ao que tenho investigado em arquivos de Espanha e Portugal. Está explicada a causa das suas dúvidas. Para afirmar algo peremptoriamente, é indispensável munir-se de actualizações, dados recentes e não de obras ultrapassadas.


Citação de: "papatango"
As forças comandadas pelo Duque de Alba, enviadas contra Portugal em 1580, eram sem dúvida  forças poderosas, constituídas pelos melhore mercenários alemães e italianos, MAS NENHUM EXÉRCITO mantém uma força de elite numa região ocupada, ainda mais quando conseguiu através da corrupção, comprar a nobreza mais influente.

Não sei o que pretende questionar aqui? Após a conquista espanhola, houve uma desmobilização e durante 60 anos permaneceram tropas espanholas (sobretudo guarnições) em Portugal, tendo havido posteriores mobilizações consoante preparativos defensivos e organização de grandes armadas.

= = =
Citar
Tanto os oficiais, como os soldados da maioria dos Tercios eram espanhóis. Existiram, como sempre sucedeu ao longo de Quinhentos, companhias e até Terços inteiros de tropas alemãs e italianas, com algumas companhias soltas de flamengos, irlandeses e escoceses (estes sim, não regulares mas a sua força era mínima).
= = =

Citação de: "papatango"
Será como diz, mas veja o que nos diz Domingos Ortiz na sua obra «três milénios de História de Espanha»:
«En los momentos culminantes España llegó a tener en Flandes cerca de ochenta mil hombres, pero apenas la tercera parte eran españoles;
el resto, italianos, alemanes y flamencos, y a finales del siglo también ingleses e irlandeses.
Era la mejor fuerza armada que había en el mundo, pero profesional, costosa; si faltaban las pagas se relajaba la disciplina, se producían motines y a veces se produjo el lamentable espectáculo de los saqueos de ciudades; el más famoso, el de Amberes en 1576,consecuencia directa de la bancarrota estatal del año precedente, que había bloqueado el envío de numerário.


Quer dizer-nos o que aconteceu em termos de pagamentos às tropas reais exactamente no ano de 1589, aquando do ataque dos ingleses e relacionar o ocorrido com o paragrafo em que o historiador espanhol afirma que quando não recebiam pagamento as tropas eram indisciplinadas e chegavam a saquear as cidades ? ? ? ?

O motim das tropas reais e o subsequente saque de Anvers em 1576 deveu-se à prolongada falta de pagamentos a parte das tropas mais reputadas do Exército Espanhol da Flandres em luta contra os rebeldes holandeses. Nunca mais se repetiu tal acto. Tratava-se, afinal, do principal teatro de operações e maior linha da frente da Monarquia Hispânica naquela que foi denominada de Guerra dos 80 anos. Tal como já apontei mais acima, houve também atrasos repetidos em Portugal (e é Portugal que me interessa aqui, não me refiro aos Países Baixos que já foram muito bem estudados), mas isso nunca chegou perto de qualquer motim.
E é aqui que pode radicar mais alguma confusão: Dominguez Ortíz refere-se exclusivamente ao Exército Espanhol da Flandres, enquanto eu apenas me refiro à Península Ibérica e, mais concretamente, a Portugal.
Se confundir dois teatros de operações completamente distintos, é natural que acabe por ver "mercenários" estrangeiros e "tropas de elite" em demasiados teatros. A composição maioritária do exército de invasão espanhol em Portugal em 1580 era espanhola. E a subsequente ocupação e pacificação do reino foi realizada nas décadas seguintes exclusivamente por tropas espanholas. É isso mesmo que a documentação inédita nos mostra e a vária documentação publicada confirma. Consulte por exemplo a Coleccion de Documentos Inéditos para la Historia de España, onde se encontra parte considerável da correspondência dos principais oficiais espanhois na campanha de 1580 e também sobre a Conquista dos Açores consulte a correspondência régia dos anos de 1582 e de 1583 publicada por Cesáreo Fernández Duro, ambas publicadas no final do século XIX e disponíveis na Biblioteca Nacional.
Quanto à sua dúvida acerca do "pagamento às tropas reais" em 1589, é simples: não ocorreu nada de anormal.


Citação de: "papatango"
Quer relacionar o facto com a urgente tomada de posição de Dom Teodósio, organizando à pressa um exército constituido exclusivamente por portugueses para atacar os ingleses?

Se alguns dos famosos Tercios de elite estavam em Portugal, numa altura em que a coroa cortava nos salários porque estava quase falida, não acha estranho que o homem mais rico da península ibérica tivesse que pagar um exército do seu próprio bolso?

