Artigos/Historia de Empresas/industrias Portuguesas

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miguelbud

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Re: Artigos/Historia de Empresas/industrias Portuguesas
« Responder #15 em: Fevereiro 01, 2013, 05:32:19 pm »
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Manteiga Marinhas: O requinte da tradição artesanal

Graças ao seu sabor único foi considerada uma das melhores manteigas artesanais do mundo pela revista britânica Wallpaper. Embrulhada no tradicional papel vegetal, a manteiga Marinhas é produzida por uma pequena fábrica em Esposende. Um produto 'gourmet' que chega ao mercado a preços acessíveis.

Esta manteiga requintada, sem corantes nem conservantes, é confecionada a partir das natas provenientes da produção do queijo Marinhas – produto mais vendido pela empresa e que assegura a sustentabilidade da mesma. Mas o que a destaca definitivamente das 'outras' manteigas, é o facto de ser produzida através do método artesanal.
 
Berta Castilho, sócia-gerente da empresa, herdou do pai o património Laticínios Marinhas criado em 1954 pelo seu avô. A responsável explicou ao Boas Notícias que decidiu preservar os métodos de produção utilizados desde sempre na empresa, garantindo um cunho familiar e tradicional, ainda que salvaguardando sempre a segurança alimentar.
 
“Para nós, a segurança alimentar passa por garantirmos, através de um sistema implementado, testado, verificado e certificado, o controlo dos nossos produtos, desde a matéria-prima à mesa do consumidor, ou seja, do prado ao prato”, explica.

Lojas 'gourmet' e hotéis de luxo
 
Tão ou mais importante do que o reconhecimento alcançado através do artigo publicado, no Verão de 2008, na revista Wallpaper, é o valor dado à marca em território nacional: a manteiga Marinhas está presente na mesa de hotéis de luxo nacionais (como o Vintage, em Pinhão) assim como em lojas 'gourmet'. Apesar da qualidade e da produção manual, a manteiga Marinhas está também presente nas grandes superfícies e o seu preço de venda é acessível: uma manteiga de 125gr custa cerca de 1.35 euros.

Image and video hosting by TinyPicUm caso de sucesso que, segundo Berta Castilho, resulta “da dedicação e do cuidado que a empresa põe naquilo que produz”. Para além da divulgação da marca Laticínios Marinhas, Berta acredita que a expansão dos produtos no mercado nacional é um elemento determinante para promover o concelho e apresentar ao país o que se faz de melhor em Esposende.
 
“Os produtos fabricados contribuem para a divulgação dos pontos de interesse do concelho, pois os artigos ao apresentarem nos seus rótulos os moinhos da Abelheira, a ponte de Fão e as vacas a pastar no rio, o paredão e a barra do rio Cávado promovem o município”, realça a sócia-gerente.

Mais qualidade, menos quantidade

A procura interna é tanta que, por vezes, há falta do produto nos estabelecimentos comerciais, até porque a pequena dimensão da Marinhas - que emprega atualmente 27 pessoas - não permite um aumento drástico da produção. E, por enquanto, não existem planos para expandir a venda desta manteiga para o estrangeiro já que a Marinhas prefere assegurar a qualidade, evitando a produção em massa.

A par da manteiga, o consumidor pode degustar outros produtos que a fábrica produz também de forma artesanal, como o queijo Marinhas magro, o queijo Cávado (flamengo), o queijo amanteigado e o queijo fundido. Esta gama de artigos completa a oferta desta empresa que aposta na história para marcar a diferença no mercado.
 

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Re: Artigos/Historia de Empresas/industrias Portuguesas
« Responder #16 em: Fevereiro 06, 2013, 10:45:26 am »
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Deslocalização
Fábrica da Steiff em Oleiros fecha hoje

Económico  
06/02/13 09:09


A Steiff, empresa alemã responsável pelo fabrico dos primeiros ursos de peluche do mundo, fecha hoje a fábrica que tem em Oleiros.

Os 103 trabalhadores da fábrica que abriu há 22 anos trabalharam ontem pelo último dia. A empresa vai deslocalizar a produção, sendo a Tunísia a próxima paragem.

A decisão de encerramento já era conhecida, depois de meses de negociações e reuniões com o Ministério da Economia e o IAPMEI, e é hoje concretizada.

http://economico.sapo.pt/noticias/fabri ... 62032.html
"[Os portugueses são]um povo tão dócil e tão bem amestrado que até merecia estar no Jardim Zoológico"
-Dom Januário Torgal Ferreira, Bispo das Forças Armadas
 

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Re: Artigos/Historia de Empresas/industrias Portuguesas
« Responder #17 em: Fevereiro 18, 2013, 12:06:41 pm »
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Coca Cola concentra actividades em Espanha, põe em risco as de Portugal

Leonor Elias 17 Fev, 2013, 20:40 / atualizado em 17 Fev, 2013, 21:53
Está em risco a operação da Coca Cola em Portugal. Não se conhecem para já pormenores. Sabe-se que a marca norte-americana decidiu concentrar em Madrid o negócio do engarrafamento. A reestruturação vai atingir a portuguesa Refrige, responsável pela produção, engarrafamento e distribuição dos produtos da marca norte-americana em Portugal. A Comissão da Concorrência espanhola já autorizou o negócio.

http://www.rtp.pt/noticias/index.php?ar ... &visual=61
"[Os portugueses são]um povo tão dócil e tão bem amestrado que até merecia estar no Jardim Zoológico"
-Dom Januário Torgal Ferreira, Bispo das Forças Armadas
 

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miguelbud

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Re: Artigos/Historia de Empresas/industrias Portuguesas
« Responder #18 em: Julho 04, 2013, 09:13:00 pm »
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Uma multinacional nascida em Portugal e que tem sabor a fruta

Milhares de iogurtes e de gelados consumidos em Portugal, Espanha, França, Norte de África e África do Sul têm o sabor dos preparados de fruta feitos pela Frulact, que é hoje uma das cinco principais empresas europeias do sector

João Miranda | As experiências nas empresas deram-lhe a certeza de que poderia fazer mais e melhor e reforçaram a sua vontade de empreender.

Foi uma ideia que surgiu na cabeça de um pai que tinha um filho que queria ser empresário. A Frulact nasceu para fazer o preparado de fruta que num iogurte representa, em média, entre 8 e 12% do preço de venda ao público. Esta fatia multiplicou-se em copos e copos de iogurte até chegar a vendas superiores a 100 milhões de euros, dos quais menos de 4% no mercado interno português.

Esta multinacional de "bolso" portuguesa tem sete fábricas distribuídas por Portugal (3), França, Argélia, Marrocos e África do Sul. É uma história de esforço, resistência, inovação, vontade e a glória de ser a primeira empresa a receber o Prémio Excellens Oeconomia, promovido pela PwC e pelo Negócios. Uma história que merece ser contada em vários capítulos.

