https://eco.sapo.pt/opiniao/a-participacao-da-industria-nos-investimentos-em-defesa/A participação da indústria nos investimentos em Defesa
A afirmação internacional das nossas empresas é um passo necessário para a criação de resiliência na Defesa Nacional e para um apoio de proximidade aos Ramos militares no desempenho das suas missões.
Ogoverno de Portugal que tomou posse em 2024 assumiu como prioridade política a Defesa Nacional. Esta prioridade significou que Portugal recuperou, após décadas de secundarização da segurança, o que a História nos ensina sobre o retorno do investimento nesta área: em soberania e independência nacional; num futuro com paz; e na prosperidade da comunidade.
Como o investimento em Defesa realizado por cada país tem uma forte correlação com a dimensão da sua indústria, uma vez que o Estado é o seu principal cliente, uma das prioridades do Ministério da Defesa Nacional é potenciar a participação das empresas portuguesas como forma de acelerar o desenvolvimento económico e aumentar o emprego. A opção pelo investimento em Defesa e o duplo uso militar e civil que a tecnologia potencia é, por isso, uma aposta na criação de riqueza.
As cimeiras de Washington, em 2024, e a de Haia, em 2025, consolidaram a expansão das capacidades militares de Portugal dentro da NATO, estabelecendo um compromisso com a produção e o reforço da indústria para garantir o efeito dissuasor baseado em vantagens tecnológicas. Neste âmbito, os investimentos em produtos e no equipamento das Forças Militares previstos até 2030 — onde se incluem navios, blindados, viaturas tácticas, sistemas não tripulados e anti-drone, satélites, munições e sistemas de artilharia e de antiaérea — são uma excelente oportunidade para a indústria Nacional.
O envolvimento da indústria está a ser concretizado de quatro diferentes formas:
Compras diretas de equipamentos e sistemas a empresas portuguesas;
Atração de investimento estrangeiro na construção de capacidades na Defesa que incluem fornecimentos nacionais;
Compras a empresas portuguesas de componentes e produtos que são integrados nas aquisições realizadas pelos Ramos militares;
Encontros entre empresas portuguesas e grandes fabricantes facilitando a sua entrada nas cadeias de fornecimento a nível internacional.
Desenvolvendo a visão estratégica do Ministério da Defesa Nacional, a idD Portugal Defence tem a missão de promover o papel da Indústria na construção de capacidade e de resiliência na Defesa, reforçando a ligação entre as necessidades dos Ramos militares e o conhecimento, a tecnologia e as capacidades disponibilizadas pela Indústria. Para garantir o envolvimento da indústria atua em duas dimensões — aquisições e desenvolvimento tecnológico — que refletem a orgânica da NATO — Comando Aliado Operacional na Europa e o Comando Aliado para a Transformação nos EUA — e dos próprios Ramos nacionais — planeamento e logística, por um lado, e inovação tecnológica, por outro.
Nos investimentos previstos, a idD promove a participação da indústria em cinco fases:
Atualização de contactos das empresas para garantir que pudessem ter acesso a estas oportunidades — o que aconteceu com todas as que fizeram a atualização;
Manifestação de interesse que incluiu a forma como cada entidade poderia integrar o fornecimento dos equipamentos e produtos previstos;
Organização da informação recebida de várias dezenas de empresas sobre a sua capacidade de fornecimento por tipo de equipamento e produto a adquirir;
Envio desta informação aos Ramos para ser considerada nas aquisições a realizar;
Integração na lista de possíveis fornecedores entregues aos potenciais fabricantes dos equipamentos a adquirir.
A concretização destas aquisições pelo Estado português serão o passo seguinte neste processo que visa integrar ao máximo a indústria de Defesa Nacional. Note-se, contudo, que este processo não garante, só por si, as vendas de qualquer uma das 420 empresas e centros de investigação nacionais. A participação da indústria que atua na Defesa, e de novas empresas, está, antes de mais, dependente da posse de tecnologia e de capacidade produtiva que respondam às necessidades militares.
Uma vez que a indústria de Defesa Nacional, na maioria de pequena e média dimensão, não está atualmente preparada para fabricar todos os sistemas de armas necessários para equipar os Ramos militares, o seu desenvolvimento futuro passa também pela maior afirmação internacional de áreas de especialização para ganhar escala, desenvolver tecnologias, estabelecer parcerias, controlar as diferentes fases das cadeias de valor e obter custos de produção médios mais baixos de modo a poder praticar preços e condições de venda competitivos.
A afirmação internacional das nossas empresas é, por isso, um passo necessário para a criação de resiliência na Defesa Nacional e para um apoio de proximidade aos Ramos militares no desempenho das suas missões. As grandes áreas de especialização e de maior competitividade da Indústria de Defesa portuguesa são as seguintes:
Consultoria e programação informática: sistemas de Comando e Controlo, Simulação, Cibersegurança e outras aplicações no Espaço e submarinas;
Reparação, manutenção e remodelação naval, aérea e terrestre;
Engenharia e design: materiais compósitos, mecânica de precisão, aeronáutica militar, etc.;
Equipamento elétrico e eletrónico: comunicações, sensores, fontes de energia autónomas e componentes diversos;
Têxtil, vestuário e calçado como botas, fardamento e proteção operacional;
Sistemas não tripulados em vários domínios: aéreos, de superfície, submarino e terrestre.
O reforço destas vantagens competitivas complementa as oportunidades geradas pelo novo investimento em Defesa, tanto o nacional como o dos aliados, e ajuda a criar condições para que a indústria nacional avance para a produção de novas plataformas aéreas, terrestres e navais, alargue o desenvolvimento de sistemas não tripulados em ar, terra, mar e submarinos, e incorpore mais tecnologia inovadora como Inteligência Artificial, já usada em drones, ou física quântica aplicada em comunicações encriptadas.
Mais do que um benefício imediato, os investimentos que Portugal está a fazer vão potenciar a indústria e alargar a autonomia futura da Defesa Nacional.