1) Também já expliquei isso mais acima. Conveniência mútua: mostrar serviço ao rei e obrigação de vassalo. Ainda assim, a iniciativa foi tardia e não obteve qualquer benefício prático para a defesa de Lisboa. A prática da formação de contingentes territoriais a partir de senhorios terratenentes era bem antiga e considerada um dever de cada nobre de acordo com as suas posses.
2) Nova confusão: não encontra escrito meu afirmando haver "Tercios de elite" em Portugal em 1589? Houve sim Tercios viejos, ou seja, de veteranos (que em Portugal também se denominmavam de "aventureiros") entre 1580 e 1583 e novamente entre 1587 e 1588 embarcados na "Invencível" Armada. Esses eram reputados pela experiência e combatividade.


Citação de: "papatango"
Lembre-se que falamos de 1589, um ano a seguir à derrota da armada invencível e não de 1580. As tropas de elite de 1580/1581 foram-se todas embora após a saída do rei em 1583 (se não me equivoco).

Por acaso "lembro-me" desse facto da "Invencível" Armada, pois sucede que tive oportunidade de publicar em 2002 (reeditado em 2004) o primeiro livro em português dedicado em exclusivo ao estudo dessa campanha naval. Já expliquei logo acima.

Citação de: "papatango"
A ideia de que os portugueses não participaram no conflito é apenas resultado da tradição histórica da Espanha castelhana de menosprezar qualquer participação militar portuguesa em todo e qualquer acontecimento. Essa tradicional arrogância que às vezes chega a roçar o patético por parte dos espanhóis, também tem que ser considerada por nós quando analisamos este tipo de temas.

Repare: acabou de falar em "ideia". Eu baseio-me nos factos.
Essa afirmação é totalmente incorrecta. Se ler com atenção e sem preconceitos a análise por mim apresentada, denotará a participação portuguesa, ainda que marginal. Mas isso teve as suas razões, compreensíveis à luz da documentação e da situação vivida na época, não deve ser alvo de opiniões automaticamente redutoras e simplistas. Se o sentimento nacional fica beliscado, isso não pode transparecer numa investigação imparcial. Quando se realiza uma investigação demorada e se prepara a sua publicação seriamente (penso que não estará a pensar de outro modo em relação aos estudos que divulguei em parte neste tópico), apenas uma coisa interessa: factos concretos, a partir de documentação fidedigna.
Por isso, mais uma vez aponto que utilizei (não por acaso!) documentação e iconografia da mais diversa proveniência, oficial e privada, desde os arquivos espanhóis, portugueses, ingleses e italianos. Obviamente, trata-se da única maneira de trabalhar, esclarecer e divulgar temas históricos. Se ainda por cima tenta contradizer os factos que apurei com opiniões e ideias retiradas de obras completamente ultrapassadas, julgo que fica claro a validade da argumentação. Existe boa e má historiografia tanto em Espanha, como em Portugal. O que é necessário é discernimento e traçar um caminho válido por entre as inverdades ou as deficiências identificadas.


Citação de: "papatango"
A coroa castelhana (sobre a qual recaia o peso das despesas militares de toda a coroa, já desde o tempo de Carlos V - como o próprio Carlos V afirmava ) estava falida e era incapaz de pagar aos mercenários para defender qualquer área de Portugal. Por isso, só quem poderia ajudar a manter o Satus Quo eram as elites portugueses, com a Casa de Bragança à cabeça.
Esta afirmação não encontra qualquer fundamento nas análises históricas nem nos extensos fundos de arquivos investigados. Além de ser confuso (não houve "mercenários", mas sim forças regulares da Coroa de Espanha em Portugal).[/quote]

Citação de: "papatango"
Quanto aos mercenários, creio que deverá analisar um pouco a História Militar. Ou então devemos tentar definir o que é para si um mercenário.

Peço que não leve a mal a minha impertinência, mas mais uma vez, a maior parte dos livros que li sobre a Espanha e a História de Espanha, todos apontam no sentido de a Coroa de Castela e Leão, ter sido o principal sustentáculo económico das aventuras militares de Carlos V e de Filipe II.
Isto prende-se com o facto de o rei em Madrid não ter por exemplo acesso aos direitos aduaneiros cobrados nos seus restantes domínios.

Caro papatango, não tenho que levar a mal, embora não entenda a obstinação de tentar fazer valer argumentos já ultrapassados. Eu também não pretendo mais do que divulgar assuntos desconhecidos da nossa história. E está à vista porque razão o faço, justamente porque há demasiado tempo que perduram preconceitos e noções ultrapassadas, além de profundo desconhecimento acerca do Portugal sob domínio espanhol, em particular nas vertentes militar e naval que tenho vindo a estudar nos últimos 15 anos. Faço-o porque se trata de um tema verdadeiramente complexo e denso e simultaneamente espectacular devido aos protagonistas e à escala e sucessão dos acontecimentos. Sempre fui imparcial e sou exigente quanto ao rigor comigo mesmo e com o que faço.