Das experiências noutras empresas a empreendedor
ActualmentChief Executive Officer (CEO) da Frulact, João Miranda ainda estudava quando começou a trabalhar. Primeiro na gestão de stocks de uma oficina de tractores. Depois, na parte administrativa de uma estamparia. Estas experiências nas empresas deram-lhe a certeza de que poderia fazer mais e melhor e reforçaram a sua vontade de empreender.

O pai, Arménio Miranda, de tanto o ouvir manifestar a vontade de ter o seu próprio negócio, propôs-lhe, certo dia, montar uma empresa que fizesse o caramelo e o doce de chila que a Longa Vida colocava nos iogurtes. "O meu pai foi e continua a ser reconhecido como um técnico brilhante. Foi ele quem pela primeira vez em Portugal desenvolveu e lançou na Longa Vida os iogurtes com fruta, nomeadamente o de chila, bem como, muitos outros produtos inovadores no seu tempo", lembra João Miranda.

João contava ainda com o irmão, Francisco, que "é seguramente um dos mais reputados técnicos na produção de queijo, tendo-se formado em França". Se a ideia era boa e o apoio técnico tinha excelência, a vontade de João Miranda movia montanhas.

O caminho poderia não ser fácil, mas o cliente ficava perto. Moravam em Lavra, onde se situava a fábrica de iogurtes e a família Miranda propôs à Longa Vida que deixassem "de fazer estes dois produtos na sua fábrica, para passarem a comprar a um fornecedor externo, neste caso, à Frulact". Como a empresa de iogurtes - então ainda com capitais portugueses e que só nos anos 90 foi vendida à Nestlé - aceitou a proposta, começou a vida infernal de João Miranda. Mas quem corre por gosto muitas vezes alcança.

Um projecto que começou no fundo do quintal
Em 1987, tinha João Miranda 22 anos, e no fundo do quintal da moradia onde estavam os patos, as galinhas e os cães de caça do pai nasceu a Frulact, que mais não era do que um alambique, barricas e alguma mão-de-obra ocasional, para transformar cerca de 350 toneladas de chila por ano e a produção de caramelo.

Frequentava o 2.º ano de Gestão, no ensino nocturno do I.T.F.I. - Instituto Técnico de Formação e Investigação, quando, "algures em Novembro", situa a memória de João Miranda, entrou na sala para fazer um exame de uma cadeira de Direito. "Estava completamente esgotado, pois estava em plena campanha de chila… De Setembro até final de Novembro processávamos, numa instalação arrendada a um familiar em Barcelos, cerca de 300 toneladas de chila. O dia começava para mim às 4h00 e acabava cerca da meia-noite".

Sentou-se, olhou para o teste, levantou-se e devolveu o teste ao professor, Luís Freire de Andrade, explicando-lhe que não estava "em condições físicas nem psicológicas para fazer o teste", o que quase deixou o professor em estado de choque. Este episódio fê-lo abandonar os estudos, mas não deixou de ir à escola pedir desculpa ao professor e convidá-lo a visitar a Frulact, então uma microempresa desconhecida.

Pouco tempo depois convenceu-o a dar "assessoria jurídica" na área laboral. Mais tarde, como recorda, pediu a Luís Freire de Andrade que lhe indicasse uma pessoa com competências na área financeira, economia, fiscalidade, contabilidade, estratégia, etc. e assim surgiu na Frulact, Nuno Osório, hoje vice-presidente deste grupo empresarial.

As novas fábricas em Portugal
Em 1992, iniciou-se o ciclo industrial moderno da Frulact, abandonando as incipientes instalações na Lavra quando decidiram arriscar a construção de uma fábrica moderna na zona industrial da Maia. Nessa altura só conseguiram o apoio e o crédito do então BNU para chegar aos cerca de 3 milhões de euros de investimento e uma capacidade para 4 mil toneladas/ano. O sonho já era então ibérico e em 1993 a Frulact já tinha morada nova.

Se o negócio da Frulact é a fruta, e o pêssego um dos mais apreciados nos preparados de frutos para produtos lácteos, surgiu uma oportunidade para a compra da desactivada unidade de transformação de fruta da Cooperativa de Fruticultores da Cova da Beira, em Ferro, um dos santuários da fruta, nomeadamente da cereja e de pêssego, em Portugal. Investiu na modernização industrial, mas não conseguiu uma ligação forte com os agricultores da região.

Como refere João Miranda os produtores nacionais de cereja, pêssego e morango, entre outros, preferem os negócios imediatos e de curto prazo e vêem a indústria "escoamento de fruta de menor qualidade". A fábrica em Ferro é hoje utilizada para a recepção e primeira preparação (lavagem, corte, descasque e descaroçar).

Em 2006, começou a funcionar a unidade de industrial de Tortosendo, onde investiram 15 milhões de euros e que João Miranda considera uma das melhores fábricas do género na Europa, e que lhes permitiu entrar em força no mercado francês.

Internacionalização começou com dois fiascos
Em 1995, os mercados do Norte de África mostravam apetite pelos produtos da Frulact. Como os direitos aduaneiros tornavam os preços proibitivos, a empresa decidiu instalar-se em Kenitra, a 60 quilómetros de Rabat, numa joint-venture com parceiros marroquinos. Mas as variáveis interculturais e a cultura do negócio ditaram o fim da experiência. Falharam em Marrocos, e em 2000, seguiu-se nova tentativa.

Optaram pela Tunísia com a intenção estratégica de ser a plataforma de fornecimento da indústria de lacticínios do Médio Oriente. Aliaram-se a um grupo local que tinha como "core business" as cablagens de automóveis e construíram uma fábrica em Nabeul, próxima de Túnis. Tudo parecia correr no melhor dos mundos, mas quando se chegou ao equilíbrio do capital a operação que estava a superar todas as previsões entrou em colapso.

Agora, à distância, e com um passado recente de grande sucesso na internacionalização, João é sentencioso: "Falhar não é desejável, mas só falha quem arrisca. O importante é que o risco seja dimensionado e controlado".

Sucesso acabou por apareceu em novos mercados
Em 2006, comprou uma unidade fabril em Vichy (França) ao GBP (Granger Bouguet Pau), por cinco milhões de euros. Em 2007, regressou a Marrocos com uma nova unidade industrial em Larache detida a 100% num investimento de 4 milhões euros.

No ano seguinte estendeu os seus interesses a Argélia e implantou uma unidade industrial em Akbou, em que os argelinos têm 49%. Investiu 3 milhões de euros e tem uma capacidade de produção de 5 mil toneladas/ano.

Em Julho de 2009, a Frulact reforçou a sua presença no mercado francês com a compra da unidade GR6, em Apt, no Sudeste da França, e para a qual a Frulact concentrou a produção industrial, desactivando a fábrica de Vichy, o que deu origem a alguns conflitos sociais. Para João Miranda "em França fechar uma fábrica nunca é um processo fácil… A verdade é que a decisão tomada da concentração das duas fábricas numa só revelou-se inequivocamente como a mais acertada".

