Hoje, no Observador.
O jornalista esquece-se de mencionar sequer o EF, para ele inexistente. E depois faz um panegírico intenso do Rafale, o que me leva a suspeitar de não ser um artigo totalmente isento. Mas fica aqui na mesma, para vosso conhecimento...
https://observador.pt/opiniao/porque-e-que-portugal-comprar-o-f-35-e-mesmo-muito-ma-ideia/Rui Martins
Iniciativa Cidadãos pela Cibersegurança
Porque é que Portugal comprar o F-35 é, mesmo, muito má ideia?
O F-35 representa um risco elevado de dependência estratégica, combinando Mission Data Files centralizados, ciclos de atualização opacos e governação do programa fora do controlo do operador.
10 fev. 2026, 00:10
Em primeiro lugar há que desmistificar e colocar no seu devido lugar o mito de que o caça de 5.ª geração Lockeed F-3 tem um “kill switch”, um botão remoto, por software, que permite aos EUA desligar o aparelho e torná-lo num “tijolo” simplesmente pousado numa pista. Com efeito, nada indica que esse botão “mágico” exista. É verdade que, no meio de mais de 20 milhões de linhas de código proprietário não é impossível que existam um ou vários módulos que desliguem sistemas essenciais ao uso do aparelho, mas é improvável que exista algo de tão directo e absoluto como um “kill switch” remoto aos dispor dos norte-americanos. Mas isso não quer dizer que, na prática, exista algo que pode funcionar com um “limitador”.
No F-35 existe, na verdade, uma dependência estrutural em 3 camadas, algo que concede aos EUA a capacidade real e efetiva de condicionar remotamente quando, como e com o quê exatamente o que avião vai combater.
Em primeiro lugar temos a camada constituída pelos “Mission Data Files” (MDF): um conjunto de bibliotecas de ameaças (radares, sistemas SAM, emissores de radar, etc), parâmetros de guerra eletrónica, e vários perfis que o aparelho pode assumir para conseguir sobreviver e operar num ambiente de guerra moderno. Estes MDF são produzidos e mantidos num sistema localizado nos EUA, com infra estruturas na base aérea de Egli e diversas estruturas de apoio tais como o Partner Support Complex e outras instalações que estão integrados neste denso ecossistema. Nesta camada, o bloqueio pode ser feito de forma relativamente simples: basta cortar o acesso ao canal que produz e divulga os MDF para limitar severamente a operação do F-35. O aparelho continua a voar mas perde capacidade e proteção num teatro hostil de operação. Não é, assim, “desligado remotamente” mas pode ser “limitado remotamente”: sem margem para dúvida.
A segunda camada de limitação funcional do F-35 reside no seu complexo e opaco software: O aparelho foi concebido para ser alvo de atualizações, patches e melhorias de segurança constantes. Sem essas actualizações o aparelho fica como um aparelho que ficou “encravado” no Windows 7 ou no Windows 10.
A terceira camada de limitação que pode ser remotamente imposta pelos EUA aos operadores deste aparelho é a sua capacidade para integração de armas e para assumir o papel de “autoridade de integração” deste sistema combinado de equipamentos. Toda a integração (até com os parceiros europeus que colaboraram no desenvolvimento do programa) compete aos EUA.
Importa agora, no contexto da inevitável substituição dos F-16 operados pela FAP, avaliar as alternativas europeias à migração para um dos sistemas de armas mais complexos e mais caros de sempre e comparar, muito concretamente, estes riscos e limitações com as capacidades do Saab Gripen e do Dassault Rafale.
Saab Gripen (C/D e sobretudo E/F): O Gripen foi comercializado numa filosofia “pequena força aérea com controlo nacional” e a Saab tem um forte histórico de transferência de tecnologia e, pontualmente, de acesso ao código-fonte do aparelho e documentação para permitir integração local e evolução com um baixo nível dependência do fabricante sueco. No Gripen, o risco de “ficar refém” de um único país com um fluxo centralizado de manutenção é muito menor do que num programa tão completo como o do F-35 (embora não seja zero uma vez que há componentes export-controlled e, em particular, de origem norte-americana).
