Kissinger

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Kissinger
« em: Março 02, 2005, 02:00:35 pm »
A "luz verde" de Kissinger ao banho de sangue da Argentina*

Fonte: Tribuna da Imprensa

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NOVA YORK (EUA) - Robert Hill, diplomata conservador que era embaixador dos EUA em Buenos Aires em 1976, saudou com satisfação o golpe militar que derrubou naquele ano a presidente Maria Estela (Isabelita) Martínez de Perón. Antes, ele costumava andar cercado de guarda-costas para não ser vítima dos seqüestros ou assassinatos de grupos terroristas que assustavam os homens de negócios americanos.

Mas documentos do Departamento de Estado examinados por Martin Edwin Andersen (autor do livro "Argentina's desaparecidos and the myth of the 'Dirty War'", sobre o papel dos EUA na guerra suja argentina) mostram que Hill era um homem digno. Ele advertiu os superiores em Washington, em especial o secretário de Estado Henry Kissinger: se os EUA não agissem, viria um banho de sangue.

Tanto os documentos disponíveis hoje, como depoimentos de outros diplomatas dos EUA, deixam claro ter sido mais um crime de Kissinger. Ele optou por ignorar Hill e dar luz verde à matança. E cinicamente recomendou aos militares assassinos que fossem "rápidos e eficientes" na tarefa macabra, concluindo o sangrento acerto de contas até janeiro de 1977, quando o Congresso americano encerraria seu recesso.

Os amigos Pinochet e Guzzetti

A autorização do secretário de Estado foi dada formalmente numa reunião de 90 minutos, no Hotel Carrera de Santiago do Chile - em frente ao Palácio de la Moneda. E quem recebeu o "nihil obstat" de Kissinger foi o então ministro argentino do Exterior, almirante César Guzzetti, num momento em que a ditadura militar, recém-instalada, ainda temia sofrer alguma represália dos EUA por seus abusos e excessos.

Andersen cita anotação de Hill: "O secretário não levantou essa questão. Guzzetti então resolveu tomar a iniciativa. Em seguida Kissinger perguntou quanto tempo os argentinos precisavam para limpar o terreno. E Guzzetti garantiu que faria tudo até o fim do ano, obtendo o respaldo de Kissinger".

A viagem de Kissinger ao Chile fora para participar da assembléia geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), em junho de 1976. Reuniu-se então com o ditador Augusto Pìnochet, a quem avisou para não dar maior importância ao discurso que faria com referências aos direitos humanos. Que ficasse tranqüilo, pois não se falaria mais disso. De fato, o discurso - sob o título "Os direitos humanos e o hemisfério ocidental" - foi um primor de cinsmo, falando da "necessidade de proteger e ampliar os direitos fundamentais da Humanidade".

Kissinger reuniu-se em separado, a portas fechadas, com as autoridades dos dois regimes mais sanguinários do continente - não para repreendê-los. Disse a Pinochet e Guzzetti estar satisfeito com o rumo das coisas. Um protegido do secretário de Estado, Harry Schlaudeman, também estava presente, como secretário Assistente para a América Latina, e supervisor direto dos embaixadores dos EUA na região.

Derrota de Ford mudou o quadro

Segundo Edwin Andersen, em agosto Hill viu a inutilidade de seu esforço pessoal para deter a matança na Argentina e resolveu discutir o tema pessoalmente com Kissinger, numa viagem entre San Francisco e Washington. O secretário, então certo de que o republicano Gerald Ford derrotaria Jimmy Carter e o manteria no cargo, limitou-se então a confirmar a conversa com o almirante Guzzetti.

Claro que Kissinger só exigia uma coisa dos generais assassinos da Argentina - que exterminassem os subversivos até janeiro de 1977, do contrário haveria problemas para a Casa Branca no Congresso. A luz verde e o prazo fixado serviram para intensificar o banho de sangue, pois os militares argentinos sentiram-se na obrigação de serem ainda mais implacáveis, no ritmo e na eficácia macabra, devido ao prazo fatal.

Alarmado, Hill ainda enviou outro memorando, conclamando Kissinger a votar no BID contra um empréstimo pleiteado por Buenos Aires, devido à deterioração dos Direitos Humanos. Mas Schlaudeman, superior imediato de Hill, sequer levou o memorando a Kissinger. Preferiu tentar convencer o diplomata a esquecer o assunto, pois o secretário apoiava o empréstimo e o demitiria se visse o papel.

Entre os que confirmaram a Andersen detalhes do relato escabroso estavam Wayne Smith, conselheiro político de Hill em Buenos Aires à época; Robert White, subchefe da delegação dos Estados Unidos à conferência da OEA em Santiago; Patricia Derrian, secretária de Estado assistente para Direitos Humanos durante o governo seguinte (de Carter); e outros que preferiram não ser identificados.

O cínico padrinho da matança

Uma das fontes que optaram pelo anonimato, temendo o poder que Kissinger tem até hoje na comunidade diplomática (como mostrou o confronto que levou à saída do professor Kenneth Maxwell, da revista "Foreign affairs"), disse a Andersen ter ouvido de alta autoridade argentina a alegação de que a ditadura de fato fora pessoalmente autorizada pelo secretário de Estado a aplicar a receita da "solução final".

Vale lembrar ainda que dois anos depois o ditador Jorge Videla, sabendo do interesse de Kissinger pelo futebol, tornou-o convidado especial à Copa do Mundo de 1978 - como uma espécie de padrinho americano do banho de sangue argentino. E os generais não só faturaram a visita como encomendaram uma entrevista na qual Kissinger repudiou as críticas públicas do então presidente Carter à Argentina.

Já ex-secretário, Kissinger ainda defendeu a ditadura sanguinária, ao considerar os direitos humanos "uma baixa necessária na luta antiterrorista". Carter repudiou a cumplicidade americana com os assassinos, mas ele voltaria à cena dos crimes hediondos em 1981, no governo Reagan: com a ajuda de Vernon Walters e Jeanne Kirkpatrick, restaurou então as relações promíscuas, só rompidas de novo em 1983, com o eixo Washington-Londres nas Malvinas.

*Argemiro Ferreira
As pessoas te pesam? Não as carregue nos ombros. Leva-as no coração. (Dom Hélder Câmara)
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