Em 2011, aliou-se ao grupo sul-africano Blendtonel para uma operação industrial de preparados de frutas para produtos lácteos em Pretória, tendo em Julho de 2012 iniciado a produção e tem uma capacidade para 16 mil toneladas/ano. João Miranda acredita que em dois anos possa chegar à liderança mesmo que na compita esteja o líder mundial do sector, que até fez uma nova fábrica.

Os planos não ficam por aqui, mas João Miranda quer dar passos seguros e consolidar os investimentos feitos, por isso "os mercados da América do Sul e da América do Norte estão em estudo há mais de um ano, pelo que, dentro em breve, se tudo evoluir como previsto, provavelmente marcaremos presença em mais um continente".
http://www.jornaldenegocios.pt/empresas ... fruta.html
 

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miguelbud

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Re: Artigos/Historia de Empresas/industrias Portuguesas
« Responder #19 em: Outubro 25, 2013, 09:08:58 pm »
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A quinta de luxo no Dão que seduz reis e milionários
 A Quinta de Lemos, na região do Dão, é o quartel-general do grupo Abyss & Habidecor. Fundada por Celso de Lemos, recebe clientes de todo o lado. É ali que mostra as melhores toalhas do mundo e um vinho de excelência.

Barack Obama, Putin, Ronaldo e membros da realeza já experimentaram os tecidos de algodão, linho e cachemira produzidos nas duas fábricas portuguesas - uma em Tondela e outra em Mundão - de Celso de Lemos, o fundador da Quinta de Lemos, em Viseu. Ali, entre as Serras da Estrela e do Caramulo, em pleno Dão, escondem-se outros tesouros: um vinho que ambiciona ser o melhor do mundo, três suites luxuosas e um heliporto para receber clientes famosos.

A quinta é o melhor cartão-de-visita para mostrar o que de bom ali se faz. As toalhas conquistaram fama e até o prestigiado Wall Street Journal descreveu-as como as melhores do mundo. Aliás, os artigos da Abyss & Habidecor, marca do grupo da família Lemos, são famosos em todo o mundo. No Harrods, em Londres, ou no Bloomingdale's, em Nova Iorque, podem encontrar-se lençóis de cama, robes e tapetes de casa de banho com selo português. Os hotéis de luxo Burj Al Arab, no Dubai, ou o Grand Hyatt, em Hong Kong, também foram seduzidos pela marca. Pierre de Lemos - filho do empresário português - diz mesmo que a Abyss & Habidecor "é a Hermès da casa de banho".

Mas para atingir esta notoriedade foi preciso desbravar caminho.

Um regresso às origens
Celso de Lemos é o nome do empreendedor. Nasceu em Viseu, filho de um maquinista e de uma vendedora de artigos têxteis no mercado local, e partilhou a sua infância e juventude com mais seis irmãos. Conta Pierre de Lemos que o seu avô "faleceu muito jovem" e foi a avó Georgina que educou "no rigor" os sete filhos. Fê-los industriais, arquitectos e professores e "deu-lhes os princípios da vida, que ainda hoje perduram".

"A minha avó dizia que para receber é preciso dar, dar muito. E nos negócios o que conta é o ser humano, é criar uma relação", recorda Pierre de Lemos. O pai, que em Viseu "não era o primeiro da classe", na juventude jogou no Sporting e, por essa altura, teve que definir o seu rumo. Conseguiu ‘escapar' à tropa e a mãe aconselhou-o a ir para a Bélgica, onde tirou o curso de engenharia química e iniciou-se no comércio de artigos têxteis produzidos nas grandes fábricas do Norte de Portugal. Tinha cerca de 30 anos quando percebeu que havia um nicho de mercado que podia ser explorado: a alta qualidade. Pôs os pés a caminho de Viseu, porque Portugal está-lhe na alma, e fundou numa cave a Abyss & Habidecor. No início contava apenas com Isabela - que só recentemente se reformou - e Aníbal como trabalhadores. A empresa foi crescendo, sempre com o objectivo de produzir qualidade e não quantidade.

O segredo da qualidade? "É tudo feito à mão, com as melhores matérias-primas, algodão do Egipto - não é qualquer algodão, é o Giza 70, um dos melhores do mundo - cachemira da Mongólia, seda da Ásia e linho - e não queremos ir por outro caminho". São as 200 pessoas que actualmente emprega o grupo, que trabalham o artigo desde o fio até à entrega ao cliente final. Pierre Lemos destaca ainda que uma das características das unidades é a flexibilidade.

"Fazemos todos os artigos à medida que o cliente quiser e personalizamos o produto ao máximo, desde a cor até protecções contra frio ou calor extremo", salienta.

Pierre garante que o "grupo é autónomo, os investimentos são feitos com capital próprio, tem um chefe e uma equipa" e "nunca despediram ninguém". A Abyss & Habidecor exporta 85% da sua produção e é nos Estados Unidos que tem o seu principal mercado (vale 30%). Mas é possível que em breve Inglaterra dispute essa primazia. A Abyss tem desde Abril um espaço de 35 metros quadrados no Harrod's e "já ocupa o primeiro lugar nas vendas de artigos de casa de banho. É a primeira marca a ultrapassar as outras em tão pouco tempo", diz com orgulho. A Abyss teve que esperar para conseguir um bom espaço no Harrods, mas o sucesso bateu logo à porta pois a "marca é conhecida em todo o mundo".

Certo é que para além de equipar suites de hotéis de luxo, os produtos da Abyss estão à venda em 25 lojas dentro dos melhores ‘department stores' do mundo. Para além do já citados Harrods e Bloomingdale´s, a Abyss & Habidecor marca presença no ABC de Nova Iorque, no Harvey Nichols do Dubai ou no Lane Crawford de Hong Kong. Espanha, Itália, Bélgica ou França são outros dos destinos dos têxteis. Em Portugal, os artigos podem ser encontrados no El Corte Inglés ou no espaço Paris, em Lisboa.

Para o futuro, a empresa definiu um objectivo: reduzir dos actuais 1500 clientes para 500. "Queremos facturar mais com menos clientes, queremos melhores clientes, melhorar ainda mais a relação com os clientes", diz Pierre.

HELIPORTO PARA OS CLIENTES
Com o negócio dos têxteis em velocidade cruzeiro, Celso de Lemos quis também homenagear o pai, que sempre esteve apreciou muito o cultivo da terra. O empresário decidiu comprar uma propriedade de cinco hectares em Passos de Silgueiros, no Dão, circunscrita pelas serras da Estrela, Caramulo, Buçaco e Nave. A Quinta de Lemos foi crescendo lentamente, ano após ano, e hoje são 50 hectares com 25 de vinha, três mil pés de olival, cinco colmeias e uma horta.