Dassault Rafale: O Rafale tende a ser o oposto do Gripen na questão do código: a França (Dassault/Thales/Safran) é muito defensiva quanto ao acesso ao núcleo do software e às integrações do seu aparelho. Há relatos recorrentes (Índia) de resistência a transferir “source code” do sistema (por receios de que caiam em mãos russas) mas há uma diferença crucial face ao F-35: o Rafale não assenta no mesmo modelo de dependência em dados de missão centralizados em Eglin (EUA) e numa cadeia de atualização global tão densa como a do F-35. O país operador continua dependente do fornecedor para determinadas integrações, mas a arquitetura política e logística costuma ser menos centralizada.
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Em conclusão, o F-35 representa um risco elevado de dependência estratégica, combinando Mission Data Files centralizados, ciclos de atualização opacos e governação do programa fora do controlo do operador. Não é um “kill switch” (como diz o mito) clássico, mas trata-se de um sistema concebido para funcionar plenamente apenas dentro de um ecossistema político, técnico e industrial controlado pelos Estados Unidos. Para um país como Portugal, isso traduz-se numa perda grave de soberania operacional, sobretudo em cenários politicamente sensíveis ou fora do alinhamento estrito com Washington.
O Saab Gripen E/F apresenta, sem dúvida, a melhor filosofia de soberania técnica negociável. O seu historial de transferência de tecnologia, abertura à integração local, custos de operação controlados e arquitetura pensada para forças aéreas pequenas ou médias fazem dele uma opção racional, financeiramente sustentável e tecnicamente flexível. Com uma negociação bem realizada, o Gripen pode oferecer a Portugal um grau de autonomia superior à qualquer outra opção. O problema não está no conceito, mas no limite das suas capacidades como sistema de armas completo em cenários de alta intensidade, nomeadamente ao nível de alcance, carga útil, persistência, guerra eletrónica integrada e projeção de poder autónoma.
É nesta frente que o Dassault Rafale francês tem vantagem. O Rafale é um sistema plenamente maduro, multirole real, provado em combate real, com forte integração entre sensores, sistemas de guerra eletrónica e armamento, e com uma autonomia operacional que o Gripen não possui. A arquitetura do Rafale não depende de hubs globais externos nem de dados de missão centralizados fora do país operador, o que reduz drasticamente a capacidade de condicionamento remoto por terceiros. A dependência existe, como em qualquer sistema complexo, mas é bilateral, previsível e assente num Estado europeu com interesses estratégicos mais estáveis e alinhados com os de Portugal do que os de uma administração americana volátil.
É verdade que a França é defensiva no acesso ao núcleo do software e que não devemos alimentar a ilusão de uma “soberania total” no uso do aparelho. Mas esta limitação é clara, explícita e contratual e não está escondida atrás de um ecossistema técnico global que pode ser desligado camada atrás de camada (ou de uma só vez). Além do mais, o Rafale oferece vantagens concretas que pesam na decisão estratégica: maior alcance, maior capacidade de dissuasão, integração profunda de guerra eletrónica com o sistema SPECTRA, independência face a cadeias logísticas globais norte-americanas e uma lógica de emprego operacional mais próxima daquilo que uma força aérea europeia soberana precisa.
Se hoje tivesse de recomendar uma solução para a FAP tendo como critério central a soberania operacional real – isto é, a capacidade de empregar o avião quando, como e contra quem o Estado português decidir – a escolha mais coerente não seria o F-35. Entre o Gripen e o Rafale, sendo que o primeiro seria a melhor solução “eficiente” do ponto de vista económico e financeiro. No entanto, considerando o equilíbrio entre autonomia política, robustez militar, maturidade do sistema e menor exposição a bloqueios estratégicos indiretos, o Dassault Rafale surge com vantagem como opção de longo prazo para Portugal: menos dependência, mais completo e mais compatível com a soberania militar efetiva de que Portugal precisa.