Citação de: "papatango"
O tradicional erro que nós portugueses cometemos, é não tentar entender a Espanha do século XVI. Em Aragão, por exemplo, Filipe II pouco podia cobrar de impostos. Em Portugal nem se fala.
Em 1588, a armada foi mandada sair, porque só o seu aparelhamento, praticamente todo feito às custas da Coroa de Castela estava a consumir cerca de 80% dos impostos cobrado aos castelhanos (A coroa de Castela e Leão arrecadava uma média de 900.000 ducados por mês em impostos e desse dinheiro, 700.000 ducados eram enviados para Portugal todos os meses para sustentar a armada ).
A armada saiu com enormes faltas de material, porque pura e simplesmente a coroa estava praticamente falida e não tinha mais dinheiro. (A fonte não é de origem espanhola, é apenas o livro de Augusto Salgado e João Pedro Vaz sobre a armada Invencivel da "Tribuna da História", 2004, que até tem o patrocinio do Instituto da Defesa Nacional). A Fazenda Real, declarou bancarrota em 1557 em 1575 e em 1596, mas os problemas financeiros e as dificuldades de pagamento eram endémicas.

Esse João Pedro Vaz sou eu  :D
Repare: para colocar as coisas no seu contexto devido, façamos uma comparação elucidativa, senão o texto fica infindável: a Espanha do final de Quinhentos era uma potência militar e económica comparável aos Estados Unidos do final do século XX. Mesmo com dívidas continuadas de bilhões de dólares, as operações de guerra não páram, até aumentam. A Espanha sofreu nas décadas de 1580 e de 1590 uma das maiores receitas anuais de todo o século XVI em metais preciosos da América e contraía pesados créditos nas principais praças financeiras e junto da próspera comunidade cristã-nova. As sucessivas bancarrota em Espanha serviram para se "livrar" das cobranças, tal como hoje sucede com alguns empresários duvidosos.

Citação de: "papatango"
No ano seguinte à derrota da armada a situação financeira era muito complicada e naturalmente o dinheiro para as tropas nas regiões menos importantes e consideradas mais seguras era tudo menos prioritário.
Só isto explica a necessidade de recorrer às tropas locais de D. Teodósio, o Duque de Bragança.
Não eram evidentemente tropas de elite, mas foram o suficiente para mostrar aos ingleses, que quem conseguia reunir forças eram os partidários do rei espanhol.

Os responsáveis pela anulação da ameaça da expedição inglesa de 1589 foram:
1) o mau planeamento e a péssima logística da mesma, somados ao conflito de interesses entre interesses privados (financeiros e comerciais) e da Coroa (objectivos militares e políticos).
2) o serviço de informações espanhol que manteve sempre bem informadas as autoridades em Madrid e Lisboa e também, obviamente as forças espanholas de ocupação que guarneciam as fortificações, souberam reforçar-se e manter o inimigo à distância até ao único confronto (ocorrido no actual Bairro Alto), em que as tropas expedicionárias inglesas foram previsivelmente derrotadas.


Citação de: "papatango"
A situação continuou a degradar-se continuamente, com a cobrança de mais e mais impostos que seriam pagos pela Coroa de Castela, ainda na última década do século XVI.
No século XVII, para tentar aliviar a pressão sobre a depauperada coroa castelhana, tentou-se a famosa lei da "união de armas" e a partir daí, foi o colapso.

Nós não fomos ocupados pela Espanha durante 60 anos. As nossas elites optaram por «chular» os castelhanos até ao tutano. Quando Castela estava seca e já não dava nada  e ainda por cima começaram a pedir às nossas elites que pagassem impostos, então apareceram os nobres nacionalistas e proclamaram a independência.
Também não creio que encontre nenhuma evidência documental disto.
Mas eu acredito que nós também vivemos de mitos e a realidade não é facilmente aceitável pelo nosso ego. Habituamo-nos a dizer que fomos invadidos pelos espanhóis, e parte do nosso sentimento nacionalista a partir da quarta dinastia baseou-se nisso.

Não vejo razões para discordar, em traços gerais. Aliás, os recentes estudos de Rafael Valladares em Espanha são concordantes nesses pontos e documentam-nos muito bem.
Só para concluir, é evidente que a invasão, ocupação e domínio espanhol em Portugal não foi um mar de rosas (embora também tenha aberto algumas oportunidades), e a situação após a morte de Filipe II (D. Filipe I de Portugal) não parou de piorar com os dois monarcas seguintes.
Mais uma vez, a falta de conhecimento actualizado destes temas em geral no nosso país é culpa nossa. Contam-se pelos dedos de uma mão os estudiosos que permaneceram imparciais e souberam entender o contexto próprio, contando com as fontes documentais cuja existência (mas não a análise) é conhecida e acessível desde há mais de um século.
Os debates devem, por isso ser bem sustentados, para conveniência de todos. Sem questões, não há evolução.
« Última modificação: Setembro 02, 2010, 01:03:34 pm por João Vaz »
"E se os antigos portugueses, e ainda os modernos, não foram tão pouco afeiçoados à escritura como são, não se perderiam tantas antiguidades entre nós (...), nem houvera tão profundo esquecimento de muitas coisas".
Pero de Magalhães de Gândavo, História da Província Santa Cruz, 1576
 

*

teXou

  • 436
  • +0/-0
Re: A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589
« Responder #10 em: Setembro 02, 2010, 01:02:08 pm »
Caros amigos sff só ... continuar ... continuar ... continuar, discussão e trocas bem interessantes.  :G-beer2:
"Obviamente, demito-o".