As primeiras garrafas de vinho tinto Quinta de Lemos saíram para o mercado em 2008, após um período de cinco anos de envelhecimento. Como explica o enólogo Hugo Chavez, a quinta tem uma capacidade de produção de 500 mil garrafas anuais, "mas só produzimos 100 mil, na vindima 75% das uvas são atiradas à terra". "Nós queremos ser dos melhores . O objectivo é a qualidade e mais dia, menos dia vai dar resultado", garante. Os vinhos Quinta de Lemos já receberam variadíssimas distinções, ainda este ano no ‘International Wine Challenge' - concurso de prestígio internacional - o vinho Dona Georgina 2005 foi distinguido com a ‘Gold Medal, Portuguese Red Trophy e Dão Trophy' e com o prémio James Rogers Trophy 2013, tendo ficado nomeado com um dos cinco melhores vinhos do mundo. Na Quinta de Lemos são produzidas sete referências de vinhos, com destaque para os tintos. Contudo, e porque a tendência mundial exige, também fazem brancos e pensam plantar brevemente mais dois hectares de uva branca. O primeiro branco irá para o mercado em 2014.

"É um trabalho de formiga", diz Pierre de Lemos. A Quinta de Lemos quer vender essencialmente em garrafeiras e restaurantes, onde seja possível explicar ao consumidor o vinho, as castas e como o acompanhar. Os vinhos estão à venda em Portugal, Bélgica, Suíça, Áustria, Inglaterra. "Nós produzimos 100 mil garrafas e queremos partilhá-las com 20 países, cinco mil em cada país", confidencia.

Como é desígnio de Celso de Lemos, a Quinta de Lemos é um instrumento para "promover o Dão, promover Portugal, toda a gente conhece Bordéus, Champagne, mas pouca gente conhece o Dão. Isto é um investimento que só vai beneficiar a futura geração", salienta Pierre de Lemos.

E quanto já gastaram? O investimento na propriedade não é revelado, mas Pierre de Lemos admite que foram bem mais de 10 milhões de euros. Ainda agora, finalizaram um novo projecto na quinta, um edifício no cimo de uma colina e encostado à pedra granítica típica da região. O empreendimento alberga um restaurante - sob o comando do chef Daniel Rocha - que abrirá ao público, sujeito a reserva, no início do ano, três luxuosos quartos onde imperam esculturas de Paulo Neves, um ‘show room' dos têxteis da Abyss e em breve uma garrafeira. E a pensar nos clientes internacionais que vêm fazer negócios com a empresa têxtil construíram um heliporto.

Até porque a Quinta de Lemos "é uma carta de visita", "é para partilhar com os amigos, com os clientes ligados ao têxtil e ao vinho, para trabalhar e descansar em Portugal e ficar com uma boa memória do País, é esse o objectivo", adianta. Ainda há duas semanas lá estiveram agentes do Harrods e uma delegação dos Estados Unidos.

Com 65 anos, Celso de Lemos, o mentor de todos estes projectos, continua em grande actividade, sempre dentro do avião a dar seguimento aos negócios. Os seus três filhos têm também já papéis relevantes no grupo e já asseguraram a terceira geração. São nove pequenos que vão ver o Dão crescer no mundo.
http://economico.sapo.pt/noticias/a-qui ... 80212.html
 

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Malagueta

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Re: Artigos/Historia de Empresas/industrias Portuguesas
« Responder #20 em: Janeiro 20, 2015, 04:23:38 pm »
Alba


sua cabeça e mãos, nasceram os tradicionais bancos de jardim que estão espalhados por todo o país — que hoje têm 80 anos —, colunas de iluminação em ferro fundido, panelas de três pernas, ferros de engomar a carvão, fogões a lenha, louça de alumínio, caixas de correio, postos de incêndio, contadores de água, tampas de saneamento. Peças domésticas e objectos de mobiliário com o símbolo Alba cravado que saíam de Albergaria-a-Velha para todo o país e não só — as antigas colónias ultramarinas, os Estados Unidos, Espanha, França e Itália também faziam parte da carteira de clientes da empresa.

Naquela fábrica de 41 mil metros quadrados (18 mil de área coberta) onde chegaram a trabalhar 700 operários em simultâneo, fez-se história. No início da década de 1950, saía dali o único carro de competição genuinamente português. Por dentro e por fora. Do motor à carroçaria.


 
Augusto Martins Pereira, fundador da Alba

Martins Pereira, fundador da metalúrgica Alba, instalada em Albergaria-a-Velha em 1921, colocou a empresa nas páginas da história industrial portuguesa com uma visão inovadora para a época. A sua curta passagem por Boston e o curso de fundição que aí frequentou tiveram repercussões no meio empresarial português. O empresário não facilitava na hora de defender as suas ideias e lançava mãos à obra sempre que achava que era o momento certo para anunciar o que a sua fundição andava a produzir. Em Janeiro de 1929, Martins Pereira escolhia o Grémio Recreativo Albergariense, frequentado por muitas famílias da região, para partilhar uma das suas últimas invenções. A sua “cozinha moderna” foi um êxito. Um fogão em ferro fundido de três bicos, portátil, não muito pesado, que com a chama de um simples fogareiro de pressão a petróleo permitia confeccionar três pratos em simultâneo em apenas meia hora. Pouco tempo e pouco consumo para aquela época. O seu inovador sistema de cozinha valeu-lhe um contrato de exportação para os Estados Unidos.

Nessa altura, a Alba já fabricava esmagadores para uvas, autoclismos, prensas completas para bagaço e acabava de montar uma nova secção de niquelagem para o fabrico de ferros de engomar aquecidos por uma pequena lâmpada de petróleo. Mais uma revolução na colecção de peças domésticas e que iria entrar por muitos lares portugueses.

O empresário, que foi agraciado com a comenda de Mérito Industrial e a quem Salazar tirava o chapéu pela pujança económica — chegando inclusive a dar instruções à sua equipa ministerial para que apoiasse o comendador no que fosse necessário —, não era apenas um homem de negócios. Visionário nos produtos que colocava no mercado, estava atento ao que se passava à sua volta numa época em que não havia pão em muitas mesas.

Construiu dois hospitais, um em Sever do Vouga, onde tinha nascido em 1885, outro em Albergaria-a-Velha, terra onde se instalou por razões estratégicas: proximidade à estrada nacional que ligava Porto e Lisboa, proximidade às matérias-primas, às areias de fundição, às argilas refractárias.

Sem esperar apoios de qualquer origem e dispensando trabalhadores da fundição, construiu um bairro com 50 casas de renda económica que acabaria por ser oferecido à Misericórdia, um bairro para os quadros da empresa em frente à fábrica, uma creche e jardim-de-infância, um cineteatro, uma cozinha para a sopa dos pobres em Albergaria — onde foi presidente da câmara durante a década de 1950 e provedor da Santa Casa da Misericórdia. Não se esqueceu da terra natal. Também em Sever do Vouga, construiu, para além do hospital, um lar de idosos, casas para habitação social, um refeitório. Cedia a cantina da fábrica para os casamentos das famílias mais carenciadas. Não admira por isso que Albergaria e Sever do Vouga tenham erguido bustos em sua homenagem.




