História da componente submarina da Marinha Portuguesa

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Jorge Pereira

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História da componente submarina da Marinha Portuguesa
« em: Setembro 13, 2004, 08:36:25 pm »
Caros amigos do ForumDefesa.com:

Realizei este pequeno trabalho sobre a história da componente submarina da Marinha Portuguesa para ficarmos todos a conhecer a sua evolução histórica desde o seu nascimento até os dias de hoje.

As primeiras experiências submarinas na península ibérica tiveram lugar no rio Tejo, em 1538, quando se experimentou uma espécie de câmara em forma de sino para alojar mergulhadores. Poucas décadas mais tarde em 1580, mergulhadores portugueses atacaram por debaixo da água uma frota espanhola fundeada em Lisboa.

Em 1889, O Primeiro-Tenente João Augusto Fontes Pereira de Melo, projectou um submarino movido por baterias de acumuladores, em imersão, e por um motor de petróleo em superfície. O Estado-Maior da Marinha Portuguesa aceitou a iniciativa que não passou nunca da fase experimental ao ser rejeitada pelo Governo.

Em 1905 outro oficial, o Também Primeiro-Tenente Valente da Cruz apresentou um novo projecto que também não foi desenvolvido.

Em 1907, o Governo autorizou a aquisição no estrangeiro de navios submarinos, sendo assinado três anos mais tarde um contrato com os estaleiros italianos de “La Spezia”, para a construção de um submarino tipo “Laurenti-Fiat” de 245 toneladas. (300 em imersão). No dia 15 de Abril de 1913 foi recebido o “Espadarte”, em Itália, e após uma acidentada viajem, atracou na doca de Belém. O “Espadarte” tinha um comprimento de 45 metros e desenvolvia uma velocidade de 14 nos em superfície e de 8 em imersão. A sua autonomia era de 1500 milhas e o armamento principal era constituído por quatro torpedos que podiam ser lançados através de dois tubos na proa. É interessante aqui assinalar que nesta altura ainda faltavam 5 anos para que a Espanha tivesse o seu primeiro submarino.

Em 1914 é constituída a Escola de Navegação Submarina o que faz dela uma das mais antigas do mundo.

Em 1917 a Marinha Portuguesa adquiria os “Foca”, “Golfinho” e “Hidra”, também do tipo ”Laurenti-Fiat” embora algo maiores que o “Espadarte” ao deslocar 260 toneladas em superfície e 389 em imersão e ao aumentar-se a capacidade dos seus tanques de combustível, passando a sua autonomia das 1500 para as 3500 milhas. A dotação era igualmente constituída por 21 homens e o seu armamento era idêntico ao do ”Espadarte”. Com estes quatro navios constituiu-se a 1ª Esquadrilha de Submarinos.



Submarino da 1ª Esquadrilha


Em 1930 ao contemplar o Programa Naval a substituição dos navios da já antiga 1ª Esquadrilha, o Governo Português encomendou 3 novos submarinos da classe “Vickers-Armstrong”, que viriam a constituir a 2ª Esquadrilha de Submarinos. Fabricados em Barrow, os “Delfim”, “Espadarte” e “Golfinho”, deslocavam 854 toneladas em superfície, 1105 em imersão e eram navios muito superiores aos “Laurenti”. O seu armamento era constituído por um canhão de quatro polegadas na proa e um de montagem dupla na popa. Com quatro tubos lança torpedos na proa e dois na popa podiam levar um total de 12 torpedos. A tripulação era constituída por 38 homens e seu raio de acção era de 5000 milhas a 10 nos. Estes submarinos entraram ao serviço em Maio de 1934.
 


Submarinos da 2ª Esquadrilha


Finalizada a Segunda Guerra Mundial, foram adquiridos no Reino Unido em boas condições financeiras, três submarinos: Os “Spur”, “Saga” e “Spearhead”, que passaram a constituírem a 3ª Esquadrilha de Submarinos. Pertenciam todos à classe “S” a maior das construídas pela Royal Navy, com 63 unidades. Estes navios de mediana tonelagem (814 toneladas em superfície e 990 em imersão foram concebidos tanto para operar no Mar do Norte como no Mediterrâneo. O projecto inicial, de 1929, concebia-os como substitutos da obsoleta classe “H” e durante a Segunda guerra Mundial sofreu três modificações.
Os submarinos portugueses “Narval” (ex Spur), “Nautilo” (ex-Saga) e Neptuno (ex-Spearhead) pertenciam ao terceiro grupo da classe “S” todos eles acabados de construir entre 1944 e 1945 em Cammell Laird vindo para a Marinha Portuguesa em 1948 com pouco mais de três anos de uso. A sua velocidade era de 15 nos em superfície e 10 em imersão, com uma autonomia de 6000 milhas a 10 nos. O armamento era constituído por um canhão de 4 polegadas, outro canhão Oerlikon de 20 mm. e três metralhadoras Vickers. A proa tinha seis tubos lança torpedos, e o número máximo de torpedos transportados era de 12.

