10 de Junho na Tailândia

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10 de Junho na Tailândia
« em: Junho 11, 2009, 02:12:04 pm »
http://combustoes.blogspot.com/2009/06/ ... uturo.html

10 Junho 2009
10 de Junho quer dizer futuro
 
É assim que se vive o patriotismo, evocando o passado que não pode ser negado e olhando para o futuro com a tremenda responsabilidade que está nas mãos daqueles que querem um Portugal livre, independente e orgulhoso. Hoje não deve haver português em parte alguma do mundo - o Portugal para além dos oceanos e das montanhas, o Portugal das comunidades em diáspora e o Portugal dos luso-descendentes - que não sinta esse chamamento. Banguecoque celebrou hoje com grande dignidade o Dia de Camões, oferecendo um belo espectáculo de fado na voz de Carminho, que encheu o auditório do Sun Wattatatam Hêeng Phrathét Thay (Centro Cultural da Tailândia). Fiquei surpreendido com a voz, poderosa e dominadora, mas mais espantado com a facilidade com que dominou um auditório desconhecedor da nossa língua. Ao cantar a Bia da Mouraria, o público ovacionou demoradamente e rendeu-se à jovem portuguesa. Depois, foi uma sucessão de reentradas entre fortes aplausos. E dizem que o fado é coisa portuguesa ! Ora, hoje foi dia de fado tailandês.




 
À saída, entre o corpo diplomático e as autoridades tailandesas, forte representação da comunidade católica portuguesa-siamesa que aqui vive desde o século XVI, gente apegadíssima a Portugal e fiéis entre os fiéis ao nosso bom nome. É comevedor saber que esta comunidade, que a tudo sobreviveu - a guerras, perseguições e até à estupidez de Lisboa - se sente tão portuguesa como nós e ainda espera que num qualquer ministério alguém se lembre que no outro lado do mundo há pessoas que exibem com altivez os apelidos Siqueira, Costa, Antunes e Pereira. Perguntem aos holandeses, franceses e britânicos se têm gente desta. Não, porque fomos diferentes e é nessa diferença que reside a nossa sobrevivência. Sim, somos como os judeus. Resistimos teimosamente e parece que a a todas provações podemos sobreviver.

O Embaixador António de Faria e Maya não deixou passar a oportunidade para os lembrar, agradecendo-lhes em nome do Chefe de Estado tudo quanto têm feito para manter na Tailândia o nome de Portugal. Falou em inglês e em Português. Os nossos luso-siameses ficaram emocionados, pois há entre eles um tão fervoroso culto da pátria distante que algumas famílias, com grande sacrifício, enviam os filhos a Portugal para aí aprenderem a língua dos seus avós. O Instituto Camões bem podia atribuir anualmente meia dúzia de bolsa de estudo a estes outros portugueses nascidos nas margens do menam Chao Phraya.



Com os meus amigos luso-siameses Saravut, Capitão-engenheiro da Marinha Real e Net, cadete piloto-aviador da Real Força Aérea da Tailândia. Ontem como hoje, os portuguet soldados.

Acabado o espectáculo, recepção e jantar na embaixada de Portugal. E que jantar, com direito ao bacalhau que não via desde 2007, o vinho das nossas adegas e a doçaria portuguesa conventual que os thais tão bem conhecem, pois adoptaram-na como sua desde que Maria Guiomar de Pina a ensinou aos mestres culinários da corte siamesa em Ayuthia.

A um canto, sentado aos pés de um retrato da nossa D. Maria I, um diplomata luso-canadiano, ex-embaixador do Canadá em Singapura, homem culto e grande conhecedor da nossa história asiática. Conversa interessante, com partilha plena de pontos de vista e uma esperança que teima em não morrer num Portugal restaurado. Soube-me o breve diálogo tão bem como o café. Afinal, Portugal não conhece cartões de identidade e passaportes. Portugal é uma ideia. Acudiu-me de novo a letra da Bia da Mouraria: "embora qualquer dos noivos tenha pouco mais que nada". Isto soa-me ao nosso patriotismo. Não importa saber se somos ricos ou pobres, se os outros têm os bancos e as negociatas que conspurcam o mundo. O importante é saber mantermo-nos portugueses e impedir que nos transformemos em gente de bazar. Um amigo chamou-me a atenção pela não exibição da bandeira europeia na cerimónia da tarde. Pensei no assunto. Erro protocolar, omissão ? Depois, falando com os meus botões concordei: a Europa não é aqui chamada para nada. Nós somos do mundo, um pouco na Europa, muito nas Américas e em África, um bom pedaço na Ásia. Ora, não precisamos da Europa para nada.