A fundição de Martins Pereira chegou a ter 700 funcionários

O fundador da Alba sabia que tinha de inovar para conquistar o seu espaço, mesmo liderando uma das mais completas fundições de ferro cinzento do país. Antes de chegar a Albergaria, as suas mãos já tinham passado por várias fundições. Conhecia os seus segredos. Aos dez anos, estava em Lisboa com o pai na Companhia das Águas de Lisboa, como ajudante na fundição onde o seu tio era mestre. Passou por várias fundições de Lisboa e da Covilhã, trabalhou nas minas do Braçal e de S. Brás de Alportel. Viajou para Boston. Dois anos intensos nos Estados Unidos. Tinha então 20 anos e trabalhava em fundições de dia e tirava um curso da arte à noite. Aprendeu muito nesse tempo, adquiriu o gosto pela simetria que transparece nos desenhos feitos a lápis ou nos portões de ferro que protegem a sua casa moderna para os anos 20 do século passado, com grande piscina, extenso jardim, que mandou construir perto da Alba.

No regresso dos Estados Unidos monta uma fundição de sinos nos Açores, negócio que acabaria por vender alguns anos mais tarde. Faz novamente as malas e regressa às origens. Aos 36 anos, está em Albergaria, onde cria a Fundição Lisbonense (em 1921), alterando pouco depois o nome para Fundição Albergariense. Em 1925, envolve-se na criação da metalúrgica Oliva em São João da Madeira — outra das fundições mais importantes do país. Pedem-lhe para ficar na sociedade com exclusividade de 15 anos, mas não aceita.

Em 1929, nascia a marca Alba, um ano depois de se ter conseguido estabelecer como comerciante em nome individual. A fundição Alba estava pronta para vingar no mercado com um logótipo arredondado que terá saído das mãos do próprio empresário.

Em 1957, José António Laranjeira tinha 26 anos, estudava Engenharia Mecânica no Instituto Técnico de Lisboa e chegava à Alba como estagiário. Tinha família em Albergaria e parecia-lhe que aquela empresa poderia ser o local indicado para testar a teoria que ia absorvendo na universidade. Não se enganou e, de repente, os conceitos de eficiência e produtividade fizeram todo o sentido. Voltaria à Alba depois do curso concluído e seria, durante 12 anos, o responsável pela fundição da empresa. O empresário Martins Pereira mostrou-lhe que era preciso acompanhar todo o processo de execução de um produto, desde a ordem que saía do gabinete à entrada para a máquina.

O jovem Laranjeira ficava fascinado com a constante procura de soluções. E reparava com admiração e orgulho no trabalho social promovido pelo patrão. “Matou a fome a muita gente e proibiu a mendicidade quando foi presidente da câmara e como provedor da Misericórdia”, recorda à Revista 2.

As tabuletas com os avisos que proibiam andar de mão estendida a pedir esmolas eram feitas na fundição. “Avançava com a obra social sem garantias nenhumas de apoio oficial”, adianta. As condições dadas aos trabalhadores também lhe ficaram na memória: bom refeitório, balneário com cacifos individuais, um centro cultural e recreativo, uma banda de música, um rancho folclórico, livros para os filhos dos operários, um clube de futebol, o jornal Beira Vouga.


 
José António Laranjeira foi responsável pela fundição nelson garrido

O agora octogenário não esquece muita coisa que se passou naquela fábrica. “A Alba distinguia-se porque tinha uma concepção de ferramentas fora de série. No meu tempo usou, e terá sido a primeira em Portugal a fazê-lo, a fundição em carapaça”, recorda Laranjeira. Uma técnica avançada para a época que recorria à areia com resina, matéria-prima mais cara do que a habitual areia verde que recorrentemente era utilizada e que permitia descartar o uso das caixas de moldes e assim acelerar a produção com menos mão-de-obra.

Foi também a primeira a produzir carcaças de alumínio para motores eléctricos pelo processo de vazamento em coquilha por gravidade. A inovação, a capacidade de resposta e a qualidade da “pele” das peças de ferro fundido abriram-lhe muitas portas e a Alba passou a ser procurada por várias indústrias — papeleiras, empresas de transportes ferroviários, construção e reparação naval, motores eléctricos e motores para motociclos.

“O senhor comendador tinha uma particularidade: gostava de pensar.” Laranjeira guarda um documento escrito pelo antigo patrão com recomendações para determinados trabalhos. Martins Pereira avisava pelo próprio punho: “Recomendamos por isso a todos os nossos operários que aproveitem todo o tempo, sem fazerem esforço excessivo que lhes prejudique a saúde, e que evitem passos e operações inúteis, procurando por todos os meios simplificar a maneira de trabalhar, para que todo o aproveitamento seja maior e melhor e com o qual todos vão lucrar.” Aquelas palavras ficaram guardadas na memória e o engenheiro Laranjeira abre com elas um texto que escreveu sobre o fundador da Alba para a Revista da Fundição da Associação Portuguesa de Fundição, no terceiro trimestre de 1997. “O espírito deste homem era impressionante. Tinha ideias, escrevia, reflectia, não guardava as coisas para ele.” E todos aprendiam. Preocupava-se com a formação dos operários, ensinava a ler desenhos, pagava as despesas dos cursos industriais que os funcionários frequentavam.

A empresa prosperava, as encomendas não paravam de chegar, os bancos de jardim, que começaram a ser fabricados em 1943, eram requisitados por praticamente todas as autarquias do país, a louça de alumínio era um sucesso, as colunas de iluminação andavam a ser cobiçadas por muitos centros históricos.

Trabalho não faltava e o trabalho da fundição era duro. Artur Dias Moreira tem 75 anos e tem-nos marcado nas mãos que pareciam maiores do que o corpo quando era preciso dar vida aos moldes. Aos 14 anos, trabalhava na Alba, ajudava no que fosse preciso. Foi fundidor, chegou a encarregado de obra grande. Era o trabalhador número 528. Conhecia todos os cantos da fábrica, acompanhava a transformação da areia do mar que era enxuta num queimador, subia e descia por um depósito, entrava numa máquina, passava por um processo de mistura, saía para a moldação, e em 15 minutos era cimento. Artur sabia que ali se faziam produtos importantes. “Foi uma vida, gostei muito de trabalhar na Alba. Era a melhor fundição do país nos anos 40 e 50”, afirma.















Refeitório para as crianças carenciadas em Sever do Vouga


























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Não esquece o dia em que teve de marcar passo na tropa frente a um hotel da Figueira da Foz. “Fiquei numa alegria quando olhei e vi que o meu patrão estava lá”, conta emocionado. “Era um homem com todo o respeito, mas era preciso cuidado com a brincadeira. Passava sempre pela fundição para dar uma vista de olhos.” Tem saudades desse tempo e evita passar à porta da Alba. “Podia estar a dar o pão a ganhar a muitos operários.”