Com os avanços tecnológicos aparecidos durante a Segunda Guerra Mundial (invenção do snorkel, aperfeiçoamento do sonar, desaparição da artilharia, etc.) fizeram que a vida útil dos 3 submarinos da classe “S” fosse muito curta.

Por este motivo em 1964 o Governo Português encomendou aos estaleiros "Dubigeòn-Normándie", de Nantes (França) a construção de 4 submarinos da classe "Daphné" se bem com algumas modificações em função das especificações da Marinha. Entre 1967 e 1969 foram entregues os “Albacora” (S-163), “Barracuda” (S-164), “Cachalote” (S-165) e “Delfim” (S-166), constituindo-se a 4ª Esquadrilha de Submarinos. Em 1975 o “Cachalote” foi vendido à França que, posteriormente, o cedeu ao Paquistão.
Esta classe de submarinos é a que se encontra operacional hoje em dia até a chegada dos novos U209-PN, que passarão a constituir a futura 5ª Esquadrilha de Submarinos.
Um dos primeiros erros do mundo moderno é presumir, profunda e tacitamente, que as coisas passadas se tornaram impossíveis.

Gilbert Chesterton, in 'O Que Há de Errado com o Mundo'






Cumprimentos
 

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Rui Elias

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« Responder #1 em: Dezembro 27, 2005, 01:57:50 pm »
Entretanto, o NRP Delfim efectuou recentemente a sua viagem em submersão, entre Sesimbra e Lisboa, para despedida.

Ficará atracado na BNL até 2007, altura em que seguirá viagem para Viana do Castelo, onde será musealizado.

Não se sabe se em flutuação ou em doca seca.

Por esse motivo, o NRP Barracuda será o único dos 4 Daphné que se manterão ao serviço da Armada até à entrega do 1º U-209PN prevista para 2009.
 

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Miguel

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« Responder #2 em: Dezembro 27, 2005, 02:22:16 pm »
Citação de: "Rui Elias"
Entretanto, o NRP Delfim efectuou recentemente a sua viagem em submersão, entre Sesimbra e Lisboa, para despedida.

Ficará atracado na BNL até 2007, altura em que seguirá viagem para Viana do Castelo, onde será musealizado.

Não se sabe se em flutuação ou em doca seca.

Por esse motivo, o NRP Barracuda será o único dos 4 Daphné que se manmterão ao serviço da Armada até à entrega do 1º U-209PN prevista para 2009.


Boa noticia Rui :twisted:
 

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Rui Elias

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« Responder #3 em: Dezembro 27, 2005, 04:49:14 pm »
Eu acho que a cidade de Viana está de parabéns.

Apesar do Gil Eanes não ser um navio militar, foi bom terem-no preservado, dado o seu carácter logístico e de valência hospitalar.

Como os colegas sabem, apesar de Portugal através do futuro LPD passar a ter essa capacidade, eu gostaria que a Marinha contasse com um navio-hospital dedicado para acudir a catástrofes, e instrumento de cooperação.
 

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C. E. Borges

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« Responder #4 em: Fevereiro 12, 2006, 11:54:18 pm »
De uma irreprimível surpresa e curiosidade :
Manuel Nemésio, ao que julgo saber o filho mais velho de Vitorino Nemésio, hoje reformado da Armada Nacional, foi Comandante de Submarino. Soube isto assim, de repente, no meio de uma conversa a propósito do Escritor.
 

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balburdio

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Re: História da componente submarina da Marinha Portuguesa
« Responder #5 em: Março 08, 2006, 01:27:27 pm »
Este era o submarino Fontes, do projecto de Fontes Pereira de Melo



O autor escreveu um livro: "Memoria ... Submarino Fontes"
Este submarino seria movido a petróleo à superfície e a electricidade em submersão.

Foi construido um modelo experimental à escala que foi testado no rio Tejo. Este modelo realizou várias experiencias de submersão mas desenvolveu problemas de corrosão devido aos materiais utilizados.
No decurso de reparações em doca seca, o casco do aparelho, presumivelmente devido ao enfraquecimento provocado pela corrosão, cedeu e o protótipo ficou inutilizado.
A crónica falta de verbas da época (que ainda se mantém) determinou o abandono do projecto.
Foi lamentavel visto que se perdeu uma possível mais valia tecnológica numa altura em que a arma submarina se afirmava.
E Portugal teria entrado no clube das nações pioneiras na construção de submarinos com o pé direito dado que este projecto correspondia à tecnologia com mais potencialidades na época: a da propulsão petróleo-eléctrica.