Acabou a noite. Um agradecimento especial à Carminho e à nossa embaixatriz Maria da Piedade, que fizeram a festa e nos preencheram a alma saudosa de Portugal.
Ai de ti Lusitânia, que dominarás em todas as nações...
 

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Cabeça de Martelo

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« Responder #1 em: Junho 12, 2009, 10:38:45 am »
Muito interessante, sem dúvida alguma, muito interessante. :wink:
7. Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais que os outros.

 

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Luso

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« Responder #2 em: Julho 20, 2009, 07:22:38 pm »
Como aqui se fala da Tailândia coloco mais um postal do Combustões, um blogue que fácilmente emociona quem se sente português:

19 Julho 2009
Na aldeia portuguesa de Banguecoque

 
O convite veio há dias: "queremos que cá venha no próximo domingo para falarmos sobre os portugueses que aqui vivem há mais de duzentos anos". No trabalho de investigação que realizo em Banguecoque desde finais de 2007, tenho lido e folheado muitos milhares de páginas de livros e jornais, muitos documentos manuscritos e mapas existente em bibliotecas e arquivos, mas raramente se proporciona ter acesso às pessoas que hoje representam a comunidade luso-descendente que subsiste na Tailândia. Encontro-os esporadicamente e com eles troco impressões em iniciativas promovidas pela nossa embaixada ou pelas autoridades que neste país respondem pela cultura. Em jantares, convívios e espectáculos por ocasião do 10 de Junho, em conferências ou até em visitas ao parque arqueológico de Ayuthia (antiga capital) tenho sempre o prazer de encontrar os líderes dessa comunidade resistente que obstinadamente se mantém neste outro lado do mundo.

Percorro as vielas da aldeia - terreno inalienável da Igreja - e vou deparando a cada passo com marcas dessa afirmação de soberania católica. Em cada casa, orgulhosos e públicos, o nome da família que a habita e um crucifixo. Flores à janela, azulejos, um rosário pendendo na porta assinalam que ali há um eco do Portugal distante. É um velho mundo, um bandel em plena capital da Tailândia. Ali respira-se um catolicismo militante. Toda a comunidade, estimada em 3000 pessoas distribuídas por 130 famílias, vive para si, casa entre si, transmite memórias e mitos familiares.

É com incontida satisfação que dizem "bão dia, como está ?" e me mostram a escola dirigida pelos padres da paróquia. Ali estudam centenas de miúdos e, caso raro num país em que quase 90% da população é budista, na Escola da Conceição 70% dos alunos são católicos e são Fonsecas, Costas, Cruzes, filhos, netos, bisnetos e tetranetos de Rosas, Marias, Jesus, Antónios e Josés. No auge do fascismo tailandês, em finais da década de 30 e durante a guerra, foram particularmente visados pela repressão do governo de Phibun Songkram. Perderam o direito aos nomes de família, aos nomes cristãos, às procissões e festividades. Porém, se o bilhete de identidade lhes fixava nomes thais, continuavam a charmar-se entre portas pelos nomes de baptismo.


 
Estes são os luso-siameses de hoje. Ao contrário do que aconteceu nas restantes lusotopias do Sudeste-Asiático, onde as populações de ascedência portuguesa sofreram declínio acentuado, graças à acção convergente dos regimes coloniais britânico (Birmânia) e francês (Camboja), mas também - importa dizê-lo sem rebuço - de muita incompreensão e repetidas tentativas do clero francês e italiano para erradicar a lembrança das raízes portuguesas, na Tailândia os luso-descendentes mantêm dignidade social e profissional. Encontro um médico, um oficial da armada, um professor universitário e um botânico. Na sua maioria evitam os negócios, essa especialização em fazer dinheiro; logo, suspeita aos olhos de pessoas como estas. Gente servidora do Estado, trabalha maioritariamente nos ministérios, lembrando o tempo em que eram funcionários do Rei e especialistas no quadro do "feudalismo siamês" que aqui dava pelo nome de Sakdina. Ontem como hoje falta-lhes a abastança, mas reconhece-lhes no tom, na educação e na atitude um longo historial familiar.