H. Delgado 10/05/1958
-------------------------------------------------------
" Não Apaguem a Memória! "

http://maismemoria.org
 

*

YOMISMO

  • 98
  • +0/-0
Re: A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589
« Responder #11 em: Setembro 02, 2010, 04:09:29 pm »
Caro João, simplemente magnífica su descripción de los "hechos" y recalco "hechos" que no es lo mismo que "suposiciones".

Algunos foristas todavía piensan  que España nunca existió y que nuestros ejércitos y colonizadores eran "mercenarios" y similares.

Lo dicho, sublime sus comentarios.

Cumprimentos.
 

*

papatango

  • Investigador
  • *****
  • 5512
  • Recebeu: 9 vez(es)
  • +18/-0
    • http://www.areamilitar.net
Re: A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589
« Responder #12 em: Setembro 02, 2010, 07:51:44 pm »
Vamos por partes, concentrando-nos na questão principal:

Em 1589, os ingleses organizam uma incursão a Portugal, como vingança pela tentativa de invasão pela Armada Invencível.
As tropas inglesas devem tomar o país, com o apoio dos portugueses que D. António afirma que poderá reunir.
Ao contrário do que foi prometido por D. António, não houve nenhum levantamento popular de Portugueses contra o rei Filipe I (Felipe II de Castela / Felipe-I de Navarra, etc…).

Em 1589, não havia tropas da coroa suficientes para debelar a invasão britânica. No total a armada inglesa conta com 27.600 homens e 12.400 são soldados de pé [1].

Para lhe dar um termo de comparação, na Primavera de 1588 (29 de Abril para ser mais preciso),  o Duque de Parma envia uma carta ao rei, a informar que não tinha homens suficientes para participar na campanha contra Inglaterra. Nessa carta, Parma informa que não tem o total de 380.421 coroas necessárias para pagar às tropas do exército da Flandres.

O exército da Flandres, o mais poderoso exército da Coroa dos Habsburgos, considerado por muitos historiadores espanhóis como o melhor exército do mundo, praticamente não tinha capacidade (por falta de dinheiro para pagar aos soldados mercenários) para movimentar ou dispensar 17.000 homens de pé e 1.000 de cavalaria ligeira.[2].
Foram enviadas tropas desde a Peninsula Ibérica, constituidas pelos tércios castelhanos de D.Antonio de Manrique e de D.Antonio de Zuniga, mas em 1588 estas forças estavam reduzidas a uma mole de espanhóis esfarrapados e doentes com Tifo.
Em 1588, antes do episódio da Armada, o principal exército dos Habsburgos hispânicos era constituído pelo seguinte:

Infantaria Espanhola: 8.718 homens (Espanhóis são os habitantes da península ibérica, na altura não havia distinção)
Infantaria Italiana : 5.339 homens
Infantaria da Borgonha, Irlanda e Escócia: 3.278 homens
Infantaria da Valónia : 17.825 homens
Infantaria Alemã: 19.925 homens
Cavalaria ligeira: 1.180 homens.


Em 1588, a coroa de Castela estava com tal falta de homens, que em vez de mandar os militares castelhanos para o norte de África, para onde costumavam ser mandados antes da colocação nos Tércios principais (a título de treino e preparação), os recrutas foram enviados directamente para o exército da Flandres (incluídos em infantaria espanhola).
Estas tropas sem treino e por isso de péssima qualidade, enviadas desde a Península, ficaram conhecidas como «Tercio de la Zarabanda» ou Tércio dos dançarinos, porque não sabiam lutar e dançar era a única coisa para que tinham capacidade.

Logo, após a catástrofe da armada invencível, e considerando que a crise económica e demográfica não acabou de um dia para o outro, em 1589, menos de um anos depois, a situação era no mínimo idêntica (não há milagres, por muito que acreditassem neles na altura).
A Coroa não tinha sequer tropas de elite para colocar nos Tércios do exército da Flandres, o seu mais poderoso exército terrestre, mas aparentemente, segundo a sua tese tinha tropas de elite para colocar em Portugal, onde o Duque de Bragança tinha sido subornado pelo rei ?

Para colocar tropas castelhanas na Flandres, em preparação da invasão, houve Tércios que tiveram que ser enviados com um e dois anos de antecedência (1586 e 1587) [2]. Logo não nos vai dizer que, no meio de uma crise enorme, a coroa consegue enviar tropas de elite para Portugal em apenas alguns dias …
Vai ?