Dentro da fábrica nasciam produtos em ferro fundido. Fora da empresa, erguiam-se equipamentos sociais, culturais, desportivos.

O Cineteatro Alba é um desses exemplos. Foi inaugurado a 11 de Fevereiro de 1950 com o filme Unconquered [Invicto] com Gary Cooper no principal papel. Com toda a pompa e circunstância, e com casa cheia. Martins Pereira, como habitualmente fazia, dispensou funcionários da fábrica para que nada faltasse no edifício instalado no centro de Albergaria. Nada era deixado ao acaso. O arquitecto Júlio de Brito, que no currículo já tinha o Teatro Rivoli no Porto, foi contratado para desenhar aquele cineteatro que viria a ser considerado um dos melhores do país quando abriu portas. As condições técnicas e logísticas destacavam-se e a população da região enchia o peito de orgulho. Nesse primeiro ano, foram exibidos 73 filmes e quatro peças de teatro numa sala com 570 lugares e corredores revestidos a mármore. A cultura chegava à província, os cartazes do cineteatro confirmavam que os principais espectáculos e os filmes que circulavam pelas principais salas do país seriam exibidos em Albergaria. Por ali passariam Vasco Santana, Raul Solnado, Laura Alves, Camilo de Oliveira, Mirita Casimiro, entre outros.


 
Orlando Silva Marques trabalhou 42 anos na empresa Nelson Garrido

Orlando Silva Marques conhece o Cineteatro Alba de olhos fechados. Era contabilista na Alba e para ganhar mais uns trocos foi trabalhar para a bilheteira em 1962. Não era muito difícil a sala esgotar. Orlando lembra-se dos preços daquele tempo: “Onze escudos para o balcão lá em cima, cinco escudos para a plateia à frente e oito escudos e 50 centavos para a plateia de trás.” Às vezes, batiam-lhe à porta de casa para assegurar entradas antes que voassem, como foi o caso de Um Zero à Esquerda, de Laura Alves.

Orlando entrou na Alba com um curso técnico comercial para se candidatar à vaga aberta na contabilidade industrial. Tinha 23 anos e ali ficou 42. “Os tempos eram melhores, trabalhava-se bem.” Os tempos eram ainda os das máquinas de escrever e de muitos cálculos de puxar pela cabeça. Partilhava o escritório com mais 20 colegas. A fábrica tinha muitas encomendas e isso reflectia-se na contabilidade. “Era a empresa de maior importância na zona.”

O cineteatro está hoje nas mãos da câmara local com uma programação regular em várias áreas, da música ao teatro, da dança ao cinema — com criações próprias, serviço de babysitting, e na agenda dos próximos espectáculos a Companhia Olga Roriz a 29 de Novembro e Paulo Gonzo a 6 de Dezembro. Os traços originais da fachada não sofreram alterações, mesmo com a recente requalificação do espaço. As cadeiras da sala principal foram reaproveitadas. O cineteatro tem agora menos mármore e mais madeira. Tem uma sala de espectáculos com 500 lugares, um café-concerto separado da zona de cafetaria, um mini-auditório para 150 pessoas, uma esplanada com vista para a praça, uma sala com o nome Alba com piano de cauda à entrada, o emblema da Alba na parede e um pequeno portão de ferro desenhado pelo próprio Martins Pereira. Ainda estão em exposição o cartaz do filme exibido na inauguração e a velha máquina de projecção.

Henriqueta Pires tinha 17 anos quando entrou na Alba. Estava muito nervosa, sabia que tinha de passar pela aprovação do comendador. “Estava sentadinha a um canto para ser apresentada ao senhor Martins Pereira. Ele chegou, levantei-me e ele perguntou: ‘Esta é que é a menina do telefone?’” Ficou na metalúrgica até fazer 60 anos de vida, hoje tem 83 e mora ainda numa das 12 casas que o fundador mandou construir para os quadros da empresa — e que mais tarde seriam colocadas à venda. Parece uma casinha de bonecas, tão bem cuidada, jardim delicadamente tratado com muros feitos de arbustos aparados ao milímetro. Pertinho da fundição, a paredes meias com o terreno que circunda a casa que foi do patrão. “Era uma excelente pessoa, muito amigo dos pobres”, recorda.


 
Henriqueta Pires era "a menina do telefone" Nelson Garrido

À primeira hora da manhã, encontrava-o na empresa para comandar o barco. Henriqueta atendia chamadas de todo o lado no seu primeiro e único emprego. Repetia vezes sem conta “Alba 6” — o número de telefone atribuído à empresa, ainda apenas com um dígito. “Era um corrupio, chamadas de todo o país e até do estrangeiro, até da Guiné vieram cá uns senhores”, lembra. Teve de aprender a pronunciar nomes esquisitos de empresas internacionais, a anotar todos os recados. “Conhecia toda a gente e não conhecia ninguém.”

“A Alba foi o coração de Albergaria.” À hora de entrada e saída, a estrada tornava-se um mar de gente. No refeitório, havia uma recomendação escrita pelo patrão e que repete num fôlego: “O bom funcionário é aquele que simplifica.” As construções que surgiam por Albergaria não lhe passavam despercebidas. “O hospital tinha a melhor sala de operações do distrito de Aveiro”, garante. Não faltou à inauguração do cineteatro. E ainda hoje usa a louça de alumínio para cozinhar. Comprou-a há 64 anos. “A Alba era garantia de bom fabrico.” “E quem não tem saudades da Alba?”

O antigo electricista José de Almeida, de 82 anos, tem saudades da Alba. Entrou na empresa com 14 anos, saiu com 68. Os dias da fundição eram intensos e não havia mãos a medir. “Não davam vazão à louça de alumínio.” Lembra-se ainda da grande obra da barragem de Castelo de Bode. “A Alba fez uma torneira com 1,20 metros de diâmetro. Não havia nada que não se fizesse em ferro.”

José Almeida também ajudou para que a instalação eléctrica do cineteatro ficasse como deve ser. Foi ainda jogador e capitão do clube de futebol que a fundição criou e que montava arraiais no Campo das Laranjeiras, não muito longe da fábrica. A costela humanista da fundição alargava-se ao desporto, não para acumular vitórias, mas para promover o exercício físico e o convívio. “Tínhamos uma equipa a disputar o nacional só com futebolistas cá da terra”, recorda o ex-operário, ex-jogador, ex-capitão. José Almeida lembra o companheiro João Castanheira, colega de campo, colega de trabalho, homem de mil ofícios, que morreu recentemente. “Era sapateiro, roupeiro, jogador, treinador, lavava a roupa, e era fundidor.”