Tinham-me pedido uma curta palestra. Mas o que dizer a pessoas que sabem mais que eu ? Estas pedras vivas falam com naturalidade de um bisavô diplomata, de um tetravô general, de um remoto antepassado que fora servidor no palácio. Por eles passou, durante muitas décadas, a intermediação entre os europeus que aqui chegavam e as autoridades. Foram intérpretes, responsáveis portuários, comandantes da marinha, remadores das barcas reais, secretários do Rei e do Uparat (o segundo Rei), serviram o Phraklang (equivalente a ministro do comércio) e, depois, com o advento do Estado Moderno e burocrático, sobreviveram graças à inteligência, lealdade à coroa e reputação impoluta. Limitei-me - ver aqui - uma palestra de uma hora sobre generalidades que com simpatia foi escutada. Depois, uma longa conversa sobre coisas comuns. À cabeça, naturalmente, Portugal.

A aldeia católica encontra-se dividida em duas paróquias: a de S. Francisco Xavier, habitada por "vietnamitas" aqui chegados durante as duras perseguições anti-católicas da dinastia Nguyen contra os hoalang e a paróquia de Nossa Senhora da Conceição. Na paróquia, a fachada fluvial é habitada por luso-siameses e nas traseiras da igreja vivem os luso-cambojanos. O bairro foi, durante muito tempo conhecido por Ban Khamen (Aldeia Khmér), mas os dois grupos miscigenaram-se e hoje dessa separação étnica subsiste apenas na diferenciação dos espaços - estar perto do rio, estar longe do rio - e no tom de pele mais escuro próprio de alguns "luso-cambojanos".
Passamos pela igreja. A missa das quatro da tarde terminara e os padres preparavam-se para rezar a missa das cinco. O pároco ofereceu-me uma medalha com uma Nossa Senhora da Conceição. No interior da igreja, uma trintena de fiéis aguardava o início do serviço litúrgico. Um idoso sentado numa cadeira de rodas disse-me ter oitenta e seis anos. Desfiava as contas de um rosário de vidro verde e ostentava uma dignidade senhorial que me impressionou. Lembrei-me de um velho amigo dos meus pais, o Senhor Fonseca, goês que abandonou Goa por Lourenço Marques em 1961, pois queria morrer português em terra portuguesa. Ontem como hoje, o espírito de resistência do velho Oriente tornado português.

Seguimos para o cemitério. Está superlotado e, agora, com um sorriso os meus anfitriões dizem-me só ser possível ali conseguir a última morada nos "condomínios", ou seja, nos gavetões. Desfiam o parentesco de todos os que ali repousam o sono eterno.

Seis da tarde. Não dera pela passagem do tempo. Um café, bolinhos e a marcante gentileza do líder da comunidade em acompanhar-me até ao limite da aldeia. Para este passeio levei comigo um amigo francês, que compreende bem o que isto significa, pois é francês nascido na Argélia, como eu sou português nascido em Moçambique. No autocarro que me trouxe ao centro disse-me: "que gente tão amável. Note-se: vivem no seu mundo e não noutro mundo". Não pude dizer mais nada. Eles vivem no seu pedaço de Portugal. Se eu mandasse, dava-lhes de imediato a cidadania portuguesa.

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TOMSK

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(sem assunto)
« Responder #3 em: Julho 21, 2009, 07:12:16 pm »
Citação de: "Combustões"
Afinal, Portugal não conhece cartões de identidade e passaportes. Portugal é uma ideia. Acudiu-me de novo a letra da Bia da Mouraria: "embora qualquer dos noivos tenha pouco mais que nada". Isto soa-me ao nosso patriotismo. Não importa saber se somos ricos ou pobres, se os outros têm os bancos e as negociatas que conspurcam o mundo. O importante é saber mantermo-nos portugueses e impedir que nos transformemos em gente de bazar. Um amigo chamou-me a atenção pela não exibição da bandeira europeia na cerimónia da tarde. Pensei no assunto. Erro protocolar, omissão ? Depois, falando com os meus botões concordei: a Europa não é aqui chamada para nada. Nós somos do mundo, um pouco na Europa, muito nas Américas e em África, um bom pedaço na Ásia. Ora, não precisamos da Europa para nada.


Esta parte está um mimo. :Bajular:
 

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Duarte

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Re: 10 de Junho na Tailândia
« Responder #4 em: Março 24, 2010, 02:26:57 pm »
Eu conheci hoje um aluno universitário oriundo da Tailândia, em conversa referi que era português e ele disse-me logo, todo orgulhoso, que tinha ascendência portuguesa, que a bisavó era Portuguesa.
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«Os chamados partidos políticos, por definição e exigências da sua vida própria, não representam nem podem servir a unidade nacional» Salazar