Mesmo o exército da Flandres, o mais poderoso de todos os exércitos na monarquia Hispânica, era assolado por crises de disciplina, por causa da falta de pagamentos. Este é um problema que assola todos os exércitos de mercenários.
O soldado (aquele que recebe o soldo) tinha que pagar comida, alojamento e fardamento com o dinheiro que recebia. A monarquia Hispânica não pagava com regularidade aos seus soldados (chegavam a estar um ano sem receber) e isso levava a indisciplina motins e deserções.

A sua tese não conta com estes factos e basicamente ignora-os. Mas estes factos podem explicar a necessidade de D. Teodósio, Duque de Bragança, organizar o seu próprio exército à pressa, para combater os ingleses.

Assim, o Duque de Bragança sentiu necessidade de organizar um exército, porque a soldadesca às ordens do Rei hispanico não lhe dava qualquer segurança e teria sido dizimada pelos ingleses.

D. Teodósio temia a chegada ao poder de D. António, o Prior da Ordem do Crato.
D. Teodósio-II, temia que ocorresse a mesma coisa que tinha ocorrido com o seu antepassado D. Fernando-II, o 3º Duque de Bragança, assassinado por D. Manuel em Évora sob acusação de traição.

Se D. Antonio tivesse sido aclamado Rei de Portugal com o apoio dos ingleses, era evidente que D.Teodósio II, o Duque de Bragança, perderia todo o seu dinheiro e poder, dado ser considerado um apoiante do rei.

Os ingleses são por isso combatidos pelos portugueses e não pelos espanhóis.
Os ingleses foram derrotados, mas acima de tudo desistiram. Desistiram quando perceberam que a força que D. António afirmava poder reunir, não poderia ser reunida e ao contrário eram os partidários portugueses do monarca espanhol que conseguiam reunir um exército.

Sem apoio popular, não fazia sentido a continuação da operação.

A tese de que havia uma sofisticada rede de informações organizada pela coroa hispânica, é interessante.
No entanto pense uma coisa:
Apenas alguns meses antes, a Armada invencivel saiu de Lisboa com destino à Flandres. Quando lá chegou, o Duque de Parma ficou espantado, porque não tinha recebido informação sequer da partida da armada meses antes de Lisboa.
O sistema de comunicações espanhol, não conseguia dizer ao Duque de Parma, na Flandres, que uma esquadra tinha saído de Lisboa, mas você afirma que alguns meses depois, esse mesmo sistema completamente falido conseguia informações precisas sobre a invasão inglesa...

Há quem acredite em bruxas...

Para terminar, a sua tese sobre a não existência de mais que duas monarquia na peninsula está completamente ultrapassada. Essa é a tese defendida pelos historiadores nazi-fascistas do periodo da ditadura de Francisco Franco. Essa é a tese da historiografia da Espanha Castelhana, que ainda hoje, com alguma razão, alega ter direitos que os outros países não devem ter, porque afinal, foram os impostos da Coroa de Castela que pagaram tudo.
Nesse aspecto eles têm razão. É um facto indesmentível, que foi o dinheiro da Coroa de Castela e Leão que suportou a maior parte dos gastos militares até ao ano de 1700, daquilo que alguns insistem em chamar (erradamente, de qualquer ponto de vista minimamente honesto) como Reino de Espanha.


Outro dos problemas da tese que nos apresenta, é que ela parece ser antiga, muito antiga de décadas ou mesmo séculos. A tese permite desculpabilizar os portugueses do ocorrido entre 1580 e 1640, apresentando os espanhóis como invasores e como gestores da defesa do país, responsáveis pela situação.
É importante frisar isto, especialmente no momento actual, em que passamos por uma situação idêntica à anterior a 1580, de apodrecimento da sociedade e em que as elites, profundamente corruptas, se prostituem com a mais despudorada facilidade.

Da mesma forma que as elites portuguesas se prostituíram em 1580, com o Duque de Bragança no carro da frente como Prostituto-Mor, também as elites actuais se prostituem da mesma maneira.
É importante entender, que os mesmos que se prostituíram, pagaram com os proventos da sua própria prostituição, um exército para apoiar aqueles que os colocaram na posição dominante em que se encontravam depois de 1580. E isso é importante hoje.

Na minha humilde opinião, a tese que nos apresenta é interessante, mas pouco inovadora. poderia ter sido escrita por qualquer espanhol. O seu problema, é que não tem coragem para fazer perguntas e para questionar a História.
Mas é apenas a minha opinião.


Depois você dá um exemplo que demonstra uma certa confusão, ao tentar demonstrar que a Espanha dos Habsburgos do final do século XVI é mais ou menos os Estados Unidos do final do século XX.
Esta é uma tese muito típica da historiografia mais tradicionalista dos espanhois. É no entanto uma tese sem cabeça tronco e membros.
Em primeiro lugar, os Estados Unidos são a potência marítima dominante, SEM QUALQUER DISCUSSÃO DE PODER. A monarquia hispânica nunca foi uma potência marítima capaz de impor o seu poder no mar.
Derrotou os turcos em Lepanto com o dinheiro e os navios de Veneza e utilizando as mesmas tácticas utilizadas pelas galés romanas, mas nunca controlou o Atlântico. Mesmo no auge do seu poderio, a Espanha era atacada no seu próprio território pelos ingleses.