 
Artur Dias Moreira dava vida aos moldes: "Era a melhor fundição do país nos anos 40 e 50” Nelson Garrido

O Sport Clube Alba surgiu em 1941 pelas mãos da família Martins Pereira. O clube teve várias modalidades: futebol, basquetebol, hóquei em patins e foi pioneiro no futebol feminino. Os atletas que se portassem bem dentro das quatro linhas tinham direito a bilhetes para o cineteatro. Não era todos os dias que uma empresa investia no desporto. Carlos Alves, conhecido como “luvas pretas”, antigo jogador da selecção nacional e do Benfica, treinou a equipa nos anos 1960. O seu neto João Alves, internacional do Benfica e do Boavista, capitão da selecção nacional, deu os primeiros pontapés no Alba e chegou a ser presidente do clube.

Ainda hoje o símbolo redondo da metalúrgica anda ao peito dos jogadores, com o fundo amarelo e Alba a azul ou com Alba a amarelo e o fundo azul. José Pinho Almeida, filho do ex-funcionário e ex-capitão José Almeida, é hoje o presidente do clube que tem duas equipas de futebol na I Divisão Distrital de Aveiro. Movimenta cerca de 210 atletas, número que aos fins-de-semana estica para 300 com pessoal técnico e funcionários. “O Alba clube é sempre associado à empresa, nunca se separam, andam sempre juntos. O trajecto do Sport Clube Alba anda e continuará sempre agarrado à mãe”, garante o dirigente associativo. José Pinho também jogou no clube, também foi capitão, tal como seu pai. Hoje sente que está a retribuir o que o Alba lhe proporcionou a nível desportivo.

A história da Alba é um legado incontornável para uma região eternamente agradecida. O comendador Martins Pereira deu vida a uma das mais importantes metalúrgicas do país e as gerações seguintes respeitaram o seu percurso, alimentaram as obras sociais. Martins Pereira teve dois filhos, Américo e Albérico, braços direitos na fundição. Depois dos estudos no Porto, o seu neto António Augusto Pereira (filho de Américo) também entrava na empresa para dar uma mãozinha na metalúrgica. E que mãozinha. Fez história no automobilismo português.

Em Novembro de 2009, José Barros Rodrigues, apaixonado pelo desporto automóvel, empresário do mesmo ramo, publicou o livro Alba: Uma Marca Portuguesa de Automóveis [1952-1961], onde conta o percurso do único automóvel de competição 100 por cento português. António Augusto Martins Pereira criou o carro de competição Alba e conquistou várias vitórias ao seu volante. Era então sócio-gerente da empresa.

No início da década de 50, depois de lhe terem pedido 89 contos por um motor Maserati, quando ganhava quatro contos por mês, decidiu meter mãos à obra. Puxou pela cabeça e não só construiu a carroçaria de ponta a ponta como também o seu motor. Com o amigo Francisco Corte Real Pereira, piloto e mecânico, o mecânico Ângelo Costa e a ajuda de vários funcionários da Alba deu vida ao automóvel. Um avanço técnico e ambicioso para a época. A ousadia de produzir um motor de quatro cilindros em alumínio era então uma das aventuras mais notáveis do automobilismo desportivo nacional. A utilização do alumínio era uma novidade, numa altura em que o ferro fundido era rei na indústria automóvel. Na fundição Alba, percebia-se que do aço podia nascer ouro.

José Almeida lembra-se dos tempos agitados na fundição quando o “rapaz António Martins Pereira” teimou que daquela fábrica iria sair um motor genuinamente português. O electricista ajudou a fazer a instalação dos interruptores. “Trabalhávamos de noite para acabar o carro o mais rápido possível”, lembra. Foram cerca de dois anos à volta do veículo. Quando agora o automóvel lhe aparece à frente, como aconteceu no dia em que a Revista 2 esteve em Albergaria para conhecer o veículo, o rosto sorri, o coração fica alegre. Não tem palavras para descrever a sensação.

Nos anos 80, José Barros Rodrigues decidiu procurar o mentor do carro. Sabia que ele tinha o hábito de jogar cartas ao fim-de-semana num hotel em Aveiro. Encontrou-o, disse-lhe que gostaria de escrever a história do Alba. António Augusto começou por desvalorizar a iniciativa, mas acabaria por colaborar, reunir fotografias e acompanhar de lágrima no olho vários lançamentos do livro. Nesse primeiro contacto, há uma coisa que o autor da publicação guarda na memória. “Ele tirou da carteira uma foto, que estava junto à foto dos filhos, dos colaboradores da Alba que ajudaram a fazer o motor do carro. Quem anda com aquela foto junto à foto dos filhos não poderia considerar que aquela aventura tinha sido uma tolice da juventude. Era uma coisa mais importante na sua vida do que ele próprio supunha.”

A disponibilidade dos operários da fundição também é elogiada. “O facto de os funcionários da Alba disponibilizarem as suas competências para fazer o motor é algo de muito transcendente.”




O único automóvel de competição 100 por cento português

Na fundição nasceram três Albas. O primeiro pintado de amarelo pálido e o que conquistou mais vitórias para a marca (está agora em exposição no Museu do Caramulo). O segundo foi feito por encomenda do piloto Noémio Capela, que só correu uma vez no Rali Rainha Santa, em 1954. O terceiro foi construído para Corte Real Pereira e surgiu em meados de 1955, pintado de vermelho-vivo. No livro, lembram-se os três automóveis que, entre 1952 e 1961, utilizando cinco motores, foram conduzidos por nove condutores em cerca de 42 provas, num total de 48 resultados desportivos, com dez vitórias e com a conquista da I Taça Cidade do Porto em 1953 no currículo.

O Alba estreou-se na terceira edição do Circuito de Vila do Conde, em Agosto de 1952. Corte Real Pereira foi o primeiro a abandonar a corrida por problemas na viatura. Mas na quarta edição, em Setembro desse ano, vingou-se e conseguia o segundo lugar na geral, o segundo geral na classe e brilhava com a segunda volta mais rápida.

Em 1955, surgia a ditadura dos Porsche Spyder. “Os tempos estavam nitidamente a mudar. Ao contrário do que se verificava no início da década de 50, a euforia dos pequenos construtores portugueses ia diminuindo de fulgor e a Alba não era excepção a este sentimento quase generalizado. Na pista, mandavam os veículos estrangeiros melhor preparados e concebidos com outros recursos”, lê-se no livro. António Augusto Martins Pereira vira-se para os ralis. Em Agosto de 1955, mais uma vitória no I Rali do Vinho Porto. E uma semana depois, mais um primeiro lugar absoluto no II Rali A Mundial, nos arruamentos de Belém. Em Setembro desse ano, os três Albas encontravam-se na mesma prova na II Volta ao Minho. Foi a única vez que isso aconteceu. Corte Real Pereira ficava em segundo e Martins Pereira era o segundo na sua classe.








A qualidade era evidente. Em mais de metade das suas participações, os carros de competição Alba terminaram nos três primeiros classificados na respectiva classe.

