Dien-Bien-Phu e as descolonizações

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Carlos Rendel

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Dien-Bien-Phu e as descolonizações
« em: Janeiro 14, 2013, 12:29:57 pm »
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Corajosos perante o inimigo,cobardes face à guerra é a divisa dos verdadeiros generais           J.Giraudoux

No fim da  II Guerra Mundial a França almejava reconstruir o seu império colonial destabilizado pelas sequelas da ocupação.No sudeste asiático os franceses restabeleceram o governo colonial  na Indochina,recem desocupada pelo Japão.

Após o fim das hostilidades na Europa  os guerrilheiros do Viet Minh conduziram uma guerra de baixa intensidade e de desgaste,contrário ao desejo da França no sentido de os defrontar em batalha decisiva. O general Henri Navarre,coman-

dante supremo das Forças Francesas,decidiu instalar uma base na província de Lai-Chau perto da fronteira com o Laos e a China.Navarre acreditava fazer caír os indochineses numa pinça e destruí-los com uma potência de fogo superior e a

aviação. O E.M. de Navarre pretendia fortificar uma base no noroeste por trás das áreas de actuação dos Viet-Minh e obrigá-los a bater-se na defesa das linhas de reabastecimento.E assim começou a operação CASTOR que teve os seus opo-

sitores com críticas à sua distância aos centros logísticos, e ao facto de se situar num vale de rio com 16 Km. rodeado de colinas. Albergando 9 000 páras e defendido por nove  fortins dispersos. Nesta receita para o desastre o pior erro foi

subestimar o inimigo. O pessoal foi reforçado com a Legião Estrangeira,tropas coloniais, e militares nativos, até se chegar aos 16 000 operacionais na Primavera de 1954,enquanto os viets. no seu auge contavam com 50 000 homens às or-

dens do gen.Giap.  Os viets transportavam para as colinas circundantes,densamente arborizadas,artilharia e anti aérea desmontada, numa operação notável,alcançaram a  supremacia e cercaram os franceses.

Foram escavados à volta dos fortins um sistema de trincheiras num total de 100 km. caíndo o primeiro a 13 de Março após bombardeamento.A aviação só reabastecia com grande risco e em altitude.

Cerrada a pista de aviação ,os postos de defesa caíram um após outro até que em oito de Maio se deu  a humilhação suprema para a França: a rendição.Do lado francês 12 000 prisioneiros, 1150 feridos,para Giap 8 000 mortos e 15 000

feridos.Mais tarde em Genebra formaram-se no território duas nações: o Vietname do Norte e o Vietname do Sul,cada um reivindicando a união sob as suas cores.A nova guerra já vinha a caminho.

Esta batalha define o início do fim dos impérios coloniais e comporta no seu seio o advento das guerras de libertação.O império português,tal como os outros,ficou com o destino traçado----era só uma questão de tempo.Mas se o re-

sultado da batalha tivesse sido outro,a descolonização,sendo inevitável,talvez fosse menos gravosa talvez os brancos  não fossem expulsos e  os negros não entrassem em guerras civis.Talvez.../b]
CR
 

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gaia

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Re: Dien-Bien-Phu e as descolonizações
« Responder #1 em: Janeiro 23, 2013, 04:23:27 pm »
O caso português foi diferente , um grupo de militares é que desistiram da guerra .

Em Angola a guerra estava ganha , Moçambique controlada , e na Guiné a situação era mais complicada .
 

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Lightning

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Re: Dien-Bien-Phu e as descolonizações
« Responder #2 em: Janeiro 23, 2013, 10:18:02 pm »
Citação de: "gaia"
O caso português foi diferente , um grupo de militares é que desistiram da guerra .

Em Angola a guerra estava ganha , Moçambique controlada , e na Guiné a situação era mais complicada .

Um grupo de militares fartou-se de um governo que não fazia nada para resolver a guerra, só sabia meter "carne" no picador e a guerra lá se ia arrastanto, uma guerra não se pode prolongar infinitamente, os militares deram muito tempo ao governo para resolver a guerra, 13 anos foi mais que suficiente.
 