A Espanha, foi quando muito a mais importante potência terrestre, mas mesmo assim, esse poder decorria do dinheiro que vinha das Américas e que servia para pagar a um exército de mercenários, sem os quais não havia poder militar.
Isso torna-se óbvio quando comparamos a dimensão demográfica dos reinos Habsburgos com a dimensão demográfica, daquele que será a Nemesis do poder hispânico: A França.

No final do século XVI, a população francesa ronda entre 18 e 20 milhões de habitantes. Castela terá entre 6 e 7 milhões e é o principal contribuinte com tropas. A Coroa de Aragão terá menos de 1 milhão, Portugal ligeiramente mais.
Só o dinheiro das Américas, e a taxação pesadíssima sobre os súbditos de Castela[3] (70% das receitas da coroa) permite ao ramos espanhol da Casa de Áustria, uma capacidade militar superior à sua dimensão demográfica, pagando o serviço de soldados estrangeiros. E mesmo assim é um poder contestado pela França, que ocupa uma posição estratégica entre a península ibérica e a Flandres e que também separa a península ibérica dos reinos da Itália.
Quando acaba o dinheiro das Américas, a Coroa dos Habsburgos hispânicos desaparece lentamente e a própria Coroa acaba por ceder ao inevitável, sendo absorvida. Em 1700, será um Francês a ascender ao trono, então sim, pela primeira vez da Espanha.
Mas de uma Espanha, que é nada mais que um satélite de uma França que cem anos antes era já um gigante do ponto de vista demográfico.

Não podemos deixar de considerar todos estes factores.



[1] – Batalhas de Portugal, Augusto Salgado / João Pedro Vaz
[2] – The Armada Campaign, John Tincey / Richard Hook
[3] - No século XVI, os subditos de Castela são os que estão sujeitos à maior carga fiscal em toda a Europa (três milénios de História de Espanha / Dominguez Ortiz)
 

*

YOMISMO

  • 98
  • +0/-0
Re: A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589
« Responder #13 em: Setembro 03, 2010, 12:53:20 pm »
ja,ja,ja  :shock:  :lol:

Que gran relato de ciencia-ficción nos ha descrito este fanáico antiespañol.

Menos mal que las personas con CI normal (es decir, menor que el de este señor) saben distinguir entre HECHOS y CIENCI-FICCIÓN.

Lo siguiente será que la Tierra no es redonda....
 

*

João Vaz

  • 193
  • +1/-0
Re: A "Vinda dos Ingleses" a Portugal em 1589
« Responder #14 em: Setembro 03, 2010, 01:14:49 pm »
Citação de: "papatango"
Vamos por partes, concentrando-nos na questão principal:

Em 1589, os ingleses organizam uma incursão a Portugal, como vingança pela tentativa de invasão pela Armada Invencível.
As tropas inglesas devem tomar o país, com o apoio dos portugueses que D. António afirma que poderá reunir.
Ao contrário do que foi prometido por D. António, não houve nenhum levantamento popular de Portugueses contra o rei Filipe I (Felipe II de Castela / Felipe-I de Navarra, etc…).

A realidade é mais complexa do que uma vulgar "vingança", até porque a organização financeira e logística de uma armada numa escala sem precedentes na história inglesa não se poderia basear unicamente num tal pressuposto.

Na verdade, os objectivos da expedição inglesa de 1589 dividiam-se em 3:
1) Destruição dos navios sobreviventes do regresso da "Invencível" Armada nos portos espanhóis, neutralizando de facto o poder naval espanhol no Atlântico.
2) Desembarque em Portugal e conquista de Lisboa em apoio a uma sublevação em nome de D. António afim de o colocar no trono português.
3) Intercepção nos Açores das naus portuguesas de torna-viagem da Índia.

Nenhum destes objectivos foi alcançado e foi por isso que a Rainha aplicou castigos aos seus oficiais, nomeadamente a Drake que só voltou a comandar uma armada em 1595.
Os documentos só foram publicados na integra (e anotados) por Richard B. Wernham, The Expedition of Sir John Norris and Sir Francis Drake to Spain and Portugal in 1589, Aldershot: The Navy Records Society, 1988.


Citação de: "papatango"
Em 1589, não havia tropas da coroa suficientes para debelar a invasão britânica. No total a armada inglesa conta com 27.600 homens e 12.400 são soldados de pé [1].