Quanto aos submarinos da 1ª esquadra, uma nota curiosa é o facto de que já nessa aquisição a Marinha Portuguesa solicitou alterações ao projecto inicial.
Eram submarinos Diesel-Eléctricos de 45 metros que desenvolviam 15 nós à superfície e 10 em submersão valor elevado para a época.
O raio de acção como refere o Jorge Pereira no seu artigo foi alterado a pedido da Marinha, de 1.500 para 3.500, outras alterações incidiram nas baterias, tambem elas reforçadadas e no motor diesel de modo a que mesmo com o maior peso tivessem as mesmas prestações.
De notar que com esta autonomia os submarinos já podiam ser considerados oceanicos. Teriam uma autonomia em submersão para 120 milhas a 4,5 nós e podia descer a 50 metros.

A propulsão ficava a cargo de 2 motores Diesel de 350cv de 2 tempos e 6 cilindros, acionando cada um o seu eixo ligado a élice de 3 pás.
Em submersão entravam em funcionamento 2 motores eléctricos de 270cv cada, alimentados por bateria de acumuladores de 2.400 AH

Consta que teria havido um submarino adquirido antes do Espadarte, utilizado para testes e que poderia ser do tipo do "Plongeur" ou o próprio "Plongeur" francês. Esta aquisição foi feita em 1892, portanto ainda na Monarquia.
 

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JoseMFernandes

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« Responder #6 em: Novembro 05, 2006, 03:42:16 pm »







Imagens (retiradas de m/colecção de revistas da época e pedindo desculpa da sua qualidade) referentes aos submarinos Espadarte ( ent. em serviço em 1913) e Delfim (1934- neste caso com direito a capa no Século Ilustrado).Um mero complemento gráfico ao (excelente) texto de Jorge Pereira.
 

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Luso

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« Responder #7 em: Novembro 05, 2006, 08:01:24 pm »
Rainer Daehardt afirmou numa obra sua - cujo nome não recordo - que o Conde de Lippe apresentou uma proposta ao rei (D. José ?) a construção de um submarino para navegar... sob o gelo do Ártico...
No séc. XVIII!  :shock:
Poderia ser uma boa referência para o fórum se alguém pudesse acrecentar alguma coisa quanto a este episódio.
Ai de ti Lusitânia, que dominarás em todas as nações...
 

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SSK

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« Responder #8 em: Maio 16, 2007, 05:18:02 pm »
Citar
Rainer Daehardt afirmou numa obra sua - cujo nome não recordo - que o Conde de Lippe apresentou uma proposta ao rei (D. José ?) a construção de um submarino para navegar... sob o gelo do Ártico...
No séc. XVIII!  


grande maluco esse Rainer, como seria o modo de propulsão a pedais ou à vela... devia de ser lindo...

brincadeiras à parte vou ver se vejo algo sobre o assunto...
"Ele é invisível, livre de movimentos, de construção simples e barato. poderoso elemento de defesa, perigosíssimo para o adversário e seguro para quem dele se servir"
1º Ten Fontes Pereira de Melo
 

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SSK

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« Responder #9 em: Maio 20, 2007, 10:40:11 am »
Como é hoje é o dia da nossa gloriosa Marinha de Guerra deixo-vos algumas fotos que fazem parte da história dos Submarinos/Submersíveis:



ESPERO QUE TENHAM GOSTADO :Palmas:
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Cabeça de Martelo

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« Responder #10 em: Maio 21, 2007, 12:26:12 pm »
Este tópico está excelente!
7. Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais que os outros.

 

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HSMW

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Re: História da componente submarina da Marinha Portuguesa
« Responder #11 em: Agosto 06, 2010, 01:46:16 pm »
E que não seja esquecido.
http://www.youtube.com/profile_videos?user=HSMW

"Tudo pela Nação, nada contra a Nação."
 

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Lightning

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Re: História da componente submarina da Marinha Portuguesa
« Responder #12 em: Agosto 06, 2010, 10:48:39 pm »
Na página da Marinha também não se esquece

http://www.marinha.pt/pt/amarinha/meios ... toria.aspx
 

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P44

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Re: História da componente submarina da Marinha Portuguesa
« Responder #13 em: Agosto 07, 2010, 12:49:50 pm »
Caro SSK

o tal projecto de levar o DELFIM para Viana do Castelo para servir como museu ainda se mantêm?
"[Os portugueses são]um povo tão dócil e tão bem amestrado que até merecia estar no Jardim Zoológico"
-Dom Januário Torgal Ferreira, Bispo das Forças Armadas
 

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SSK

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Re: História da componente submarina da Marinha Portuguesa
« Responder #14 em: Agosto 11, 2010, 11:08:32 pm »
Boas pergunta...

Prometer é fácil, cumprir é sempre um pouco mais complicado... Segundo julgo saber tudo se mantém, mas há muito que não sabe notícias...

Não prometo nada :lol:  :lol:
"Ele é invisível, livre de movimentos, de construção simples e barato. poderoso elemento de defesa, perigosíssimo para o adversário e seguro para quem dele se servir"
1º Ten Fontes Pereira de Melo
 

 

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