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Carlos Rendel

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Re: Dien-Bien-Phu e as descolonizações
« Responder #3 em: Janeiro 25, 2013, 11:23:12 am »
Quando escrevi o texto supra-citado,receei não ter sido bem entendido.Aliás,trata-se de uma hipótese de trabalho que deve ser cautelosamente analisada.Pretendi assinalar que foi a primeira vez que se deu uma vitória de uma guerrilha
terceiro mundista sobre um exército regular europeu,com repercussão mundial.Antes, aos colonizados, nem lhes passava pela cabeça defrontar militarmente o colonizador,preferindo a desobediência civil como forma de luta. A batalha de
Diien-Bien-Phu demonstrou como um país pobre e atrasado venceu contra todos os prognósticos uma potência europeia de primeiro plano,o que veio a moralizar os independentistas e serviu de demonstração de que a luta armada era
um desenlace possível e vitorioso. É certo que o vietmine  dispunha de armas modernas fornecidas pela China e a União Soviética,na batalha teve sempre superioridade numérica e cometeu erros táticos graves.O que se passou em Portugal
em 1974 começou por um motim de reivindicações profissionais e acabou num golpe de estado.Na Guiné,a guerra não estava perdida,mas ia a caminho--lembro a recusa de voar dos pilotos da FAP desde que o inimigo abateu vários  
aparelhos com mísseis terra-ar sem que a Força Aérea  tivesse  defesa equivalente.Em Angola e Moçambique a situação era de impasse,embora com os portugueses mais perto da vitória.Assim houvesse ambição e vontade,de 1961 a 1970.Depois disso e num ambiente de cansaço e saturação os militares atiraram as armas ao chão e voltaram para casa.Houve assim uma vitória e uma derrota por desistência. cr
CR
 

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jurista

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Re: Dien-Bien-Phu e as descolonizações
« Responder #4 em: Janeiro 25, 2013, 01:36:09 pm »
Citação de: "gaia"
Em Angola a guerra estava ganha , Moçambique controlada , e na Guiné a situação era mais complicada .

Eu assumo que isto seja uma piada...
 

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gaia

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Re: Dien-Bien-Phu e as descolonizações
« Responder #5 em: Janeiro 25, 2013, 06:49:53 pm »
Citação de: "jurista"
Citação de: "gaia"
Em Angola a guerra estava ganha , Moçambique controlada , e na Guiné a situação era mais complicada .

Eu assumo que isto seja uma piada...

Não é piada , é a realidade ....

O grande problema , em Portugal , é que a maioria da população , ainda está intoxicada pela esquerda desde 25A.

Esta esquerda para lavar as mãos das desgraças do após 25A , desde os retornados , os dois milhões de mortos nas guerras civis , em Angola e Moçambique , deita sempre a culpa para o regime anterior , que tem sempre as costas largas .

O que passou depois do 25A , foi uma vergonha nacional, e vai  manchar a história portuguesa, a irresponsabilidade da descolonização , que provocou a desgraça à maioria das populações locais , em beneficio de interesses de potencias internacionais , e na fortuna de muito poucos ...

A história vai começar ser mais imparcial , e realista .

No antigo regime havia injustiças na politica colonial , mas estavam a corrigir , e desenvolver esses territórios , dando  possibilidades às suas populações a terem uma vida melhor , que lhes foi negada na anarquia após indepência .
 

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jurista

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Re: Dien-Bien-Phu e as descolonizações
« Responder #6 em: Janeiro 25, 2013, 08:30:20 pm »
Citação de: "gaia"
Citação de: "jurista"
Citação de: "gaia"
Em Angola a guerra estava ganha , Moçambique controlada , e na Guiné a situação era mais complicada .

Eu assumo que isto seja uma piada...

Não é piada , é a realidade ....

O grande problema , em Portugal , é que a maioria da população , ainda está intoxicada pela esquerda desde 25A.

Esta esquerda para lavar as mãos das desgraças do após 25A , desde os retornados , os dois milhões de mortos nas guerras civis , em Angola e Moçambique , deita sempre a culpa para o regime anterior , que tem sempre as costas largas .

O que passou depois do 25A , foi uma vergonha nacional, e vai  manchar a história portuguesa, a irresponsabilidade da descolonização , que provocou a desgraça à maioria das populações locais , em beneficio de interesses de potencias internacionais , e na fortuna de muito poucos ...