Ora bem, visto que acaba de citar o meu livro acerca da participação portuguesa na "Invencível" Armada, poderá ler no capítulo relativo à expedição de 1589 um resumo do que publiquei aqui mesmo neste tópico que abri (aliás, tenho notado pelas suas questões que não leu nada bem esse livro, nem sequer os meus "posts" em que lhe providencio esclarecimentos). Encontrará aí as informações que explicam quem defendeu o território e a capital portuguesa, assim como os efectivos envolvidos.
Ressalto, porém, que não encontrará nesse meu livro, ao contrário do que supõe, a afirmação de que "não havia tropas da coroa suficientes para debelar a invasão britânica" (!). A afirmação é sua e não sei em que se baseia para chegar a essa conclusão.
Se ler com atenção a minha descrição (que, recordo novamente, está publicada e deu origem a este mesmo tópico), as guarnições de Lisboa apenas entraram em combate uma única vez e derrotaram os ingleses junto às antigas Portas de Santa Catarina. A capital foi recebendo reforços paulatinamente ao longo da Primavera devido às informações que chegaram a Madrid e a Lisboa acerca das intenções da ofensiva inglesa. E, de facto, nem sequer foi necessário recorrer à totalidade das forças espanholas para afastar a ameaça inglesa.
Por outro lado, o contingente anglo-holandês vindo de Inglaterra estava enfraquecido pela viagem (tinham sofrido perdas no caminho devido ao assalto falhado da Coruña e a doença, sendo que uma parte dos soldados seguiram na armada de Sir Francis Drake para Cascais, após a partida de Peniche para Lisboa do contingente com D. António e o General Sir John Norris) e as suas capacidades bélicas não se mostraram previsivelmente à altura das forças profissionais espanholas. Todas estas informações encontram-se num resumo maior no respectivo capítulo do meu livro Campanhas do Prior do Crato, 1580-1589.


Citação de: "papatango"
Para lhe dar um termo de comparação, na Primavera de 1588 (29 de Abril para ser mais preciso),  o Duque de Parma envia uma carta ao rei, a informar que não tinha homens suficientes para participar na campanha contra Inglaterra. Nessa carta, Parma informa que não tem o total de 380.421 coroas necessárias para pagar às tropas do exército da Flandres.

O exército da Flandres, o mais poderoso exército da Coroa dos Habsburgos, considerado por muitos historiadores espanhóis como o melhor exército do mundo, praticamente não tinha capacidade (por falta de dinheiro para pagar aos soldados mercenários) para movimentar ou dispensar 17.000 homens de pé e 1.000 de cavalaria ligeira.[2].

Aqui há que distinguir um "detalhe" importantíssimo:
O Duque de Parma nunca foi grande entusiasta dessa colossal operação combinada fadada ao insucesso (tal como foi planeada) que foi a "Invencível" Armada. O Duque era um oficial experiente e a sua relutância em apoiar essa campanha nos moldes em que o rei o obrigava a fazer indispuseram-no a aceitar facilmente uma contribuição das suas tropas do Exército da Flandres para uma armada duvidosa, retirando efectivos preciosos na manutenção da linha da frente contra os "rebeldes" holandeses. Há que perceber os interesses por detrás das palavras e das decisões. A decisão obsessiva de Filipe II no envio da Grande Armada de 1588 colocou pressão adicional no principal teatro de operações da Monarquia Hispânica, ou seja, na fronteira entre os Países Baixos (católicos) e as Províncias Unidas (protestantes). Algo dificilmente suportável para um grande comandante como o Duque de Parma. Os acontecimentos subsequentes deram-lhe inteira razão, visto que não houve condições mínimas para efectuar a transferência dos contingentes na costa da Flandres para os navios da Armada na sua passagem pelo Canal da Mancha, onde foram derrotados e postos em fuga.
O Exército Espanhol da Flandres (tal como já o referi mais de uma vez nas minhas respostas às suas questões) foi a força militar permanente mais numerosa e mais poderosa de todo o século XVI na Europa Ocidental. Por isso mesmo, a sua manutenção significou igualmente um dispêndio colossal ao Tesouro de Espanha. Essa foi uma das razões, a longo prazo (juntamente com a obsessão de novas armadas), das tréguas anglo-holandesas em 1609 e que conduziram ao colapso do poder espanhol na Europa no segundo quartel de Seiscentos, bem mais tarde. Uma vez mais, refiro-lhe o principal estudioso desta matéria consultado e indicado em todas as obras da especialidade: Geoffrey Parker, The Army of Flanders and The Spanish Road, 1567-1659: the Logistics of Spanish Victory and Defeat in the Low Countries' Wars (2.ª ed., Cambridge, 2004) e The Military Revolution, 1500-1800: Military Innovation and the Rise of the West ) (2." ed., Cambridge, 1996).


Citação de: "papatango"
Foram enviadas tropas desde a Peninsula Ibérica, constituidas pelos tércios castelhanos de D.Antonio de Manrique e de D.Antonio de Zuniga, mas em 1588 estas forças estavam reduzidas a uma mole de espanhóis esfarrapados e doentes com Tifo.
Em 1588, antes do episódio da Armada, o principal exército dos Habsburgos hispânicos era constituído pelo seguinte:

Infantaria Espanhola: 8.718 homens (Espanhóis são os habitantes da península ibérica, na altura não havia distinção)
Infantaria Italiana : 5.339 homens
Infantaria da Borgonha, Irlanda e Escócia: 3.278 homens
Infantaria da Valónia : 17.825 homens
Infantaria Alemã: 19.925 homens
Cavalaria ligeira: 1.180 homens.