António Augusto Martins Pereira não ficava apenas dentro da fábrica. Jogou no Sport Club Alba e foi presidente do clube. Fez parte de uma comissão administrativa para reorganizar os Bombeiros de Albergaria, de que viria a ser presidente. Tal como o avô, foi provedor da Misericórdia e vereador na câmara municipal e ainda presidente da assembleia municipal de Albergaria.

No documentário Alba: Uma Marca ao Serviço da Comunidade, da autoria de Delfim Bismarck, recorda o avô como uma “pessoa frontal, conhecedor da sua profissão, honesto e sério”. Acompanhou-o até ao fim, a 2 de Maio de 1960. Tinha 74 anos. A região chorou a morte de Augusto Martins Pereira, o país que conhecia a Alba lamentou a perda do empresário, a família caminhou em frente para respeitar o seu legado.

Delfim Bismarck, vice-presidente da Câmara de Albergaria-a-Velha, licenciado em História e em História de Arte, participou na pesquisa para o documentário, realizado por Fernando Falcão e Elisabete Grazina, no qual realça o que considera um exemplo de empreendedorismo. O filme, que ficou concluído em 2014 com apoio das câmaras de Albergaria e de Sever do Vouga e da família Martins Pereira, foi exibido publicamente apenas duas vezes. Na inauguração das obras de remodelação do Cineteatro Alba, em Abril de 2012, e no Cineteatro de Sever do Vouga, uma semana depois.

“Mais de 30 mil moldes da Alba fazem hoje parte da indústria portuguesa”, afirma Bismarck. “A Alba era a principal concorrente dela própria.” A qualidade e a criatividade sempre saltaram à vista. “Nos anos 30, tinha o maior número de peças patenteadas no país.” Tem presente uma espécie de slogan que demonstra bem a pujança e inovação da fundição. “A Alba albalizou o império” era o rótulo que se colava à empresa pela sua projecção além-fronteiras. “Era uma referência do século XX. Foi uma universidade”, refere. Um cartão-de-visita de uma região, uma escola para desenhadores, mecânicos, carpinteiros, fundidores.

Hoje, a metalúrgica Alba já não alimenta a região. A Alba acabaria por definhar no final da década de 90 e no início deste século fechou as portas. A maquinaria estava obsoleta, as técnicas de produção já não davam conta do recado. Foi alvo de uma venda judicial e alienada.

Mas a marca nunca deixou de existir. Continua nas mãos da família que lhe deu vida. O bisneto Pedro Martins Pereira adquiriu o catálogo dos produtos Alba, é dono da marca que aprendeu a respeitar e que agora renasce modernizada — com a colaboração do designer Francisco Providência e do arquitecto Eduardo Souto Moura — sem alienar o poder que tinha no imaginário nacional.

Pedro passava as férias na fábrica do bisavô. Ganhava 25 tostões por dia e preferia passar o tempo na carpintaria. “Fazia coisas em madeira, um material mais humano do que o aço.” Mas, quando as suas mãos moldavam o ferro, nasciam coisas como um ovo metálico para apanhar camarões. Chegou também a recuperar um barco à vela. Além da postura do bisavô, da sua costela empresarial e veia altruísta, Pedro não esquece a aventura do avô Américo e do tio-avô Albérico que no final da II Guerra Mundial entraram de carro em Londres para comprar um navio que ia para a sucata. Fernando Pessa estava na BBC e entrevistou os dois aventureiros portugueses que meteram o carro no navio e voltaram a Portugal com toneladas de sucata pelo mar.

A relação afectiva não lhe permite fechar a Alba numa gaveta. Pedro cresceu ali, foi chefe de fundição e director técnico. Comprou a casa do bisavô bem perto da antiga fundição que um dia tenciona recuperar. “O meu bisavô era muito criativo, era um visionário.”

O relançamento da empresa está a ser trabalhado de forma contínua desde 2011. Pedro, engenheiro metalúrgico, é dono da Larus, empresa de mobiliário urbano. O know-how da Larus acaba por ser imprescindível na recuperação da Alba. “Um dos aspectos mais fortes, mais interessantes, mais consistentes da marca é que tem uma imagem sustentável que não se inventa. Ou existe ou não existe. E ela tem tanta energia, tem um grande potencial de se recuperar”, refere Pedro Martins Pereira.

É isso que está a acontecer. O designer Francisco Providência redesenhou o logótipo da Alba que terá sido criado pelo próprio comendador Martins Pereira com uma fonte que inventou propositadamente. Manteve as formas arredondadas, as pernas dos “as” ficaram mais compridas na parte interior. As letras estão a amarelo. “Preservamos a sua sintaxe, as suas características, dando-lhe uma maior robustez visual, uma maior resistência à erosão.” Na sua opinião, ficou “mais legível, mais equilibrada”.

Providência acompanhou o processo de aquisição da marca Alba e está há alguns anos ligado à Larus — em 2008, a sua coluna solar de iluminação pública ganhou o primeiro prémio de design de produto da alemã Red Dot, considerado um dos mais prestigiantes prémios de design do mundo.

Para a Alba, desenhou duas salamandras. Na salamandra Remade, inspirou-se nos primitivos motores de combustão da sua juventude para apresentar um irradiador fora do comum e com uma cesta para lenha em contraplacado de faia. No calorífero R2D2, apresenta uma imagem futurista, inspirada no pequeno robô da Guerra das Estrelas.






 Nelson Garrido, Ana Almeida  

O arquitecto Souto Moura desenhou, por sua vez, um recuperador de calor que este ano ganhou também o Red Dot Design. Um recuperador com duplo deflector de fumos, vidro serigrafado, pés nivelantes em aço inox polido e com espaço ao lado para armazenar lenha.

A nova Alba não terá apenas salamandras e recuperadores de calor. Pedro Martins Pereira quer fazer renascer alguns dos produtos mais emblemáticos da metalúrgica e definiu três áreas de negócio: equipamento urbano com os icónicos bancos de jardim e as colunas de iluminação de ferro fundido; os aquecimentos domésticos a lenha; e ainda equipamentos nas áreas da água e combate a incêndios com tampas de saneamento em compósito e em postos de incêndio mais modernas.

A internacionalização da Alba está marcada para 2015 e os destinos estão estudados: os equipamentos domésticos serão vendidos no Norte e Centro da Europa. Os postos de incêndio terão passaporte para Angola e Moçambique. O mobiliário urbano será analisado caso a caso.

É assim, pelo empenho do bisneto Pedro — que também tem jeito para o desenho, que também gosta de inovar, que tão delicadamente fala da sua família —, que a Alba poderá renascer. Já ninguém espera que a empresa crie hospitais e cantinas, escolas e bairros sociais. Mas quem sabe se a Alba não voltará a entrar em casa de todos os portugueses.


 
Fundição Alba com os operários à porta em fotografia de família, nos primeiros anos de vida da fábrica

Fotos e Artigo: http://www.publico.pt/sociedade/noticia ... ia-1675210
 

 

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