A história vai começar ser mais imparcial , e realista .

No antigo regime havia injustiças na politica colonial , mas estavam a corrigir , e desenvolver esses territórios , dando  possibilidades às suas populações a terem uma vida melhor , que lhes foi negada na anarquia após indepência .

Em relação a esse comentário, com umas coisas concordo, com outras discordo. Mas nenhuma delas é relevante para aquilo de que falava antes. A guerra na Guiné era de facto a mais encarniçada e onde as coisas estavam pior. Mas a guerra não estava nem ganha em Angola (se alguma coisa estava mais para o perdida) e nem em Moçambique (embora este fosse o cenário em que a situação militar portuguesa era melhor).
 

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papatango

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Re: Dien-Bien-Phu e as descolonizações
« Responder #7 em: Janeiro 26, 2013, 10:27:40 pm »
Desculpe Jurista, mas isso pura e simplesmente não é verdade.

A situação de Angola era aquela que estava mais pacificada por volta de 1973.
Há muitas razões para explicar porque isso acontecia, mas a mais simples de explicar está relacionada com o fato de a étnia mais significativa ser a étnia Ovimbundo do planalto central e de o seu líder ter iniciado negociações secretas com os portugueses.

Portugal conseguiu colocar os vários movimentos em luta uns contra os outros e isso acabou por ajudar a desarticular as tantativas de desestabilização.

Por outro lado, como os grupos de «libertação» agiam a partir das fronteiras e as forças não tinham meios mecanizados, todo o material tinha que ser carregado às costas, pelo que os grupos tinham que viajar leves e com pouco armamento.
Como não podiam transportar comida suficiente, os movimentos de libertação tinham que recorrer ao roubo e por isso atraiam a ira das populações locais.

Logo, por uma miriade de fatores, a guerra em Angola estava ganha em 1973.
Você pode afirmar é que  uma guerra nunca acaba, porque se afinal a Alemanha perdeu a guerra, porque é que hoje é a nação que dá cartas na Europa ?
Mas no que diz respeito a este assunto, as sublevações em Angola que começaram em 1961 tinham sido controladas.
Repito:
Tinham sido controladas.

Se você falar com pessoas que lá viviam, estava-se mais seguro em algumas cidades de Angola, que em Lisboa ou no Porto.
Moçambique e a Guiné (especialmente a Guiné) são outro caso. Mas quanto a Angola não pode haver dúvidas.
Mesmo que a corrupta e criminosa de delito comum Isabel dos Santos tente comprar os arquivos da TOBIS e destruir os milhares de quilometros de filme que comprovam que o MPLA perdeu a guerra e não passava de um grupelho de assassinos e criminosos de delito comum pagos pelos russos.
Aliás, os chefes de alguns dos gangs hoje são generais influentes e dirigentes de empresas angolanas.

Mas mesmo que os criminosos e assassinos que defrontámos até à década de 1970 hoje tenham roubado tanto dinheiro que conseguem comprar metade de Portugal, isso não lhes dá o direito de alterar a história.
 

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Luso

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Re: Dien-Bien-Phu e as descolonizações
« Responder #8 em: Janeiro 29, 2013, 10:53:47 pm »
Citação de: "papatango"
Mas mesmo que os criminosos e assassinos que defrontámos até à década de 1970 hoje tenham roubado tanto dinheiro que conseguem comprar metade de Portugal, isso não lhes dá o direito de alterar a história.

Dá.
Quem pode tem o direito.
Aliás, não tem a história vindo a ser alterada com sucesso pelos compagnons de route dessa mesma gente?

O que tem graça - humor negro - é que boa parte dos idiotas úteis da Grande Traição (comunas) são os únicos que agora se afirmam como os únicos soberanistas! E na retórica, verdade seja dita, é verdade.
Os outros, ditos de direita, continuam o trabalho deixado por eles.

Negro, negro este momento que vivemos.
Ai de ti Lusitânia, que dominarás em todas as nações...
 