Não concordo com a sua afirmação de que "na altura não havia distinção" entre nacionalidades portuguesa e espanhola. Veja com atenção o quadro das forças integrantes no meu livro acerca da Invencível Armada. A participação do contingente português está claramente registada: as "bandeiras" portuguesas ascenderam a um total aproximado de 2.000 homens se não me falha a memória.
Também é preciso ter em conta que o número de efectivos foi muito inconstante entre o período da chegada das primeiras unidades a Lisboa até à sua partida do Tejo e ainda no decurso da viagem. Entre o Verão de 1587 e a Primavera de 1588 houve dezenas de revistas às tropas (as "mostras" ou "muestras"), mas estas variam bastante.
Não tenho os números totais presentes à mão, mas o estudo mais actualizado e autorizado concernente aos efectivos militares da "Invencível" Armada encontrá-lo-á na sólida investigação de Manuel Gracia Rivas, Los Tercios de la Gran Armada (I587-I588), Instituto de Historia y Cultura Naval, Serie Gran Armada no. VI. Madrid: Editorial Naval, 1989.


Citação de: "papatango"
Em 1588, a coroa de Castela estava com tal falta de homens, que em vez de mandar os militares castelhanos para o norte de África, para onde costumavam ser mandados antes da colocação nos Tércios principais (a título de treino e preparação), os recrutas foram enviados directamente para o exército da Flandres (incluídos em infantaria espanhola).
Estas tropas sem treino e por isso de péssima qualidade, enviadas desde a Península, ficaram conhecidas como «Tercio de la Zarabanda» ou Tércio dos dançarinos, porque não sabiam lutar e dançar era a única coisa para que tinham capacidade.

De novo, está a confundir e misturar elementos.
Era característica comum à maioria dos Tercios ganharem alcunha. Uma das histórias acerca do Tercio de la Zarabanda (apenas um Tercio entre muitos, assim como as Legiões romanas). terá tido que ver com a dança do mesmo nome introduzida pelos soldados espanhóis na Flandres, uma anedota histórica no resto dos contingentes imensos da Monarquia Hipânica. Outros Tercios ganharam outras alcunhas sem que isso tivesse ligação directa com as reais capaciddes operacionais das mesmas unidades. Aliás, os Tercios espanhóis foram praticamente invencíveis na Europa até ao século XVII
.

Citação de: "papatango"
Logo, após a catástrofe da armada invencível, e considerando que a crise económica e demográfica não acabou de um dia para o outro, em 1589, menos de um anos depois, a situação era no mínimo idêntica (não há milagres, por muito que acreditassem neles na altura).
A Coroa não tinha sequer tropas de elite para colocar nos Tércios do exército da Flandres, o seu mais poderoso exército terrestre, mas aparentemente, segundo a sua tese tinha tropas de elite para colocar em Portugal, onde o Duque de Bragança tinha sido subornado pelo rei ?

"Tropas de Elite"? Onde?  :roll:  c34x  :lol:

[1] – Batalhas de Portugal, Augusto Salgado / João Pedro Vaz
[2] – The Armada Campaign, John Tincey / Richard Hook
[3] - No século XVI, os subditos de Castela são os que estão sujeitos à maior carga fiscal em toda a Europa (três milénios de História de Espanha / Dominguez Ortiz)[/quote]
"E se os antigos portugueses, e ainda os modernos, não foram tão pouco afeiçoados à escritura como são, não se perderiam tantas antiguidades entre nós (...), nem houvera tão profundo esquecimento de muitas coisas".
Pero de Magalhães de Gândavo, História da Província Santa Cruz, 1576
 

 

Portugal (Estado Novo - Mocidade Portuguesa - Blue Division)

Iniciado por João Ratão

Respostas: 9
Visualizações: 4916
Última mensagem Janeiro 30, 2014, 09:37:04 pm
por mafets
Hitler tinha planos para invadir Portugal?

Iniciado por Pantera

Respostas: 24
Visualizações: 9806
Última mensagem Janeiro 06, 2006, 04:59:50 pm
por alfsapt
II Guerra Mundial: Franco planeou invadir Portugal

Iniciado por Daniel

Respostas: 26
Visualizações: 8729
Última mensagem Maio 25, 2008, 11:44:52 pm
por Kawa
1975: Espanha propôs aos EUA guerra contra Portugal

Iniciado por P44

Respostas: 169
Visualizações: 32448
Última mensagem Agosto 13, 2009, 08:11:02 pm
por Daniel
1940: O plano de Franco para invadir Portugal

Iniciado por ricardonunes

Respostas: 172
Visualizações: 45709
Última mensagem Novembro 02, 2016, 07:13:16 pm
por HSMW