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mafets

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Re: Dien-Bien-Phu e as descolonizações
« Responder #9 em: Janeiro 30, 2013, 11:33:24 pm »
"100 Battles" de Martin J. Dougherty é de momento o "meu livro de cabeceira" sendo que o autor faz uma parabola interessante ao colocar as 3 batalhas mais marcantes do sueste asiatico seguidas: Dien Bien Phu, Khe Sanh e a Ofensiva do Tet (esta ultima com enfase para os combates travados em Hue e Saigon).

Um dos aspectos que salta logo à vista é que o Viet Minh e mais tarde o Vietcong/Forças Armadas do Vietnam do Norte só eram "terceiromundistas" no papel, pois na prática eram forças muito bem treinadas, doutrinadas, disciplinadas, com armamento bastante moderno e bem lideradas nomeadamente por No-Nguyen Giap. Tinham experiência de guerra com os japoneses desde 1941 sendo responsaveis por libertar uma boa parte do norte da indochina. Portanto quando os franceses chegam a indochina encontram um movimento com mais de uma decada de experiência de guerra contra os japoneses e que iria infligir qualquer coisa como 70 000 baixas à França.

O General Navarre face ao facto de a guerra estar a correr mal para os franceses, tenta então através da operação Castor atrair o Viet Minh para uma batalha convencional onde a superioridade aerea, material e tactica supostamente poderia fazer a diferença. Mas se o pensamento até parece ser correcto a escolha do local (Dien Bien Phu era uma antiga base japonesa e ficava num vale rodeado de montanhas inserido numa linha de abastecimento vital para Giap) a forma como foi defendido (9 pontos chave situados no vale e em colinas baixas) e sobretudo a avaliação das tropas em confronto (nunca o Coronel de Castries suspeitou que os seus 16 000 homens tinham pela frente 50 000 Viet Minh). E como os franceses não controlavam as colinas mais altas, quando Giap instalou mais de 200 peças de artilharia nos cumes circundantes que os franceses nem sequer tinham tentado ocupar, selou o destino da batalha. As posições chave foram caindo uma a uma, até a propria Dien Bien Phu ser tomada.

Conluindo: Na minha opinião a vitória militar e o destino dos povos que combatem entre si tem sempre a ver com as forças em confronto, organização das mesmas, impacto das acções desenvolvias ao longo do tempo e sobretudo com a geopolitica e a geoestratégia. Porque? No Borneu a guerrilha não ganhou e curiosamente no Vietnam em termos puramente militares também não. A tal componente geopolitica e geoestratégica no conflito demonstra que apesar de em termos militares Giap tentar repetir em Khe Sanh a vitória de Dien Bien Phu e não ter conseguido, (tendo o próprio Tet desarticulado completamente o Vietcong com mais de 54 000 baixas), acabou por conseguir (em termos politicos e estratégicos) uma tremenda vitória em 2 sentidos: Primeiro, porque aniquilou a maior parte dos varios movimentos que compunham o Vietcong impedindo-os assim de ser uma suposta força de bloqueio a Ho Chi Min aquando da anexação do Sul. Segundo, porque o impacto que o Tet teve nos EUA foi avassalador, sobretudo as imagens de combates em Hue, Saigon e do cerco a Khe Sanh (acompanhada da morte de 11 000 ARVN e 2000 soldados americanos) foi vista como uma clara derrota na batalha do Tet e como a certeza da opinião pública de que a guerra estava perdida, quadriplicando os protestos contra a mesma e forçando à retirada após as negociações de Paris.

Assim após a retirada americana e a queda do regime sul vietnamina, o problema da colonização do sueste asiatico estava resolvido. Não existiam mais colonizadores numa area que idiologicamente tinha a mesma cor, mas o Vietnam invadiu o Camboja e a China entrou em guerra com o Vietnam. O que a guerra supostamente tinha resolvido acabou por gerar problemas politicos e estratégicos e mais duas guerras. Só práticamente na viragem do século a indochina conseguiu alguma estabilidade e sem que um conjunto de questões politicas, territoriais e económicas estejam definitivamente resolvidas.

Saudações
"Nunca, no campo dos conflitos humanos, tantos deveram tanto a tão poucos." W.Churchil

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Dien Bien Phu

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por Sintra